Leitura

Adaptação transforma universo dos super-heróis nacionais em potente crítica social brasileira

Em "O Cidadão Incomum 3" escritor e quadrinista Pedro Ivo levanta questionamentos sobre desigualdade, poder, masculinidade e colapso social.

Evandro Júnior / Na Mira

Capa do livro (Foto: Divulgação)

Uma onda de calor extrema toma a capital paulista enquanto uma sequência de mortes misteriosas começa se espalha pela cidade. Todas as vítimas foram mortas sob o mesmo modus operandi: carbonizadas em ambientes fechados, sem sinais aparentes de incêndio no restante do local. 

Em meio ao caos social e político de um Brasil cada vez mais dividido, o super-herói Caliel tenta descobrir a origem dos próprios poderes ao mesmo tempo em que se torna alvo de conspirações, perseguições e da crescente desconfiança pública em torno de sua figura.

É diante desse cenário que o leitor é apresentado ao enredo de ‘O cidadão incomum 3 – Experiência de quase morte’. Publicada pela Editora Conrad, a obra encerra a trilogia de origem do protagonista Caliel ao combinar suspense investigativo, ficção científica, horror psicológico e crítica social em uma narrativa ambientada no Brasil contemporâneo. Ao longo da série, o escritor, quadrinista e roteirista Pedro Ivo transforma o universo dos super-heróis em uma reflexão sobre amadurecimento, responsabilidade e pertencimento.

Longe de ser um vigilante sem problemas ou defeitos, o personagem é descrito como um homem emocionalmente instável, marcado por crises de ansiedade, culpa e pelas consequências dos próprios atos. Ao descobrir que será pai, passa a lidar com responsabilidades familiares que parecem ainda mais assustadoras do que os perigos que enfrenta nas ruas. Enquanto tenta proteger Lígia, companheira que vive uma gravidez de risco, ele se questiona até onde alguém consegue permanecer humano quando se torna símbolo, ameaça e alvo ao mesmo tempo.

Conforme se aprofunda nas conspirações que cercam sua existência, Caliel mergulha em uma trama que atravessa diferentes períodos da história brasileira. Entre laboratórios clandestinos, interesses corporativos e segredos ligados à Amazônia, a narrativa conecta acontecimentos do presente ao passado político do país, em momentos que remontam à ditadura militar, ao passar por temas como exploração territorial, violência estrutural e o uso da ciência como ferramenta de poder.

Com experiência em literatura, quadrinhos e roteiro, o autor conduz a história em ritmo cinematográfico, revelando os mistérios da trama aos poucos e equilibrando ação, tensão psicológica e crítica social sem abrir mão da fluidez. Sua escrita aposta menos na idealização clássica dos super-heróis e mais na dimensão humana dos personagens, trazendo dilemas emocionais, crises de identidade e os impactos reais do poder sobre a vida cotidiana. 

 Pedro Ivo amplia as reflexões sobre identidade, pertencimento e a relação entre ficção e realidade

Com ilustrações próprias e elementos metalinguísticos (como a peça teatral escrita por Caliel ao longo da trama), Pedro Ivo amplia as reflexões sobre identidade, pertencimento e a relação entre ficção e realidade, reforçando o caráter visual, autoral e artístico do projeto.

Além dos aspectos políticos e investigativos, ‘O cidadão incomum 3 – Experiência de quase morte’ amplia o universo da série ao apresentar personagens que rompem com os modelos tradicionais do gênero, como Tito, reconhecido como o primeiro super-herói trans brasileiro. Entre paranoia coletiva, relações fragilizadas e disputas de poder, o escritor transforma o heroísmo em uma lente para observar o Brasil contemporâneo e discutir questões ligadas à masculinidade, desigualdade social e pertencimento.

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