BRASÍLIA – O ECA Digital começa a valer nesta terça-feira (17) em todo o país. A Lei nº 15.211/2025 cria regras para proteger crianças e adolescentes no ambiente online, incluindo redes sociais, jogos eletrônicos, serviços de vídeo e lojas virtuais acessadas por menores de idade.
A legislação foi sancionada em setembro do ano passado e não substitui o Estatuto da Criança e do Adolescente, mas amplia as garantias para o ambiente digital.
Especialistas consideram a nova norma um marco na proteção infanto-juvenil e dizem que o Brasil passa a ter uma das leis mais completas do mundo sobre o tema.
O que é o ECA Digital
O ECA Digital estabelece que a proteção prevista no mundo físico também deve existir no ambiente virtual.
Pesquisadoras que acompanham políticas de proteção à infância classificam a lei como histórica e de vanguarda.
Segundo a especialista Águeda Barreto, da ONG ChildFund Brasil, o país se antecipou ao criar regras específicas para o uso da internet por crianças e adolescentes.
“Nós acompanhamos que esse é um movimento global, mas essa lei brasileira aprovada é bem ampla”.
Ela cita que outros países também discutem restrições, como a Austrália, que proibiu redes sociais para menores de 16 anos.
Origem da lei e caso Felca
A aprovação do ECA Digital ganhou força após a divulgação de um vídeo do influenciador Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, que denunciou perfis que sexualizavam menores nas redes sociais.
O conteúdo alertava para a exposição de crianças a conteúdos impróprios e para a monetização desse tipo de material.
Por causa do episódio, a nova legislação passou a ser chamada informalmente de Lei Felca.
A lei proíbe a monetização ou impulsionamento de conteúdos que sexualizem menores ou usem linguagem adulta.
Segundo Maria Mello, do Instituto Alana, o debate público ajudou a acelerar a aprovação.
“O debate público a esse respeito cresceu e foi bastante importante para a lei, que já estava madura, para que pudesse ser aprovada rapidamente.”
Uso da internet por crianças no Brasil
Dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025 mostram a dimensão do problema que o ECA Digital pretende enfrentar.
- 92% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos usam internet
- cerca de 24,5 milhões de jovens estão conectados
- 85% têm perfil em redes sociais
Entre os mais novos:
- 64% dos usuários de 9 e 10 anos têm perfil
- 79% entre 11 e 12 anos
- 91% entre 13 e 14 anos
- 99% entre 15 e 17 anos
Responsabilidade das famílias e das empresas
A nova lei determina que a proteção dos menores será compartilhada entre famílias e empresas de tecnologia.
Menores de 16 anos só poderão usar redes sociais com conta vinculada a responsável legal.
Segundo Águeda Barreto, o objetivo é permitir a supervisão mais próxima.
“A ideia é monitorar conversas, tempo de uso, bloqueio de conteúdos inadequados e autorização para compras.”
A advogada Bianca Mollicone afirma que a lei não substitui o papel da família.
“Não dá para terceirizar a educação dos filhos e depois culpar apenas as plataformas.”
Por outro lado, especialistas destacam que a responsabilidade não pode recair só sobre os pais, especialmente em um país com milhões de mães solo e falta de espaços públicos para crianças.
Verificação de idade obrigatória
O ECA Digital proíbe a simples autodeclaração de idade em sites e aplicativos.
As plataformas terão que usar mecanismos mais seguros para confirmar a idade dos usuários.
Segundo Kelli Angelini Neves, do NIC.br, as empresas terão que impedir acesso indevido de menores.
“O site terá que aferir a idade e indisponibilizar contas e compras para menores.”
O Ministério da Justiça e a Autoridade Nacional de Proteção de Dados devem definir regras técnicas para isso.
Combate à violência e exploração online
A lei também cria medidas para enfrentar crimes na internet.
Pesquisa com 8 mil adolescentes mostrou que 54% já sofreram algum tipo de violência sexual online.
O ECA Digital determina que conteúdos com:
- exploração sexual
- violência
- drogas
- bullying
- cyberbullying
- incentivo ao suicídio
- automutilação
devem ser removidos em até 24 horas.
As ocorrências devem ser comunicadas à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
A lei também proíbe publicidade abusiva e conteúdos que incentivem apostas ou causem prejuízo financeiro a menores.
Regras para jogos e loot boxes
A legislação também mira as chamadas loot boxes, caixas de recompensa comuns em jogos.
Elas permitem gastar dinheiro sem saber o que será recebido, o que pode estimular comportamento semelhante a jogos de azar.
Segundo especialistas, o modelo pode explorar a vulnerabilidade infantil.
“Esse movimento cria um vício que faz gastar cada vez mais”, afirma Bianca Mollicone.
Proteção de dados e configurações obrigatórias
Plataformas e sistemas operacionais terão que indicar a faixa etária do usuário por meio de sinais técnicos.
Aplicativos deverão usar esse dado para liberar ou bloquear conteúdos.
Contas de menores deverão ter, por padrão, o nível máximo de privacidade.
Segundo Maria Mello, esse é um dos avanços da lei.
“O que a lei faz é consagrar o princípio da proteção integral para o ambiente digital.”
Sanções para empresas
O ECA Digital também prevê punições para empresas que descumprirem as regras.
Entre as sanções estão:
- advertência
- multa de até 10% do faturamento
- suspensão do serviço
- perda de autorização para funcionar no país
Empresas estrangeiras também podem ser responsabilizadas por meio de suas filiais no Brasil.
Além disso, plataformas com mais de 1 milhão de usuários menores devem apresentar relatórios periódicos à Autoridade Nacional de Proteção de Dados.
Saiba Mais
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