Célia Sampaio e Núbia e os seus reggaes afrocentrados
A união de gerações entre Célia Sampaio, a pioneira, carinhosamente chamada de "Dama do Reggae", e Nubia, um dos nomes a brilhar, atualmente, no cenário nacional, fortalece a presença da mulher negra e LGBTQIAP+ na cena musical brasileira
Ao marcar presença no Festival Ilha Dub realizado recentemente em São Luís esbarrei com um jovem inglês. E no calor do rolê ficamos amigos. Totalmente empolgado com aquela gente descolada e em "transe" falou no meu ouvido com aquele seu sotaque gringo arrastando no português, brincou comigo: "o Maranhão é Reggae, oh, Pedrooo". Eu respondi também em tom de brincadeira e com um mix de felicidade estampado no rosto respondi a ele em inglês cheio de maranhensidade: "oh, yes, Mr Jimmy Scott, o Maranhão Is Roots Reggae. E tudo se transformou em festa.
Abençoada esta nossa Diáspora Africana que nos deu de presente essa sonoridade que veio de uma Ilha do Caribe, chamada Jamaica. Aqui aportou e conectou-se com o bumba meu boi, tambor de crioula, e marcou território e cristalizou-se na Ilha do Amor e Patrimônio da Humanidade.
Agora, seja na Jamaica, seja no Maranhão, a cena musical de reggae sempre foi amplamente dominada pela figura masculina, desde os primórdios, em se tratando de São Luís algumas mulheres alçaram voo dentro do movimento e têm contribuido a fortalecer o mesmo. Seja como DJ´s das radiolas ou cantoras, lá estão elas empoderadas e também protagonistas. Mas, a parceria entre Célia Sampaio e Núbia, ou vice-versa, é um marco de resistência, ancestralidade e renovação para o reggae feminino no Brasil, especialmente em São Luís, considerada a "Jamaica brasileira". A união de gerações entre Célia Sampaio, a pioneira, carinhosamente chamada de "Dama do Reggae", e Nubia, um dos nomes a brilhar, atualmente, no cenário nacional, fortalece a presença da mulher negra e LGBTQIAP+ na cena musical.
Afrocentrada
Primeira Mulher a Gravar Reggae no Brasil, Célia quebrou barreiras nos anos 1980 ao gravar um álbum de reggae, abrindo caminhos para futuras gerações. Iniciou em 1984 no Bloco Afro Akomabu e foi criadora da banda Guethos, a primeira banda de reggae a se apresentar no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís. Reconhecida nacionalmente, ela uniu o ritmo jamaicano às raízes afro-maranhenses, cantando a luta do povo negro.
Reggae com Identidade de Gêneros
Núbia se consolidou como uma das grandes revelações do reggae brasileiro na última década, destacando-se com o álbum "Sabores" (2024), premiado no TMDQA 2025. Suas composições trazem vivências enquanto mulher negra e LGBTQIAP+, ressignificando o cotidiano de São Luís no ritmo do reggae. Selecionada no Edital Natura Musical 25/26, ela leva o reggae maranhense para outras capitais, mantendo a força do gênero.
Ainda adotando o nome artístico Núbia Rodrigues, a artista começa a dar os primeiros passos na cena universitária em 2016. Desde então, abandonou o sobrenome, mas continuou estreitando os laços com o reggae, a sua maior referência musical. Direto da Jamaica brasileira, São Luís, no Maranhão, ela se conecta com a sonoridade, mas também com a mensagem: "Esse ritmo nos inspira a lutar contra as discriminações, opressões e injustiças sociais", escreveu em seu perfil no Instagram.
O EP Peso da Ilha, lançado em 20 de novembro de 2021, no Dia da Consciência Negra, traz as cinco faixas introdutórias para conhecer o som da artista. No ano seguinte, a Festa da Música no Maranhão, um evento que reconhece talentos locais, a escolheu como um dos destaques da edição. Veio o disco Sabores e, junto, com ele o reconhecimento nacional.
União de Gerações
O encontro entre Célia e Núbia, celebrado em festivais como Afropunk e Mana, cria uma ponte entre a base histórica do reggae brasileiro e sua nova fase. A parceria é vista como um movimento potente de união de mulheres negras, oferecendo um show de energia contagiante e troca de experiências. Juntas, elas reivindicam o protagonismo feminino na cena, demonstrando a potência da mulher no reggae, muitas vezes dominada por homens.
Célia e Núbia representam a continuidade e a renovação do reggae maranhense, consolidando o papel da mulher não apenas como intérprete, mas como autora e protagonista da sua própria história na música brasileira.
Regueiras Guerreiras
A história do reggae não reservou tantos lugares de destaque para a mulher quanto reservou para os homens. No entanto, mesmo com essa dificuldade bem latente, a mulherada, foi cortando o mato cheio de espinhos do caminho a facão afiado e não deixou barato.
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