SÃO LUÍS – Em meio às matracas, pandeirões e toadas que embalam o período junino no Maranhão, uma pequena integrante chama a atenção no Boi Unidos de Santa Fé. Com apenas 3 anos de idade, Maria Antonela já carrega a responsabilidade simbólica de representar a quarta geração de uma família dedicada à preservação do bumba meu boi.
A menina tornou-se cazumbá aos 1 ano de idade e segue os passos de familiares que cresceram dentro da brincadeira. Sua trajetória é mais um capítulo da história construída pelo mestre Zé Olhinho, fundador e amo do grupo, que há quase quatro décadas trabalha para manter viva uma das mais tradicionais manifestações culturais maranhenses.
Fundado há 38 anos em São Luís por migrantes vindos da Baixada Maranhense, o Boi Unidos de Santa Fé transformou-se em referência cultural na capital e mantém até hoje uma forte ligação entre tradição, comunidade e família.
Quatro gerações do Boi de Santa Fé
A história de Maria Antonela está diretamente ligada à do bisavô, José de Jesus Figueiredo, conhecido como mestre Zé Olhinho. Aos 83 anos, ele segue à frente do grupo e vê na presença dos descendentes a garantia de continuidade da brincadeira.
Segundo o amo do boi, acompanhar quatro gerações atuando juntas representa a certeza de que o legado construído ao longo dos anos continuará sendo preservado.
Com 38 anos dedicados ao Boi de Santa Fé, Zé Olhinho afirma que ainda busca transmitir conhecimentos e experiências acumulados ao longo da vida para os mais jovens, mantendo viva a essência da cultura popular maranhense.
Tradição passada de mãe para filha no Boi de Santa Fé
A segunda geração dessa história é representada por Cristina Ferreira, filha do mestre. Além de já ter participado das apresentações como índia do boi, ela assumiu funções importantes nos bastidores e atualmente coordena a equipe de apoio que auxilia os integrantes durante os eventos.
"Vendo a minha neta ali, eu me sinto cheia de emoção, eu me sinto muito feliz. Porque eu sei que eu tô levando o legado que o meu pai tenta nos passar durante toda essa vida", confessa Cristina.
A terceira geração é formada por Valéria Ferreira Chagas, neta de Zé Olhinho. Hoje com 28 anos, ela iniciou sua participação ainda bebê, quando era levada pela mãe para os ensaios e apresentações vestida como índia.
Com o passar dos anos, Valéria passou a integrar oficialmente o batalhão de índios e índias do grupo. Nem mesmo a gravidez interrompeu sua participação nas apresentações, fortalecendo ainda mais a ligação familiar com o boi.
Pequena cazumbá tem infância cercada por cultura
Foi justamente dentro desse ambiente que nasceu Maria Antonela. A menina cresceu acompanhando ensaios, apresentações e a rotina da brincadeira, repetindo uma história que já havia sido vivida por sua mãe e por outras gerações da família.
Ao se tornar cazumbá ainda no primeiro ano de vida, ela passou a representar a renovação de uma tradição que atravessa décadas sem perder suas raízes.
Para os integrantes do grupo, a participação das crianças tem papel fundamental na preservação do folguedo, garantindo que saberes, costumes, danças e toadas continuem sendo transmitidos entre as gerações.
Um legado que nasceu na Baixada
A história do Boi Unidos de Santa Fé começou a ser escrita a partir do movimento migratório de famílias da Baixada Maranhense para São Luís, especialmente para a região do atual Bairro de Fátima.
Mesmo longe das cidades de origem, esses moradores mantiveram vivas suas tradições culturais. Foi desse esforço coletivo que surgiu o grupo, criado por Zé Olhinho, Raimundo Miguel Ferreira, conhecido como Mestre Raimundinho, e João Madeira Ribeiro.
O objetivo era preservar o sotaque da Baixada na capital maranhense e fortalecer os laços entre os conterrâneos que passaram a viver em São Luís.
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