Cultura que gera renda

De casas a matracas: aos 62 anos, pedreiro e artesão usa as mãos para transformar trabalho em sustento e tradição no MA

Em meio ao aquecimento da economia junina, empreendedor maranhense mostra como tradição, experiência e trabalho manual podem impulsionar negócios e fortalecer identidades culturais.

Anne Cascaes e Miguel Chaves / Imirante

Atualizada em 07/06/2026 às 11h24
Aos 62 anos, o maranhense integra a crescente economia prateada ao transformar um dos símbolos do Bumba Meu Boi em sustento, identidade cultural e oportunidade de negócio. (Foto: Miguel Chaves / Grupo Mirante)

SÃO LUÍS – “Eu faço de tudo para o meu produto ser o melhor”. Esta frase, você já é capaz de imaginar: veio de alguém que empreende. Mas, o que mais tem por trás dela além da dedicação que costuma já vir no sangue de cada empreendedor? O pedreiro Edivaldo da Conceição, que aos 62 anos de idade também é artesão nas horas vaga, nos conta. 

Há mais de 20 anos, o maranhense tomou a decisão de produzir matracas para vender durante o período junino. Ele, que sempre trabalhou com massas, cimentos e tijolos, encontrou, em outro material – o pau-d'arco –  uma oportunidade não só de garantir uma renda a mais, mas também de aliar um trabalho com a sua fé, cultura e paixão pelo São João do Maranhão.

“Eu gosto de ver os turistas levando meu produto para fora. Eu sempre falo que o turista vem para cá por causa da nossa gente e de todos nós que fazemos a cultura, desde o tambor de crioula até o cacuriá e o bumba-meu-boi”, conta ele, que já não consegue mais nem mensurar o número de matracas que confecciona por dia.

Muito além da matraca

Para ele, continuar produzindo matracas até hoje não representa só o seu trabalho e sua principal fonte de renda. É mais do que isso e representa uma forma de cultivar hábitos prazerosos, que contribuem também para o seu bem-estar e qualidade de vida. 

Edivaldo produz matracas há mais de duas décadas e encontra no artesanato junino uma fonte de renda que complementa o trabalho na construção civil. (Foto: Miguel Chaves / Grupo Mirante)

A motivação continua presente, ano após ano, e a resposta está na alegria do artesão em presenciar o reconhecimento do trabalho manual feito com tanta dedicação e devoção. “É tão bom quando você chega nos lugares e percebe uma pessoa falando para a outra ‘olha, compra daquele senhor ali, ele que vende matracas boas’, é bom demais, é gratificante”, compartilha o artesão.

Cada pedaço de pau-d'arco transformado em matraca carrega mais do que madeira e acabamento artesanal. Carrega um dos sons mais característicos do Bumba Meu Boi, manifestação reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Representa, também, a resistência do sotaque de matraca.

O Bumba Meu Boi carrega diferentes sotaques que ajudam a contar a história do Maranhão. (Foto: Divulgação / Secom)

‘Super Junho’: clima favorável aos empreendedores 

É costume já, entre os empreendedores e lojistas em geral, a espera pelo mês de dezembro, período em que a expressão ‘comércio aquecido’ encontra em cheio o seu espaço para comandar a data. Entretanto, em 2026, o mês de junho pode ser o novo dezembro ao reunir festividades que também aquecem as vendas de diversos tipos de produtos ou serviços. 

São João, Copa do Mundo, Dia dos Namorados... o encontro de três fenômenos que tem causado ainda mais a expectativa para os donos dos seus próprios negócios. O que já era bom, só pelo São João, pode ser ainda melhor.

“Quando chega o período de São João, eu largo um pouco a construção para me dedicar ainda mais a minha confecção de matracas, por que além de eu faturar mais, eu estou lá participando das brincadeiras, me divertindo e ainda tirando o meu sustento. Este ano, então, temos muitos motivos pra festejar e intensificar ainda mais a produção”.
Edivaldo da Conceição

Economia prateada: o empreendedorismo a partir da experiência de vida

Mesmo aos 62 anos, Edivaldo diz não faltar pique para que essa produção acompanhe as demandas que recebe. Este ano, por exemplo, uma pessoa só já encomendou mil pares de matraca para o empreendedor, e ele? Garante dar conta do recado. 

“Eu fico aqui no meu banquinho, quando caso me sento no chão com meus materiais ao redor e vou produzindo sem nem olhar a hora. Não consigo nem contar quantas matracas são feitas por dia... Tem dia que durmo pouco para já estar de pé cedo e engatar na produção, no final sempre dá certo”, revela ele. 

Apesar da boa experiência do artesão, nem toda pessoa acima de 60 anos encontra, ‘de cara’, um ambiente fértil para empreender. Entretanto, essas dificuldades que podem aparecer têm uma solução para serem superadas. 

Entre pedaços de pau-d'arco, ferramentas e horas de dedicação, Edivaldo confecciona manualmente matracas que ajudam a manter viva uma das tradições mais marcantes do São João maranhense. (Foto: Miguel Chaves / Grupo Mirante)

“Por conta da idade, às vezes o acesso ao crédito e a utilização de tecnologias podem ser um dos grandes desafios para essa faixa etária dos 60+, chamada também de economia prateada. Entretanto, esses desafios podem ser facilitados e resolvidos com uma boa orientação, e o Sebrae participa diretamente desse processo e não só orienta como também motiva e se coloca à disposição para melhor atender”, explica o gerente da unidade de negócios do Sebrae em São Luís, Antônio Veras. 

De acordo com o gerente, os setores mais promissores para essa economia prateada estão principalmente nas consultorias e serviços, na educação e na área de alimentação e bem-estar. “São áreas, por exemplo, que enfatizam a experiência que esse público possui e tem muito a ensinar, agregar o oferecer”, pontua. 

Um tipo de apoio fundamental para quem deseja, inclusive, iniciar um novo empreendimento nesta faixa etária são as oficinas e cursos de capacitação, que promovem a inclusão e são direcionados e adaptados para pessoas acima dos 60 anos que desejam encontrar-se e manter-se em atividade por meio do empreendedorismo.

“O Sebrae é um parceiro de primeira hora, e ele pode entrar por meio das capacitações, por meio da formalização e também da orientação para utilização das ferramentas digitais. Então, o Sebrae possui mecanismos, todo um serviço especializado para atender esse público da melhor forma possível”, explica Antônio Veras. 

Uma mesa, duas histórias e muitos arraiais

Um outro fator motivador para negócios como o do artesão Edivaldo é, sem dúvidas o apoio da família. Ele, por exemplo, não vai sozinho aos arraias para vender as matracas. Com ajuda da esposa Maria, que também trabalha na confecção de camisas do Boi da Maioba, os dois encontram apoio um no outro para realizar as vendas nos mais diversos locais onde são realizadas as festividades juninas em São Luís. 

Com apoio da esposa Maria, o artesão leva sua produção para os arraiais de São Luís. Juntos, eles transformam cultura popular, trabalho e empreendedorismo em sustento para a família. (Foto: Miguel Chaves / Grupo Mirante) 

É essa a parte que o artesão conta com mais entusiasmo: “A gente vai para os arraiais assim, com a nossa mesinha, e lá organizamos as matracas junto com as camisas para que o público possa conhecer o nosso trabalho e adquirir os produtos que fazemos com a melhor qualidade possível. Eu faço de tudo para o meu produto ser o melhor”.

Edivaldo compartilha de que forma estrutura seus produtos para vendas nos arraiais. (Foto: Miguel Chaves / Grupo Mirante)

Enquanto milhares de pessoas ocupam os arraiais para cantar, dançar e celebrar o São João, Edivaldo segue firme no seu propósito, cercado por pedaços de madeira, ferramentas e histórias. Cada matraca pronta representando mais uma venda, mas também a certeza de que tradição, trabalho e empreendedorismo podem caminhar lado a lado. Aos 62 anos, ele continua transformando o som da cultura maranhense em sustento, tradição e orgulho.

A força empreendedora dos 60+ no Brasil

A trajetória do pedreiro e artesão maranhense Edivaldo acompanha uma transformação que vem ganhando força em todo o país. O Brasil soma atualmente cerca de 4,5 milhões de empreendedores com mais de 60 anos, de acordo com o levantamento do Sebrae com base na Pnad Contínua, do IBGE. Esse número cresceu aproximadamente 59% na última década, refletindo uma tendência impulsionada não apenas pela necessidade de geração de renda, mas também pelo desejo de permanecer ativo, produtivo e conectado aos próprios propósitos de vida.

Para especialistas, o avanço da longevidade tem transformado a relação das pessoas com o trabalho e com o empreendedorismo. A gestora nacional do programa Empreendedorismo Sênior 60+, do Sebrae, Gilvany Isaac, descreve o movimento como uma "onda forte", impulsionada pela busca de atividades que dialoguem com a experiência acumulada ao longo da vida e também gerem impacto nas comunidades onde esses empreendedores estão inseridos.

O fenômeno acompanha uma mudança demográfica importante. Atualmente, um em cada cinco brasileiros em idade ativa tem 60 anos ou mais, e a expectativa de vida da população brasileira passou de 62,6 anos em 1980 para 76,4 anos em 2023. Nesse cenário, empreender tem se tornado uma alternativa para quem deseja continuar economicamente ativo e transformar conhecimento, experiência e tradição em oportunidades de negócio.

Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.