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Ocupação revela liberdade criativa e potência cênica de Helena Ignez

Exposição celebra a artista em primeira pessoa e destaca sua trajetória no teatro e no cinema.

Evandro Júnior / Na Mira

Atualizada em 21/07/2026 às 10h35
Ocupação Helena Ignez (Foto: Divulgação)

Era o ano 1956 quando Helena Ignez ingressou na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador, cidade onde nasceu em 1939. Começava ali a trajetória de uma das mais importantes atrizes e diretoras do cinema e do teatro brasileiros, cuja vida e obra são marcadas pela liberdade comportamental e artística. 

Nesta quarta-feira (22), às 19h30, o Itaú Cultural (IC) inaugura a mostra da série Ocupação dedicada a ela, que fica em cartaz até 18 de outubro. Primeira cineasta mulher a receber esta homenagem, a exposição privilegia a voz de Helena, sua liberdade criativa e sua potência em cena, sempre em intensa atividade artística. 

Assim como as demais mostras do programa, a Ocupação Helena Ignez não segue um modelo cronológico-biográfico tradicional. A narrativa desta exposição é construída em primeira pessoa, guiada pela voz da artista, seu corpo em ação e sua prática artística experimental. 

“Helena atravessa a história do cinema e do teatro modernos no Brasil, passando pelos períodos centrais do Cinema Novo, da Belair e da experimentação radical”, observa André Furtado, gerente de Criação e Plataformas. “Ela é uma pessoa em constante reinvenção e, aos 87 anos, segue nessa trilha, firme e altamente criativa”, completa. 

O Itaú Cultural assina a concepção, realização e curadoria da mostra, com consultoria da atriz Djin Sganzerla e projeto expográfico de Renata Mota e equipe Itaú Cultural.

Partindo dessa premissa, a linha curatorial abraça a ideia de Helena ser uma atriz antimusa para jogar foco em sua produção, vitalidade e potência criativa. De forma transversal, a mostra reúne materiais históricos, registros inéditos, fotos, vídeos, documentos, instalações e trabalhos recentes da artista. Assim, o caminho percorrido vai do cinema, teatro e direção à formação, encontros e experiências políticas, espirituais e humanas da artista. 

A sua trajetória no teatro ganha destaque, revelando um percurso menos conhecido do grande público. Como a própria Helena diz, a importância do teatro em sua vida é absoluta, porém sua trajetória como atriz e, mais tarde, como diretora ainda é pouco conhecida. Fotos, programas, matérias de jornais – incluindo uma crítica do jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980) e documentos do processo de trabalho de Helena compõem esse espaço. 

Recentemente, em São Paulo, a atriz integrou o elenco de Fim de partida, clássico de Samuel Beckett (1906-1989), dirigido por Rodrigo Portella, ao lado de Marco Nanini, Guilherme Weber e Ary França. A temporada segue para Fortaleza neste mês. Como diretora, seu mais recente longa-metragem é A alegria é a prova dos nove, de 2023. 

A exposição

O percurso pela Ocupação começa com uma experiência imersiva, com áudio da própria Helena conduzindo o público e uma projeção central de trechos marcantes de suas atuações, evidenciando o corpo como linguagem e a ação como gesto político. 

A mostra dedica um eixo especial à perspectiva da antimusa, com um conjunto impactante de manchetes históricas, imagens e vídeos. A mulher de todos (1969) ocupa lugar central na exposição, com a exibição de frames e trechos do filme em cópia restaurada, o seu cartaz histórico e registros da personagem que ela encarnou: a irreverente Ângela Carne e Osso, ninfomaníaca que faz os homens de gato-e-sapato, considerada uma interpretação revolucionária no cinema brasileiro por subverter papéis de gênero em plena ditadura.

O espaço dedicado à produtora Belair reúne filmes, frames, vídeos, materiais de bastidores, trilhas sonoras e textos da época, incluindo um documento em que Helena se posiciona contra a censura. São registros que retratam o período de intensa criação vivido por Helena Ignez ao lado de Rogério Sganzerla (1946-2004) e Júlio Bressane, em 1970. Para se ter uma ideia, o grupo realizou seis longas-metragens em poucos meses daquele ano. A produção foi logo interrompida pela repressão e eles tiveram de partir para o exílio. Integram esse conjunto materiais dos filmes Carnaval na lamaCopacabana mon amour e Sem essa aranha, de Rogério Sganzerla, e Cuidado madameBarão Olavo, o horrível e A família do barulho, de Júlio Bressane. 

Este núcleo também incorpora iniciativas de preservação associadas ao projeto, como o apoio da Cinemateca Brasileira que contribuiu para a captura fotográfica digital das películas desses títulos, além de O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Sganzerla, O padre e a moça (1966), de Joaquim Pedro de Andrade, O grito da Terra (1964), de Olney São Paulo, e A grande feira (1961), de Roberto Pires.

A parceria com a Cinemateca Brasileira realizou outras ações relacionadas à preservação de filmes brasileiros, como a produção de uma nova cópia digital de O grito da Terra, drama sertanejo de 1964 dirigido pelo baiano Olney São Paulo, com Helena em um dos papéis principais. Uma raridade do período pré-Cinema Novo que volta a ser apresentada para o público. 

Para a Ocupação, o Itaú Cultural também apoiou a finalização do longa-metragem carioca América do sol (2000-2026), de Léo Duarte, produção inédita com Helena retomando o papel de Sônia Silk, interpretada por ela em Copacabana, mon amour, em 1970. Ambos estarão disponíveis na plataforma de streaming gratuita de cinema brasileiro Itaú Cultural Play.

Ocupação evidencia ainda o trabalho de Helena como diretora, apresentando roteiros, cadernos de processo, vídeos e bastidores de filmes como A alegria é a prova dos nove (2023), Luz nas trevas – a volta do Bandido da Luz Vermelha (2010) e o documentário Fakir (2019). Como atriz, a mostra dialoga com sua produção recente, como o longa-metragem Nosferatu (2025) e sua atuação no teatro em Fim de partida, de Samuel Beckett, com direção de Rodrigo Portella, ao lado de Marco Nanini, Guilherme Weber e Ary França.

Um mural com fotos mostra imagens de parcerias de trabalho longevas, como Sganzerla, Antônio Pitanga, Paulo Villaça (1939-1991), Cristiano Burlan e Jean-Claude Bernardet (1936-2024); e outros icônicos, como Jô Soares (1938-2022), Maria Gladys, Zé Celso Martinez Corrêa (1937-2023) e Ney Matogrosso.

Produção inédita

Com produção da Itaú Cultural Play e direção de Helena Ignez e André Guerreiro Lopes, está sendo finalizado o curta-metragem inédito Des-criação, que assume um formato híbrido em diálogo com a videoarte e o cinema de invenção. 

A obra mergulha no universo interior de Helena, seus estados mentais e criativos, suas reflexões sobre arte, tempo, vida e morte. O filme está previsto para circular em festivais e na plataforma de streaming do IC, ainda sem data de estreia. 

Programação paralela

No período em que estiver em cartaz, o público poderá acompanhar uma retrospectiva com 22 filmes na Itaú Cultural Play, de obras dirigidas e estreladas por Helena. O acesso é gratuito, disponível em itauculturalplay.com.br e em aplicativos para smart TVs, dispositivos móveis (Android e iOS) e Chromecast. 

A programação paralela também terá exibições presenciais de curtas e longas-metragens nos meses de setembro, no Cine Glauber Rocha, em Salvador, e de outubro, na sede do Itaú Cultural, em São Paulo.

Ainda, o teatro do IC apresentará em outubro uma remontagem da peça Savannah Bay, dirigida por André Guerreiro Lopes e com Helena no elenco. A peça, montada sobre o texto homônimo de Marguerite Duras (1914-1996), foi realizada originalmente em 1999 e em 2001, com direção de Sganzerla, Helena no papel de Madeleine – uma atriz que perdeu a filha afogada na baía de Savannah e enfrenta problemas de memória – e Djin Sganzerla como sua neta. 

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