CE: Canoa Quebrada investe no profissionalismo

AgĂȘncia Nordeste

Atualizada em 27/03/2022 Ă s 15h01

FORTALEZA - A expectativa aumenta a cada quilĂŽmetro vencido no asfalto novo da estrada em linha reta. LĂĄ na frente, do outro lado das fartas dunas fica uma das praias mais famosas do Brasil. É Canoa Quebrada, no litoral leste do CearĂĄ. Descoberta por hippies na dĂ©cada de 70, a antiga vila de pescadores do municĂ­pio de Aracati continua encantando os visitantes que se deliciam com as ondas quebrando calmas nas areias protegidas por falĂ©sias avermelhadas, moldando a praia a perder de vista. A beleza de paisagens cinematogrĂĄficas parece soltar uma certa magia no ar que se mistura Ă  hospitalidade dos nativos e Ă  informalidade de pessoas de todas as partes do mundo que escolheram a vila para moradia permanente.

Essa mistura de culturas, o jeito pacato de levar a vida durante o dia e uma noite recheada de opçÔes de lazer, embalada pelo ritmo do forrĂł, dĂŁo um toque especial Ă  praia que nĂŁo sai da moda, diz a gestora do Programa de Turismo do Sebrae no CearĂĄ, Ana ClĂ©via Guerreiro Lima. Mas tambĂ©m cria um certo compromisso entre os moradores para nĂŁo frustrar os turistas que nĂŁo param de chegar em qualquer Ă©poca do ano. “O nĂ­vel de profissionalismo surpreende, talvez influenciado pelo convĂ­vio com os estrangeiros”, acredita a gestora. No pequeno balneĂĄrio os apelidos fazem parte do dia-a-dia dos habitantes. Todos sĂŁo vizinhos, conhecidos. É o Chico de AlĂł, o Luiz do Chega Mais. Sem perder a descontração, o serviço oferecido Ă© de primeiro mundo.

NĂŁo Ă© Ă  toa que a primeira barraca de praia, dessas de frente para o mar, plantada em cima da areia, a ganhar um selo de qualidade de serviços no CearĂĄ estĂĄ lĂĄ em Canoa Quebrada. À beira da praia tambĂ©m estĂĄ um restaurante que logo depois conquistou o selo. É o Bom Motivo. AliĂĄs, o dono do restaurante Ă© o Chico de AlĂł, ou Francisco de Assis Pereira da Silva. À frente da barraca Chega Mais estĂĄ o Luiz, ou Gevandro Nogueira da Costa.

Concedido pelo Sebrae, o selo é reavaliado de seis em seis meses, caso o estabelecimento continue merecendo, ressalta Ana Clévia. A barraca jå conseguiu carimbar oito vezes consecutivas o seu passaporte de qualidade e o restaurante, quatro vezes. Ao chegar na barraca ou no restaurante não é difícil concluir porque os estabelecimentos conquistaram a distinção.

Depois de descer uma escada com 104 degraus de madeira colocada na falĂ©sia, lĂĄ embaixo estĂĄ a barraca Chega Mais, sob uma faixa de areia que se estende atĂ© mar. Em volta da barraca a cobertura de palha se estende por alguns metros. FuncionĂĄrios gentis e uniformizados encaminham os visitantes para uma das 200 mesas instaladas sobre a areia limpa. Luiz, o proprietĂĄrio, divide-se entre a barraca e, agora, a administração de uma agĂȘncia de viagens, aberta recentemente no balneĂĄrio.

Uma olhada råpida pelo local registra algumas diferenças que chamam a atenção. Os banheiros masculino e feminino instalados ao fundo, próximos à falésia, são de alvenaria, com tijolinhos à vista e a uma boa altura do chão. Uså-los causa surpresa, se comparado à maioria dos banheiros de barraca de praia. São limpos, espaçosos, bem iluminados e não falta papel nem sabonete líquido. Para enxugar as mãos, måquinas automåticas.

Se no Brasil fĂ©rias Ă© quase sinĂŽnimo de sol, mar e descontração, em Canoa Quebrada, alĂ©m de saber disso, os comerciantes estĂŁo esmerando-se para conquistar cada vez mais um nĂșmero maior de turistas com bom atendimento. A conquista do selo foi por iniciativa dos prĂłprios empresĂĄrios. Tanto Luiz, quanto Chico de AlĂł, solicitaram consultoria do Sebrae para obter o selo. NĂŁo satisfeito, Luiz, junto com mais cinco empresĂĄrios, fundou a Associação dos EmpresĂĄrios de Canoa Quebrada, a Asdecq.

Canoa Quebrada tem tudo a ver com o trabalho do Sebrae, diz Ana ClĂ©via Guerreiro Lima, gestora do Programa de Turismo do Sebrae no CearĂĄ. Os prĂłprios moradores e turistas que decidiram mudar para lĂĄ abriram pequenos empreendimentos. “NĂŁo tem nada muito grande”, sintetiza a gestora. Desde 2000, em parceria com o Sebrae, Ă© realizada a Expoturismo, primeiro no municĂ­pio de Aracati e, este ano, foi sediada na praia de Canoa Quebrada, quando foram levadas mais de 30 representantes de operadoras e agĂȘncias de turismo para divulgar todo o municĂ­pio e as praias como destino turĂ­stico.

O primeiro passo para obter o selo Ă© a solicitação feita pelo empresĂĄrio. Um tĂ©cnico do Sebrae explica os procedimentos e todo o processo, que costuma demorar seis meses, mesmo prazo de validade do selo. “Quem quiser a renovação, tem que enfrentar todo o processo de novo”, alerta a gestora. No encontro com o tĂ©cnico sĂŁo apresentadas todas as regras do jogo.

Depois das explicaçÔes prestadas pelo técnico, o empreendimento costuma ser visitado por consultores sem identificação. Num restaurante, o profissional pede um prato e aproveita para observar todos os detalhes, quanto tempo demora o atendimento, a retirada de pratos de clientes que jå se levantaram da mesa, a gentileza dos funcionårios e por aí vai. No caso de hotel ou pousada, o consultor hospeda-se e faz pedidos no meio da noite, por exemplo, para conferir quanto tempo leva para ser atendido e a presteza dos funcionårios, conforme explicou a gestora.

Jå para conferir as condiçÔes de higiene da cozinha, a visita é feita por uma nutricionista previamente identificada. Os consultores fazem um relatório informal. Se o empreendimento conseguir obter 80% de aprovação em todos os quesitos, ganha o selo. Caso contrårio, só irå receber se seguir às orientaçÔes recomendadas pelos consultores.

Para conquistar o primeiro selo, Luiz calcula ter feito um investimento inicial em torno de R$ 25 mil. “Reformei toda a cozinha, instalei exaustores, azulejei, coloquei mesas de inox e freezers”, relaciona. À medida que os selos vão sendo revalidados, os investimentos vão diminuindo”, informa o empresário.

Antes de abrir o seu prĂłprio negĂłcio, o Luiz, da Barraca Chega Mais, trabalhou como garçom junto com Francisco de Assis Pereira da Silva, o Chico de AlĂł. O antigo patrĂŁo trabalhava em parceria com agĂȘncias de viagem. Isso garante a freqĂŒĂȘncia durante o ano todo. “Na baixa temporada recebemos em mĂ©dia de quatro a cinco ĂŽnibus por dia”, informa o irmĂŁo de Luiz, Wando Nogueira da Costa, que ajuda na administração da barraca. Outros trĂȘs irmĂŁos tambĂ©m estĂŁo na linha de frente.

Na alta temporada, recebem de 20 a 25 grupos de turistas por dia. AlĂ©m de serviços diferenciados, a barraca possui um mezanino, onde sĂŁo servidas refeiçÔes.Os funcionĂĄrios, todos treinados, variam de 25 a 35 de acordo com a Ă©poca do ano. “Nosso crescimento Ă© baseado em profissionalismo. A gente defende um turismo responsĂĄvel e feito com seriedade”, diz Luiz.

Ao lado da melhoria dos serviços, a barraca sempre Ă© envolvida nos acontecimentos e promoçÔes de Canoa Quebrada. “Tudo faz parte, desde o zelo com talhares, a equipe uniformizada, a gastronomia elaborada atĂ© estar inserido e promover eventos na comunidade”, relaciona Wando.

Um desses eventos Ă© a Operação Praia Limpa, realizada de seis em seis meses. É um mutirĂŁo de limpeza feito na orla com a participação de empreendedores e atĂ© o envolvimento dos turistas. “O Sebrae Ă© parceiro em diversas açÔes”, assegura Wando. A organização dos empresĂĄrios, por meio da Associação dos EmpresĂĄrios de Canoa Quebrada, a Asdecq, tambĂ©m teve o apoio da instituição, informa Luiz.

A poucos metros da Barraca Chega Mais, no nĂ­vel da calçada, estĂĄ o restaurante Bom Motivo, comandado por Chico de AlĂł. O apelido Ă© uma referĂȘncia ao pai do comerciante, pescador da regiĂŁo. O restaurante combina a paisagem com espaçosas choupanas espalhadas no terreno em declive. Um caminho coberto com pedras, cercado de grama e pequenas ĂĄrvores vai conduzindo a descida em direção Ă  praia.

AlĂ©m do visual bonito do seu estabelecimento e do bom atendimento, Chico incentiva a participação dos funcionĂĄrios em cursos. “Dou emprego para 40 pessoas na alta temporada e todo mundo sabe fazer tudo”, ele garante. HĂĄ nove anos trabalhando com Chico, Fernando Alves Pereira, o JB, Ă© garçom, mas jĂĄ fez curso de primeiros socorros e de brigada de incĂȘndio, por exemplo. “Na beira da praia, se precisar a gente tem que ser atĂ© salva-vidas”, diz.

A capacitação dos funcionĂĄrios tambĂ©m faz parte das recomendaçÔes que constam no relatĂłrio feito pelos consultores encarregados de avaliar o estabelecimento. Chico confirma. “O meu funcionĂĄrio aprende e se dedica a fazer tudo, tem rodĂ­zio de função. Ele tem que saber vender os pratos da casa, como funciona a cozinha, a esterilização dos talheres como agir em uma situação de emergĂȘncia”, ressalta.

Para atender aos padrĂ”es exigidos pelo selo do Sebrae, Chico investiu R$ 75 mil em melhorias. “Para ter uma idĂ©ia, tanto a ĂĄgua das duchas quanto a usada na cozinha sĂŁo analisadas periodicamente em laboratĂłrios de Fortaleza. Tem que ter o laudo da qualidade”, informa. Recentemente ele recebeu novas recomendaçÔes para revalidar o selo. “Às vezes acho que a exigĂȘncia Ă© demais. Tenho 11 aparelhos sanitĂĄrios, mas estĂŁo pedindo que coloque mais um banheiro para funcionĂĄrios”, reclama.

Com diĂĄrias que custam atĂ© R$ 180 na alta temporada, a cearense Socorro Gonçalves Aires Thommem, administra um sonho de seus tempos de adolescente. “Minha famĂ­lia sempre passava as fĂ©rias em Canoa Quebrada e lĂĄ pela dĂ©cada de 80 coloquei na cabeça que ainda abriria uma pousada aqui”, conta. Com o tempo e depois de algumas andanças pelo mundo, ela transformou a casa onde a famĂ­lia costumava veranear na Pousada Vale do Luar.

Com lugar para 30 pessoas, Ă© pequena, confortĂĄvel, bonita e cheia de charme. “Nas varandas privativas sirvo o cafĂ© da manha regional. É o maior sucesso”, diz a empresĂĄria que tem quase 80% da sua clientela formada por estrangeiros, principalmente franceses e alemĂŁes.

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