SÃO LUÍS - Em uma época em que artistas disputam atenção em redes sociais comandadas por algoritmos, um grupo de criadores de São Luís decidiu seguir por outro caminho. A Zine Jirau, publicação independente produzida de forma artesanal, nasceu com a proposta de fazer a arte circular além das telas.
O projeto reúne textos, ilustrações, poesias e reflexões sobre cultura produzidas por artistas maranhenses. O Imirante entrevistou o editor Felipe Costa Cruz, que divide a construção da publicação com Chermom, Tiago Máci, Paulo Freire e Brena Coimbra.
A ideia surgiu da percepção de que muitos artistas passaram a ser obrigados a adaptar suas produções ao digital, muitas vezes reduzindo a complexidade de seus trabalhos para atender às dinâmicas de curtidas, compartilhamentos e algoritmos.
“Com a dinâmica comandada por algoritmos e botões de like e deslike, têm adoecido o artista, que fica obrigado a diminuir as dimensões do próprio trabalho, negociar sua estética e empobrecer sua proposta artística”, confessa Felipe.
Zine Jirau é um respiro fora das redes
Apesar das críticas à lógica das redes sociais, a equipe faz questão de destacar que não a vê como inimiga, mas deixam claro que o uso cego da tecnologia não os agrada. “Usamos a internet, que hoje é sinônimo de redes sociais, mas sempre com um certo ranço, cansaço e descontentamento”, destaca.
Na visão dos organizadores, o sucesso da publicação demonstra que existe um desejo crescente por experiências culturais mais lentas e menos dependentes das telas.
Três edições da Jirau já esgotaram
A receptividade do público surpreendeu os idealizadores da Zine Jirau. Os três lotes produzidos até agora foram vendidos rapidamente. O perfil dos leitores também chamou atenção. Entre os compradores estão jovens de 18 e 20 anos que conheciam os fanzines apenas “de ouvir falar”.
Os veteranos também deram o ar da graça, já que professores aposentados e antigos produtores de publicações independentes ligadas à contracultura das décadas de 1970 e 1980 entre os clientes. Essa diversidade de público reforçou a percepção de que o formato continua relevante.
Cada exemplar da fanzine é feito à mão
Um dos diferenciais da Zine Jirau está no cuidado artesanal empregado em cada edição. As páginas recebem colagens, diferentes tipos de papel e intervenções manuais. Em algumas seções, os leitores encontram folhas envelhecidas, papéis queimados, criando uma experiência de leitura mais completa.
“A seção de poemas, por exemplo, usamos colagens e papeis diferentes, papéis queimados, papéis manchados de café, tudo isso para que a experiência de leitura seja mais imersiva, sensorial”, conta o editor.
Por causa desse processo, as tiragens permanecem limitadas. Felipe afirma que prefere manter a qualidade artesanal e fazer com que a publicação chegue a leitores realmente interessados.
Expansão da Zine Jirau incluem oficinas e encontros
Além de ampliar gradualmente a quantidade de exemplares produzidos, os organizadores já planejam novos passos para o projeto. A ideia é promover oficinas de escrita, desenho e produção de fanzines, além de encontros presenciais voltados para artistas e interessados em processos criativos.
“Queremos, futuramente, promover encontros presenciais também, através de oficinas [...]. Enfim, tirar um pouco as pessoas desse objeto vampírico que é o celular e fazê-los colocar as mãos na massa”, finaliza.
Mais do que publicar uma revista independente, a proposta é criar espaços de convivência e troca de experiências. Em um cenário cada vez mais conectado digitalmente, a Zine Jirau aposta justamente no contrário: reunir pessoas, colocar as mãos na massa e fazer a arte acontecer fora da tela.
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