Quantas Ângelas cabem em uma mulher?
A série, inspirada no podcast Praia dos Ossos, revisita a trajetória de Ângela Diniz com cuidado e contundência.
Demorei a ter coragem de escrever sobre a série Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, lançada no fim de 2025 pela HBO Max. A demora não foi por desinteresse, foi por excesso de incômodo. O assassinato de uma mulher na década de 1970, tratado à época como um “crime passional”, continua assustadoramente próximo de nós que vivemos no século XXI, falamos de feminicídio diariamente e, ainda assim, convivemos com números que insistem em nos puxar para trás.
Os dados ajudam a explicar esse mal-estar. No primeiro semestre de 2025, o Brasil registrou, em média, quatro feminicídios e 187 estupros de mulheres por dia, segundo o Mapa Nacional da Violência de Gênero. Estatísticas que nos devolvem, sem anestesia, ao país em que Ângela Diniz foi morta e seu assassino, inicialmente, absolvido em nome da chamada “legítima defesa da honra”.
Para quem não conhece a história, o assassinato de Ângela Diniz por Doca Street, então seu namorado, tornou-se um marco na luta contra a violência de gênero no Brasil. Não apenas pela brutalidade do crime, mas pelo julgamento público que se seguiu: o da vítima. Ângela foi dissecada por sua liberdade, seus afetos, sua sexualidade, como se viver plenamente fosse um atenuante para morrer.
O corpo julgado, ontem e hoje
A série, inspirada no podcast Praia dos Ossos, revisita essa trajetória com cuidado e contundência. Marjorie Estiano entrega uma Ângela complexa, viva, contraditória, humana. Emílio Dantas constrói um Doca que começa como paixão arrebatada e revela rapidamente o rosto conhecido de tantos relacionamentos abusivos: o homem ciumento, controlador, que vai pouco a pouco isolando a mulher de amigos, família e de si mesma.
Confesso que, nos primeiros episódios, hesitei. Não me identifiquei de imediato com a liberdade de Ângela e isso diz muito mais sobre nós do que sobre ela. Nossa sexualidade segue vigiada, enquadrada, julgada. Como já cantou Caetano Veloso, “todo mundo quer saber com quem você se deita”, ainda não estamos acostumadas a ver, sem filtros, uma mulher com desejos, falhas e escolhas próprias.
Mas, com o avançar da narrativa, outras sensações conhecidas vieram à tona: quem nunca viveu ou presenciou um relacionamento no qual o ciúme vira regra, o cuidado vira controle e as micro violências crescem até se tornarem ameaça?
Dirigida por Andrucha Waddington, a série deixa claro que o Brasil continua sendo um país perigoso para mulheres. Quantas de nós já fomos chamadas de “piranha” apenas por existirmos? Quantas vezes a imprensa transformou assassinos em vítimas de mulheres “sedutoras”? Basta lembrar o assassinato de Daniella Perez, em 1992, cercado de especulações que tentavam justificar o injustificável. Ou o caso do goleiro Bruno, ainda hoje tratado por alguns como alguém que “arruinou a própria carreira”, como se a vida da mulher que ele matou fosse detalhe.
Relembrar o assassinato de Ângela Diniz é lembrar que ela foi morta com quatro tiros, em dezembro de 1976, em uma casa de praia em Búzios. É lembrar que amigos já percebiam o ciúme excessivo e o controle exercido por Doca Street. É lembrar que a tese da “legítima defesa da honra” só foi declarada inconstitucional pelo STF em 2023, quase meio século depois.
Mas, mais do que recontar um crime, a série nos lança uma pergunta incômoda: quantas Ângelas cabem em uma mulher? Quantas versões de nós mesmas são julgadas, silenciadas ou punidas por ousarem existir fora do script? Falar de Ângela Diniz hoje não é revisitar o passado, é reconhecer que a história ainda insiste em se repetir.
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