Brasília

Câmara quer mudar regras para eleger deputados e reduzir força de puxadores de votos

Proposta defendida por Hugo Motta pode alterar a distribuição das vagas no Congresso e diminuir a influência de candidatos com votações expressivas. PT e PL estão entre os partidos que resistem à mudança.

Imirante, com informações do g1

Câmara discute mudanças nas regras eleitorais que podem reduzir a influência dos puxadores de votos. Hugo Motta quer avançar com a proposta ainda em 2026. (Antonio Cruz / Agência Brasil)

BRASÍLIA – Deputados federais articulam mudanças nas regras eleitorais ainda neste fim de ano, aproveitando a atual composição da Câmara antes da posse dos parlamentares eleitos em outubro. Uma das principais propostas é a adoção do sistema distrital misto, que mudaria a forma de escolha dos deputados e poderia reduzir a influência dos chamados puxadores de votos, candidatos que conseguem eleger outros integrantes de seus partidos graças à votação expressiva que recebem.

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), defende a mudança e pretende colocar o assunto em discussão ainda em 2026. A proposta conta com apoio de partidos do Centrão, especialmente do PSD, comandado por Gilberto Kassab, e do MDB. As duas legendas possuem forte presença nos municípios e podem ganhar espaço em um modelo que valorize as disputas eleitorais regionais.

Na quarta-feira (28), Motta reuniu dirigentes e lideranças de União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Podemos e da federação PSDB-Cidadania para discutir a reforma.

“Estou feliz em reabrir esse debate e encontrar uma janela ainda neste ano para fazer essa mudança. Estou aqui para atender a um apelo dos líderes, e chegou o momento de enfrentar esse tema”, afirmou o presidente da Câmara.

Apesar das articulações, ainda não há acordo entre os principais partidos. PT e PL, que possuem parlamentares com grande capacidade de atrair votos, estão entre as legendas resistentes à alteração.

Como funcionaria a eleição dos deputados?

Atualmente, os deputados federais são eleitos pelo sistema proporcional. Nesse modelo, os votos recebidos pelos candidatos e por seus partidos ajudam a determinar quantas vagas cada legenda terá na Câmara.

Isso significa que um candidato com votação muito alta pode contribuir para eleger outros integrantes de seu partido, mesmo que eles tenham recebido individualmente menos votos do que candidatos de outras legendas.

É o caso dos chamados puxadores de votos, como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que conquistou milhões de votos nas eleições de 2026.

No sistema distrital misto, a escolha seria diferente. Parte dos deputados seria eleita diretamente em regiões delimitadas, chamadas distritos eleitorais. Outra parte das vagas seria preenchida conforme a votação recebida pelos partidos, a partir de listas de candidatos.

Assim, o resultado dependeria tanto das disputas dentro de cada distrito quanto da votação partidária.

O modelo também poderia ampliar a influência de prefeitos e lideranças locais, especialmente em municípios onde determinados partidos já possuem uma estrutura política consolidada.

Partidos querem limitar influência de candidatos populares

O debate ganhou força depois das eleições de outubro, quando parlamentares com forte presença nas redes sociais conseguiram votações expressivas e contribuíram para ampliar suas bancadas.

Esse mecanismo não é novo. Em 2010, o humorista Tiririca se tornou um dos exemplos mais conhecidos ao conquistar uma votação suficiente para ajudar a eleger outros candidatos de seu partido.

Nos últimos anos, porém, políticos com grande alcance nas redes sociais passaram a desempenhar esse papel.

Uma das alternativas discutidas na Câmara é estabelecer um limite para a quantidade de votos que um candidato pode contribuir para a eleição de outros integrantes da legenda.

Entre as hipóteses mencionadas nas articulações está uma trava de até um milhão de votos para esse cálculo. A ideia ainda não representa uma regra aprovada nem um texto definitivo.

A medida poderia reduzir a vantagem dos partidos que concentram grande quantidade de votos em poucos candidatos, mas também mudaria a forma como os votos recebidos por essas legendas são considerados na distribuição das vagas.

Mudança pode começar em 2030

Embora Hugo Motta queira avançar com a discussão ainda em 2026, a proposta apresentada prevê uma transição nas eleições de 2030, com a implantação completa do sistema distrital misto em 2034.

O presidente da Câmara pretende conversar com outras legendas, incluindo PT, PL e Novo, antes de definir os próximos passos.

A proposta também deverá ser discutida com o Senado. Motta afirmou que pretende tratar do assunto com o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP).

As mudanças em debate atingem as eleições para deputados federais, deputados estaduais e vereadores. As regras para a escolha de presidente da República, governadores e senadores não fazem parte dessa proposta.

Propaganda eleitoral nas redes também será discutida

Além da mudança na eleição dos parlamentares, Hugo Motta anunciou a criação de um grupo de trabalho para discutir novas regras de propaganda política nas redes sociais.

A comissão deverá reunir representantes de todos os partidos da Câmara e apresentar propostas para atualizar a legislação eleitoral diante do crescimento das campanhas digitais.

Segundo Motta, a intenção é estabelecer critérios mais claros para a propaganda nas plataformas, assim como já existem regras para campanhas na televisão, no rádio e em materiais impressos.

“Nosso objetivo não é tolher ninguém, não é censurar ninguém, mas trazer quais são os critérios”, declarou.

A votação das propostas, porém, ainda depende de negociações entre as bancadas. A resistência de partidos como PT e PL pode dificultar a construção de um acordo para aprovar as mudanças antes do encerramento do ano legislativo.

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