Leitura

Poeta transforma dor em arte com publicação

Saulo Florentino usa a arte japonesa de reparar cerâmicas quebradas com ouro como metáfora para discutir saúde mental, violência cotidiana e dor da existência humana.

Evandro Júnior / Na Mira

Capa do livro (Foto: Divulgação)

Entre ruas e bares vazios, insônia durante a madrugada, cansaço mental e a dura rotina que esmaga as pessoas, a poesia surge como tentativa de sobrevivência. É nesse cenário urbano, marcado por excesso, silêncio e desgaste emocional, que nasce ‘Kintsugi’, novo livro do poeta Saulo Florentino. Inspirada na técnica japonesa de restaurar cerâmicas quebradas com ouro, a obra utiliza as próprias rachaduras da existência humana como metáfora e matéria-prima para construir as mais de 50 poesias que compõem este lançamento.

Ao longo do livro, o autor passa por temas como saúde mental, solidão, vícios, desilusão religiosa, relações afetivas e violência social sem suavizar a realidade. Os poemas carregam o peso das ruas, da exaustão coletiva e da sensação de deslocamento diante do mundo contemporâneo. 

Cada estrofe aparece não como resposta definitiva para a dor, mas como possibilidade de permanência diante dela: mais do que propor uma superação idealizada, o escritor foca no ato de lidar com os próprios cacos em um mundo caótico e fragmentado. Ou seja, em vez de esconder as falhas e as inseguranças, Saulo escolhe transformá-las em arte literária.

Entre os textos centrais da obra está Caninha da Roça, que transforma uma cena cotidiana e urbana em reflexão sobre dor, violência e conexão humana em meio ao caos. Já em Terça em chamas, o autor retrata a prisão invisível da rotina de trabalho, os corpos consumidos pelo capital e o esgotamento emocional que atravessa os centros urbanos. 

No intitulado ‘Carne Assada’, o leitor mergulha na solidão, na melancolia e na tentativa de encontrar honestidade emocional em meio aos excessos e silêncios da vida contemporânea. Em cada poesia, Saulo Florentino transforma o eu lírico em espaço de confissão pública, sem medo de expor rachaduras emocionais, vícios, impulsos autodestrutivos e perdas, além de confrontar o vazio cultural da era digital e discutir o abandono da memória artística e filosófica.

O poema que dá nome ao livro concentra a principal ideia da obra: sobreviver também significa aceitar as marcas deixadas pela existência e sempre há beleza nos próprios estilhaços. Em Kintsugi, o poeta itaboraiense transforma a poesia em ferramenta de reconstrução, sem discursos de superação ou fórmulas de conforto. 

Compreender os próprios excessos

O autor propõe reconhecer as cicatrizes, compreender os próprios excessos e transformar a dor em linguagem compartilhada para que ajude mais pessoas a se aceitarem. Ao valorizar essas rachaduras em vez de escondê-las, o livro mostra que a arte não elimina o peso da vida, mas abre espaço para ressignificar o caos cotidiano. 
 
“Essa obra nasce da tentativa de encarar a dor, o vazio e as contradições da existência sem maquiagem. Mesmo nos momentos mais extremos, quando tudo parece ruir, ainda há algum tipo de movimento possível, ainda que mínimo, ainda que imperfeito. Kintsugi mostra que não existe reconstrução limpa: o que existe é remendo, cicatriz, adaptação. É aprender a conviver com as próprias rachaduras e, em alguns casos, transformá-las em linguagem, em arte e em permanência”, confidencia escritor.

Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.