Se tem um território onde a moda se sente livre para desafiar proporções, brincar com a anatomia e tensionar o conceito clássico de beleza, ele está nos pés. Mais do que um acessório funcional, o sapato virou, há décadas, um laboratório criativo capaz de transformar completamente a silhueta.
Enquanto a roupa precisa negociar com códigos sociais e usabilidade imediata, o calçado costuma aceitar certo o exagero. É ali que designers testam formas improváveis, volumes dramáticos e ideias que beiram o surreal, aproximando o design de moda da arquitetura e da arte contemporânea.
Não por acaso, alguns dos momentos mais icônicos e disruptivos da história recente nasceram nesse espaço.
Os “cascos” futuristas de Thierry Mugler, as Armadillo de Alexander McQueen, eternizadas nos looks de Lady Gagam, e a Tabi criada por Martin Margiela são exemplos de como o sapato pode funcionar como uma intervenção quase arquitetônica no corpo. Ultimamente, esse impulso experimental voltou com força.
Do minimalismo ao “estranho” calculado
Depois de temporadas dominadas por um visual clean e básico, cresce o interesse por modelos que fogem do óbvio. Em vez de acompanhar a lógica acelerada das microtendências, parte das fashionistas tem apostado em sapatos com desenho excêntrico, quase conceitual.
A ideia é clara: reintroduzir humor e personalidade em uma moda que vinha flertando com a homogeneização. Adeus era clean girl!
Durante sua passagem pela Loewe, Jonathan Anderson levou essa proposta ao extremo com modelos cobertos por “bexigas”, saltos em forma de ovo, esmalte ou flores, peças que pareciam mais objetos de design do que calçados.
Já em 2026, a estreia de Matthieu Blazy na alta-costura da Chanel colocou os sapatos no centro da narrativa com saltos em formato de cogumelo. O gesto dialoga com o legado do clássico bicolor criado por Gabrielle Chanel, mas expande a tradição para um território mais lúdico e imaginativo.
O resultado é uma safra de modelos que abraçam o “estranho” como linguagem estética. A seguir, alguns dos formatos que vêm ganhando destaque.
Tabi: a divisão que virou assinatura
Inspirada nas meias japonesas do século XV, a Tabi foi transformada em item fashion pela Maison Martin Margiela em 1989.
Com a separação entre os dedos, o modelo altera a anatomia tradicional do calçado e desloca a noção clássica de elegância ocidental. O visual minimalista, mas inquietante, segue como símbolo de quem quer moda com conceito.
Five fingers: do esporte ao street style
Criados como equipamento para trilhas e esportes de aventura, os modelos com cinco dedos independentes ganharam popularidade nos anos 2000 com a italiana Vibram.
Agora, retornam sob uma nova leitura estética: misturam nostalgia tecnológica do início do milênio com a atual obsessão por performance e funcionalidade. O resultado é um híbrido entre tênis técnico e peça fashion.
Madeira ergonômica: o charme utilitário
Lançada nos anos 1950, a sandália Pescura, da Scholl, conquistou o público pela sola de madeira anatômica e confortável.
Após colaborações recentes com marcas como Melissa e Balenciaga, o modelo voltou ao radar com fivelas aparentes, estrutura exposta e estética utilitária assumida como parte do design.
Salto vitoriano: drama histórico repaginado
Botas de amarração frontal, bicos alongados e saltos inspirados no período vitoriano também reaparecem como parte de uma revisitação histórica.
Referências que já passaram por passarelas da Dior e de Vivienne Westwood ressurgem agora com uma teatralidade mais contida, equilibrando romantismo e rigor.
Mais do que tendência pontual, esses modelos indicam um desejo coletivo: transformar o sapato em protagonista. Em tempos de looks cada vez mais uniformes, são justamente os pés que parecem puxar a moda de volta para o território da imaginação.
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