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Euges Lima
Euges Lima é historiador, professor, bibliófilo, palestrante e ex-presidente do IHGM.
Euges Lima

Joaquim Silvério dos Reis foi enforcado? A gafe de Lula reacende o debate sobre o maior delator da história do Brasil

Gafe presidencial acabou produzindo um efeito inesperado.

Euges Lima

Atualizada em 10/06/2026 às 09h21
Joaquim Silvério dos Reis. Imagem gerada por IA.

Uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a inauguração de uma unidade do Instituto Federal de Educação, na cidade de Catalão,Goiás, acabou provocando intensa repercussão nas redes sociais, na imprensa na última semana. Curiosamente, o que mais chamou a atenção não foi o ataque político aos adversários, mas uma referência histórica considerada equivocada.

Ao criticar membros da família Bolsonaro, Lula afirmou: “Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser pior do que ele. São traidores! Por menos do que isso, Joaquim Silvério dos Reis, que delatou Tiradentes, foi enforcado. O que merecem os traidores da pátria?”

A frase rapidamente viralizou. O motivo foi um erro factual: quem acabou na forca não foi Joaquim Silvério dos Reis, mas sim Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes), executado pela Coroa portuguesa em 1792 por seu envolvimento na Inconfidência Mineira.

Silvério dos Reis, ao contrário, jamais foi condenado à morte. O delator da conspiração recebeu benefícios da Coroa portuguesa pela denúncia que levou à prisão dos inconfidentes. Embora tenha enfrentado dificuldades e rejeição social nos anos seguintes, viveu por décadas após a execução de Tiradentes e morreu em idade avançada para época.

A gafe presidencial acabou produzindo um efeito inesperado: despertou a curiosidade do público sobre o verdadeiro destino daquele que se tornou um dos personagens mais controversos da história brasileira. Símbolo máximo da traição no imaginário nacional, Joaquim Silvério dos Reis atravessou mais de dois séculos de memória coletiva associado ao homem que entregou seus companheiros em troca de favores e do perdão de dívidas junto à Coroa.

Mas, afinal, o que aconteceu com Joaquim Silvério dos Reis após o fatídico dia 15 de março de 1789, quando procurou o governador de Minas Gerais, o Visconde de Barbacena, para denunciar incialmente verbalmente (depois formalmente, através de uma carta) a conspiração que pretendia transformar Minas Gerais em uma república independente? Como foi sua vida depois da delação? Que recompensas recebeu? E de que maneira terminou seus dias aquele que se tornou, para gerações de brasileiros, o retrato acabado da traição?

Após denunciar os inconfidentes, Joaquim Silvério dos Reis passou a colaborar diretamente com as autoridades coloniais. Transformado em informante do governo, foi enviado ao Rio de Janeiro com a missão de localizar o paradeiro de Tiradentes, tarefa que cumpriu com sucesso. No entanto, em uma das muitas ironias que marcariam sua trajetória, no mesmo dia da prisão de Tiradentes, em 10 de maio de 1789, Silvério também acabou encarcerado na Ilha das Cobras, onde permaneceu preso por cerca de nove meses.

Ao deixar a prisão, casou-se com a jovem Bernardina Quitéria, filha do coronel Luís Álvares de Freitas Belo. Os anos seguintes, porém, estiveram longe de ser tranquilos. Apesar dos serviços prestados à Coroa, teve seus bens sequestrados, foi impedido de retornar a Minas Gerais e passou a viver sob forte hostilidade no Rio de Janeiro. A rejeição era tão intensa que chegou a sofrer atentados contra a própria vida. Evitado por antigos conhecidos e desprezado pela população, transformou-se em um verdadeiro pária social.

A situação começou a mudar apenas dois anos após a execução de Tiradentes. Em 1794, Silvério finalmente obteve autorização para viajar a Lisboa. Na capital portuguesa, recebeu aquilo que muitos historiadores consideram a recompensa oficial por sua delação: o foro de fidalgo da Casa Real e o hábito da Ordem de Cristo, distinções concedidas diretamente pela monarquia portuguesa. Além disso, conseguiu junto à Real Fazenda a suspensão do sequestro de seus bens e foi agraciado com o cargo de tesoureiro-mor da Bula para as capitanias de Minas Gerais, Goiás e Rio de Janeiro.

De volta ao Brasil em 1795, agora cercado de honrarias e prestígio oficial, Joaquim Silvério resolveu estabelecer-se em Campos dos Goytacazes. Foi nesse período que passou a utilizar o sobrenome Montenegro, herdado de seu pai. Na região, contou com a proteção do sogro, que administrava as propriedades do Visconde de Assêca.

A permanência em Campos, entretanto, também foi marcada por controvérsias. Silvério e o sogro foram acusados pelos foreiros das fazendas do Visconde de práticas abusivas e extorsões. Após uma série de denúncias e conflitos, ambos acabaram expulsos da região. O antigo delator permaneceu em Campos até 1797, quando retornou mais uma vez a Portugal, onde viveria pelos dez anos seguintes.

Somente em 1807, acompanhando o deslocamento da Corte portuguesa para o Brasil, Joaquim Silvério regressou definitivamente à América. Depois de sucessivas idas e vindas entre os dois lados do Atlântico e de uma trajetória marcada por privilégios, perseguições e controvérsias, encontraria seu destino final em uma terra distante das Minas Gerais que o haviam tornado célebre: o Maranhão.

Em 1808 ou 1809, o agora Joaquim Silvério dos Reis Montenegro chegou a São Luís, transferido como coronel de milícias do Regimento da capital, com soldo pago pela Real Fazenda do Maranhão. Ambicioso e ainda desejoso de reconhecimento, aproximou-se das autoridades locais e conquistou a confiança do governo da capitania. Graças a essa articulação, foi nomeado comandante do Regimento de Milícias de São Luís.

O cargo, contudo, durou pouco. Seu comportamento provocou atritos constantes entre oficiais e subordinados. Acusado de fomentar intrigas e divisões internas, acabou perdendo o apoio político que o sustentava e foi exonerado da função.

Os últimos anos de vida transcorreram discretamente na capital maranhense. Já idoso, doente e distante dos tempos em que desfrutara das graças da Coroa portuguesa, Joaquim Silvério sobreviveu principalmente graças ao soldo militar e à indenização de 400 mil réis que recebera como recompensa por sua colaboração no episódio da Inconfidência Mineira.

Morreu de causas naturais em São Luís, aos 63 anos. Seu sepultamento ocorreu em 17 de fevereiro de 1819, na Igreja de São João Batista, onde foi enterrado com os títulos e honrarias acumulados ao longo da vida. Deixou viúva Bernardina Quitéria e três filhos homens: Joaquim Silvério dos Reis (homônimo), nascido em Campos dos Goytacazes, além de Luiz e José, ambos nascidos em São Luís.

Assim terminou a vida do homem que entregou a mais famosa conspiração da história colonial brasileira. Premiado pela Coroa em vida, mas condenado pela memória nacional, Joaquim Silvério dos Reis escapou da forca destinada a Tiradentes. Não conseguiu, porém, escapar do julgamento da história, que o transformou no maior símbolo de traição do Brasil.


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