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De Olho na Economia
É economista com experiência nacional e internacional em análises macroeconômicas e microeconômicas. Possui habilidade em análises setoriais, gestão do capital humano, orçamentos e finanças.
CONJUNTURA INTERNACIONAL

A Nova Crise do Petróleo e a Miopia Estratégica Brasileira

Alta do petróleo provocada por tensões internacionais reacende debate sobre refino, infraestrutura e segurança energética no Brasil.

Wagner Matos

Crise no Oriente Médio tem impactos no Brasil. (Foto: Divulgação)

Oi, meus amigos. Nas últimas semanas, o aumento das tensões geopolíticas internacionais voltou a influenciar o mercado global de energia e pressionou com força o preço do petróleo. Como economista, entendo que esses movimentos vão além das oscilações normais do mercado. O que vemos é uma mudança estrutural e logística em curso. A seguir, esclareço os principais fatores desse cenário e seus impactos para o Brasil.

A crise mais recente teve origem na Arábia Saudita, onde o Oleoduto Leste-Oeste (East-West Pipeline) foi atacado por drones. A estrutura tem 1.200 km de extensão e capacidade para transportar até 7 milhões de barris por dia (bpd), volume equivalente a cerca de 7% da demanda global diária, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). O oleoduto era a principal rota alternativa até o porto de Yanbu, no Mar Vermelho, permitindo à Arábia Saudita escoar petróleo bruto sem depender do vulnerável Estreito de Ormuz. Com a infraestrutura parada para reparos emergenciais nas estações de bombeamento, a Saudi Aramco precisou cancelar suas alocações contratuais de longo prazo para outubro de 2026, afetando refinarias na Europa, Índia e China.

O cancelamento simultâneo de entregas para Europa e Ásia provocou um efeito em cadeia. As refinarias dessas regiões tiveram de disputar, com mais intensidade, os barris disponíveis no mercado de curto prazo (spot), buscando alternativas no Mar do Norte, na África Ocidental, no Brasil e no Golfo do México. Como a demanda por energia no curto prazo é pouco flexível, o impacto foi imediato. As cotações dispararam, o barril tipo Brent superou US$ 120 e os custos do frete marítimo subiram de forma expressiva. 

Esse cenário geopolítico se torna ainda mais complexo com a pressão do governo dos Estados Unidos. A ameaça de Washington de aplicar tarifas punitivas de até 100% sobre compradores de petróleo russo cria um dilema para países muito dependentes de importações, como Índia e China. Sem acesso pleno ao petróleo saudita e diante de fortes restrições ao produto russo, o mercado global perde margem de manobra. A redução da oferta aumenta o risco de estagflação global, cenário marcado por inflação elevada, baixo crescimento econômico e desemprego alto. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos reforçam sua posição como peça central na produção mundial, inclusive por meio de sua influência sobre as reservas venezuelanas, em uma tentativa de estabilizar preços e fortalecer a hegemonia do dólar no comércio internacional.

Diante desse ambiente de alta volatilidade, o Estado brasileiro, seja qual for o grupo no governo ou na oposição, ainda não percebe a dimensão da oportunidade histórica. O Brasil já é o maior produtor de petróleo da América Latina, com produção de cerca de 3,5 milhões de barris por dia, segundo dados recentes da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). No entanto, a capacidade nacional de refino permanece em torno de 2,4 milhões de bpd. Com isso, o país exporta óleo cru a preços mais baixos e importa derivados caros, como diesel e gasolina.

Em resumo, o Brasil tem a matéria-prima, mas não dispõe da infraestrutura necessária para processá-la e manter o valor agregado dentro do país. Com uma política de Estado voltada a transformar o Brasil em potência de refino e a melhorar a exploração do gás natural, estaríamos mais protegidos contra choques externos e aptos a exportar derivados de maior valor para um mercado global em busca de alternativas. Enquanto não compreendermos que segurança energética depende de capacidade de processamento, seguiremos como espectadores e pagadores das crises internacionais, desperdiçando o retorno econômico e o salto de desenvolvimento que essa riqueza poderia gerar para a nação.


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