SÃO LUÍS - Nesta quinta-feira, 25, às 9h, acontece o show da banda Nova Vida, formada por usuários da psiquiatria do Hospital Nina Rodrigues e mais três artistas da área da música. Na sede do próprio centro psiquiátrico, a banda irá se apresentar para convidados, cerca de 200 pessoas, entre usuários do hospital e de outras clínicas psiquiátricas, clientes atendidos pelo Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), de São Luís e Raposa, além de estudantes das áreas da saúde e familiares dos usuários. A banda é patrocinada pelo projeto Petrobras Cultural e tem a coordenação da ong Himare.
A banda irá apresentar ao público, durante o show de lançamento do projeto Petrobras Cultural, um repertório musical variado, do instrumental a ritmos populares, inclusive com composições dos próprios usuários do hospital. Haverá ainda, recital de poesia e tambor de crioula, também com os clientes da casa. O projeto prevê ainda a realização de oficinas de percussão, noções de baixo e de violão, para todos os usuários dos serviços de saúde em regime intensivo.
Criada em 2004, a banda Nova Vida surgiu da constatação da eficiência da música e dos sons como aliados no tratamento de várias patologias físicas e mentais. Baseado nisso, um grupo de músicos resolveu ensinar teoria musical (leitura de partituras, solfejo e ritmo) e técnicas em instrumentos musicais, aos usuários do hospital, para contribuir no processo terapêutico de ressocialização dos pacientes.
Devido ao grande interesse despertado nos usuários e o rápido desenvolvimento do aprendizado, criou-se então a banda, como mais uma alternativa terapêutica. Graças ao projeto, todos são convidados a participar de um espaço lúdico onde diariamente os usuários do serviço de saúde e profissionais do hospital reúnem-se para ouvir, cantar, tocar e compor música, durante os ensaios e apresentações.
"A idéia veio da necessidade que os internos têm de interagir com o mundo. Nós tentamos dar nossa contribuição levando diversão e música, tentando quebrar o preconceito que existe contra o portador de distúrbio mental”, conta o músico Rogério Jorge, coordenador da banda.
Inicialmente, o projeto só contava com o apoio institucional do hospital Nina Rodrigues que fornece o espaço físico e alguns instrumentos percussivos, além de ajuda de custo para os músicos-instrutores (merendas, refeições e transporte) e um ônibus que transporta a banda para shows em escolas, universidades, lançamentos de livros e outros eventos culturais. E foi justamente a receptividade do público um dos maiores incentivos para o grupo ampliar as apresentações fora do Hospital.
“A realização dos shows em locais públicos, com certeza, aproxima os usuários da sociedade e eleva a auto-estima dos alunos”, comenta a produtora da banda, Rosana Martins Babula, da ong Himare, entidade proponente do patrocínio da Petrobras Cultural que este ano soma a iniciativa. O projeto busca também abrir a possibilidade de alunos-usuários virem a se profissionalizar como musicistas, uma vez que um dos maiores desafios dos usuários dos centros psiquiátricos, dizem respeito à inclusão social, à integração ao mercado de trabalho e à geração de renda. Para o usuário do serviço de saúde do Nina Rodrigues, José Maria, 45 anos, “além da luta por uma rede de assistência mais estruturada, é preciso fortalecer os também os trabalhos de geração de renda”. Ele afirma que “a reinserção no mercado é sempre complicada porque o patrão não quer saber se o empregado vai ter que freqüentar a terapia e resiste a contratar uma pessoa que tome remédios psiquiátricos. É preciso combater o preconceito e a discriminação”. O aluno-usuário tem quatro composições que são executadas pela banda durante os shows.
Para o gerente setorial de Comercialização da Petrobras, Rogério Ferreira da Silva, a Petrobras, por meio do patrocínio cultural concedido à banda, reafirma sua posição de investidora na cultura. “Além disso, levantamos a bandeira da mudança de mentalidade, que vem ocorrendo na sociedade”, referindo-se a centros de saúde que ainda mantêm a lógica arcaica do isolamento. “Apoiar a banda é participar de um movimento social pela transformação; com a ação, os usuários e músicos envolvidos têm um novo lugar, que tem a ver não só com saúde, mas com política, com cidadania”, conclui.
Terapias Alternativas
São vários os projetos e instituições que, como a Banda Nova Vida, utilizam formas alternativas para tratar as pessoas que sofrem de transtornos mentais – os chamados “usuários” do serviço de saúde mental, não mais “doentes” ou “pacientes”. O que pouca gente sabe é que trabalhos como esses têm uma raiz comum. Eles são inspirados na Reforma Psiquiátrica italiana, que pela primeira vez na história recusou os manicômios e o isolamento dos pacientes.
A reforma teve como marco o ano de 1971, quando o psiquiatra Franco Basaglia foi nomeado diretor do Hospital Provincial da cidade de Trieste. Basaglia iniciou o fechamento do hospital psiquiátrico, substituindo-o por uma rede de atendimento composta por centros de convivência, moradias assistidas e cooperativas de trabalho. Sua idéia era pôr fim ao aparato da instituição psiquiátrica tradicional e devolver o doente mental à sociedade, buscando novas formas de entender e tratar a loucura.
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