MIRINZAL - “Antes, os pretos de Frechal eram proibidos de entrar neste casarão. Hoje, estamos recebendo aqui um espaço para incentivar o empreendedorismo e criar oportunidades para o nosso povo.” O desabafo emocionado de Benedito de Ribamar, vice-presidente da Associação de Moradores do Quilombo Frechal, em Mirinzal (MA), traduz o peso histórico de uma inauguração que promete mudar o rumo das comunidades tradicionais no Brasil.
O antigo casarão, que no passado representava a opressão dos barões de terra contra os escravizados, agora abriga a primeira Sala do Empreendedor Quilombola do país.
A iniciativa inédita, liderada pelo Sebrae Maranhão em parceria com a Prefeitura de Mirinzal e o Governo do Estado, insere o atendimento técnico e especializado para afroempreendedores diretamente no coração de um dos territórios de resistência mais emblemáticos do Brasil.
Diversos serviços serão oferecidos
A escolha de Frechal para sediar o projeto piloto nacional carrega forte simbolismo. O território, que conquistou sua titulação coletiva em 1992 após décadas de conflitos e mobilização comunitária, agora se torna o epicentro de um modelo de inclusão produtiva. A nova estrutura vai oferecer serviços que vão desde a formalização de Microempreendedores Individuais (MEIs) até consultorias financeiras, orientação para crédito e capacitação em economia criativa.
Para os moradores, a chegada do projeto representa tanto uma reparação histórica quanto uma janela para o futuro. Aos olhos da anciã Maria do Socorro Silva Mondego, que nasceu e cresceu na comunidade, a mudança é a resposta para uma espera de gerações. "Acredito que isso vai mudar muitas coisas porque é o que a gente aguarda há muito tempo. Vejo uma grande oportunidade para os jovens", celebra.
O impacto prático já reverbera entre os produtores locais. A artesã Fabiana Carneiro, que desenvolve biojoias e cosméticos com matéria-prima da região, planeja expandir sua atuação com o suporte técnico. "Aqui temos artesanato forte e agricultura familiar. Meu sonho é abrir uma pequena empresa voltada para esses produtos da nossa biodiversidade, e agora vejo que esse sonho pode ser real", projeta.
O sentimento é compartilhado pela agente de desenvolvimento local, Josilene de Jesus Silva, que destaca a elevação da autoestima comunitária: "Pensávamos que o empreendedorismo jamais chegaria ao quilombo dessa forma".
Impacto regional
O modelo implementado pretende servir de vitrine para outras regiões. Somente no município de Mirinzal existem 17 comunidades quilombolas registradas que poderão se beneficiar do polo de atendimento.
Para dar suporte a essa demanda, a estrutura vai atuar diretamente no incentivo ao cooperativismo, na inclusão digital dos produtores e no fomento ao turismo de base comunitária, permitindo que os moradores gerem receita sem abrir mão de suas tradições.
De acordo com o diretor superintendente do Sebrae Maranhão, Albertino Leal, o foco é transformar a ancestralidade e a cultura em ativos econômicos sustentáveis. "Precisamos apoiar essa comunidade para que enxergue oportunidades no turismo, no artesanato e na cultura, melhorando a qualidade de vida das famílias por meio de negócios próprios", pontua.
O prefeito de Mirinzal, Deyvison Ribeiro Soares, acrescenta que o projeto estabelece um divisor de águas para a economia do Litoral Ocidental maranhense.
“A Sala do Empreendedor já é uma ferramenta importante para o desenvolvimento dos negócios. A Sala do Empreendedor Quilombola carrega uma proposta ainda maior. Receber a primeira do Brasil em nosso município é motivo de orgulho. Acreditamos que haverá um antes e um depois dessa iniciativa para os empreendedores quilombolas”, declarou.
Segundo a gerente da Unidade de Negócios do Sebrae em Pinheiro, Rosa Amélia, a inauguração representa um novo capítulo na trajetória da comunidade.
“Estamos completando hoje um capítulo na história do Quilombo Frechal. Ressignificamos um ambiente que antes simbolizava a opressão vivida pelos ancestrais e que agora se transforma em uma porta de entrada para grandes oportunidades. Isso nos deixa extremamente orgulhosos enquanto Sebrae”, destacou.
Parceria que gera resultados
A consolidação do espaço resulta de uma articulação que envolve a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), a Agência Estadual de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural (Agerp), a Secretaria de Estado da Agricultura Familiar (SAF), a Agência de Desenvolvimento da Região do Litoral Ocidental Maranhense (Adere) e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais.
Entre apresentações culturais, relatos emocionados e momentos de celebração, a inauguração marcou não apenas a entrega de um equipamento de apoio aos negócios, mas o reconhecimento de uma trajetória de resistência que transforma cultura, território e ancestralidade em oportunidades de futuro.
Ao unir forças institucionais sob o teto de um antigo símbolo colonial, o projeto planta no Maranhão um novo marco para as políticas de desenvolvimento territorial e igualdade racial no Brasil.
Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.