COLUNA
Lourival Serejo
Lourival Serejo é desembargador do Tribunal de Justiça do Maranhão e membro da Academia Maranhense de Letras.
Lourival Serejo

A poeta Laura Amélia e suas manhãs trêmulas

Uma obra que já nasce abençoada até pelo título.

Lourival Serejo

Atualizada em 07/07/2026 às 09h10

Os amigos e admiradores da poeta Laura Amélia já sentiam a demora do aparecimento de uma nova obra com seus bem apreciados poemas. 

Então ela nos trouxe este presente: O tempo das manhãs trêmulas. Uma obra que já nasce abençoada até pelo título. 

Após a leitura, lenta e pausada, chega-se à comprovação de que a poesia de Laura Amélia não parou no espaço. Evoluiu e apresenta-se tocante, concentrada, moldada em palavras medidas, únicas, que se agasalham num tecido uniforme, bem assim demonstrado no poema Visita: a palavra que se esconde/e quer ficar muda/às vezes se liberta e/procura por mim/e eu/tremendo de medo/abro a prisão e deixo/que ela pouse/livre e pura/no branco leito do papel.

O que mais cativa na poesia de Laura é a leveza com que ela trata de assuntos profundos, sem diluir-se em sentimentalismo piegas. Isso acontece no poema Mar de cinzas, em que presta uma homenagem ao confrade Luís Phelipe Andrès, sem lágrimas, com palavras precisas que honram a memória do homenageado. 

Nos últimos anos, a produção poética, em geral, no Maranhão e no Brasil, teve uma evolução considerável, na forma e no conteúdo, com inovações e originalidades que trouxeram uma nova face aos poemas.

Ao nos depararmos com a poesia de Laura, constatamos que ela acompanha esse novo momento da poesia, ao verter em palavras seus sentimentos com maturidade, ritmo, estética e elegância Em nossa Academia, a presença de Laura impõe respeito pela sua história e pela dedicação ao culto da poesia. 

Enganam-se os que pensam que fazer versos livres é uma tarefa fácil. O mistério que acompanha a poesia é o sentimento que envolve o leitor pelo toque das palavras precisas. Com razão T. S. Eliot quando disse: Verso livre é um grito de guerra em nome da liberdade, mas em arte não existe liberdade. Em outra ocasião, ele afirma: não há verso livre para quem quer fazer um bom trabalho. Em um poema com sequência de palavras desleixadas, não se desenvolve nenhum sentimento no leitor. A grandeza da poesia de Laura consegue exatamente essa perfeição: comove, inquieta e conquista a adesão do leitor em passagens como esta: a noite espocou dentro de mim. Esses momentos de espanto só mesmo o poeta recebe. Talvez aí resida a metafísica do instante de que fala Bachelard. 

Na poesia de Laura não se encontram palavras sobrando, todas estão exatamente no lugar próprio, único. Essa é uma de suas características, o que faz lembrar Sophia de Mello: Um poema não se programa/Porém a disciplina/– Sílaba por sílaba –/O acompanha.

O tempo das manhãs trêmulas é um fármaco para os tempos atuais que consome as pessoas na angústia da pressa. 


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