Conheça Bem-te-vi, o vendedor de sorvetes que se tornou símbolo de São Luís
Conhecido pelas rimas improvisadas e pela venda de sorvetes, Antônio José Coelho se tornou um dos personagens mais populares da capital maranhense.
SÃO LUÍS - "Se eu não cantar, eu não vendo." A frase dita por Antônio José Coelho resume uma rotina que atravessa mais de quatro décadas pelas ruas do Centro Histórico de São Luís. Conhecido pelos ludovicenses como Bem-te-vi, o vendedor ambulante de 65 anos, transformou os pregões em sua marca registrada e passou a ser reconhecido tanto pelos sorvetes que vende quanto pelos versos improvisados que ecoam entre os casarões históricos da capital maranhense.
"Esse é bacuri, coco e maracujá. Hoje é pra vender, amanhã é pra dar. Esse é bacuri da mata, nós sofre com o calor, vem tomar o teu sorvete, quem sabe passa o calor".Bem-te-vi.
Para quem circula pela região do Reviver, ouvir rimas como essas já faz parte da experiência. Antes mesmo de ser visto, Bem-te-vi costuma ser identificado pela voz, usada há anos para atrair a atenção de moradores, turistas e clientes.
Natural de São João Batista, Antônio chegou a São Luís e encontrou na venda de sorvetes uma forma de sustento. Hoje, após mais de 40 anos de profissão, percorre diariamente as ruas do Centro Histórico carregando a tradicional caixa de isopor sobre a cabeça. A rotina começa cedo e só termina no fim da tarde. Morador da região do Itaqui-Bacanga, ele chega ao Centro por volta das 7h da manhã e permanece trabalhando até as 17h, de domingo a domingo.
Como nasceu o Bem-te-vi
O apelido que o tornou conhecido também nasceu nas ruas. Segundo ele, tudo começou quando costumava assobiar enquanto caminhava pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). A semelhança com o canto do pássaro chamou a atenção das pessoas ao redor.
"Eu assobiava, assobiava. Eles chamavam: 'Ô, Bem-te-vi'. Aí eu dizia: 'Alô'. E ficou Bem-te-vi até hoje", relembra.
Foi também da necessidade de chamar clientes que surgiram os pregões cantados. O que começou como uma estratégia de venda acabou se transformando em uma característica inseparável do personagem.
"Eu comecei a cantar para chamar a atenção dos compradores que passavam. Aí o povo encostava e eu botava sorvete. Não parei mais de cantar. Se eu não cantar, eu não vendo", afirma o pregoeiro.
Além de anunciar os sabores disponíveis, os versos criaram uma relação direta com quem circula pelo Centro Histórico. Segundo Bem-te-vi, muitos clientes se aproximam não apenas para comprar sorvete, mas também para ouvir as rimas improvisadas que já se tornaram parte de sua identidade.
"Aí encostam, mandam botar um e mandam eu cantar. Eu canto, eles gostam. Tem uns que gostam, tem uns que não gostam. E assim a coisa vai passando", conta.
Como se uma família de pássaros ocupasse o Centro Histórico, Bem-te-vi não é o único apelido inspirado na natureza que circula pelas ruas da região. O sobrinho, conhecido como Curió, também trabalha no local, reforçando uma presença familiar que já faz parte do cotidiano de quem frequenta o centro da capital.
De vendedor a símbolo da cidade
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Ao longo dos anos, a figura do vendedor ultrapassou a rotina de trabalho e passou a integrar o imaginário popular da cidade. O reconhecimento ganhou forma concreta em 2023, quando uma estátua inspirada em Bem-te-vi foi instalada no Centro Histórico.
Com cerca de 2,60 metros de altura, considerando a tradicional caixa de sorvetes, e aproximadamente 360 quilos, a obra do artista Eduardo Sereno homenageia um dos personagens mais conhecidos da região.
"Fiquei muito feliz. Nunca imaginei ser homenageado dessa forma. Se já tinha orgulho da minha profissão, agora tenho muito mais", declarou na ocasião.
Uma história que continua
Apesar do reconhecimento e da fama conquistada ao longo dos anos, a motivação para continuar trabalhando permanece simples. Bem-te-vi diz que gosta do contato com as pessoas e não se imagina exercendo outra atividade.
"Gosto muito de fazer esse serviço, de conhecer e falar com muitas pessoas. Não me vejo fazendo outra coisa", afirma o pregoeiro.
Aos mais de 40 anos de trabalho somam-se milhares de quilômetros percorridos pelas ruas do Centro Histórico, incontáveis sorvetes vendidos e uma voz que se tornou familiar para moradores e visitantes. E, se depender de Bem-te-vi, essa história ainda está longe de terminar.
"Até quando eu puder andar, eu estou aqui", garante.
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