Com Amor, Alcione

Emoção e celebração aos mais de 50 anos de carreira: exposição em homenagem a Alcione chega a São Paulo após sucesso de público em São Luís

Primeira itinerância da mostra "Com Amor, Alcione" ocupa o Museu das Favelas com um acervo que revela a história, a carreira e o legado da cantora.

Anne Cascaes / Na Mira

Atualizada em 09/07/2026 às 18h33

SÃO PAULO (SP) - Bastam apenas alguns segundos diante da presença de Alcione para sentir a verdadeira potência que a cantora carrega não só em sua voz, mas também no seu modo de pensar e viver. Modo esse que fez com que ela tivesse a coragem de mudar-se do Maranhão para o Rio de Janeiro, no final da década de 60, mesmo sendo tão jovem e não conhecendo nada sobre a cidade a qual iria desembarcar. O resultado dessa aposta, a gente já conhece. De lá para cá já se passaram mais de 50 anos, e Alcione se tornou uma das maiores vozes femininas do samba. 

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E inspirada nesta trajetória e com a proposta de retratá-la cuidadosa e fielmente, a exposição "Com Amor, Alcione" saiu de São Luís, onde estreou em fevereiro de 2025, e chega agora ao Museu das Favelas em São Paulo (SP). A primeira itinerância da exposição, que possui cerca de 650 itens, representa uma quebra de barreira histórica ao oportunizar que a homenagem à cantora seja vista e celebrada não só no Nordeste, mas em outros eixos brasileiros, uma vez que a história de Alcione confunde-se com a história da música popular do Brasil. 

A exposição "Com Amor, Alcione" reúne cerca de 650 itens que percorrem diferentes momentos da vida e dos mais de 50 anos de carreira da cantora maranhense. (Fotos: Luan Batista)

“É uma honra ter a minha vida e obra ocupando o Museu das Favelas. O nome, por si só, já revela a grandiosidade dessa instituição, que estou ansiosa para conhecer. Espero que o público goste e venha conhecer a história desta Marrom aqui, que tem uma gratidão imensa pelo povo de São Paulo”, declarou a cantora.

O lançamento da exposição na capital paulista foi realizada nessa quarta-feira (8), no Museu das Favelas, e contou com a presença da cantora homenageada, além dos curadores da mostra e autoridades. Dentre eles, Jairo Malta (curador), Mariana Rolim (Coordenadora UPPH Secretaria de Cultura do Estado de SP), Natália Cunha (diretora Museu das Favelas), Marília Marton (Secretária de Cultura do Estado de São Paulo), Preto Zezé (CUFA) e Ricardo Piquet (Diretor Geral do idg).

Durante uma coletiva de imprensa, Alcione relatou, ao Imirante.com, momentos importantes da sua trajetória e, ainda, dividiu sua percepção sobre a própria relevância e grandeza, que é retratada ao logo de todo o percurso da exposição em sua homenagem.

Um mergulho em mais de 50 anos de carreira: exposição em homenagem a Alcione chega a São Paulo após sucesso de público em São Luís. (Foto: Luan Batista)

“Uma hora, você descobre que é capaz. Você é, você não poderá ser. Você é. Em um determinado momento da vida, quando eu comecei a me sustentar, quando eu descobri que eu poderia ajudar meus irmãos e a minha família, eu disse: ‘esse aqui é um lema da minha vida’”, compartilhou Alcione. 

O desafio de levar a homenagem de São Luís a São Paulo foi proporcional à grandeza da homenageada. Apesar de não ser uma missão simples, o processo foi gratificante aos idealizadores, organizadores e curadores. “Para a gente é muito especial passar por São Paulo com a exposição ‘Com Amor, Alcione’, porque esse movimento reitera um movimento que a própria Alcione fez, que foi sair das margens para vir construir nos grandes centros urbanos. Esse trabalho foi construído, pensado e idealizado no Maranhão, produzido por equipe maranhense , por pessoas da cultura popular maranhense, então para a gente é um motivo de muito orgulho”, reflete Deyla Rabelo, uma das curadoras de ‘Com Amor, Alcione’. 

A curadora Deyla Rabelo destacou que a chegada da exposição a São Paulo representa um marco para a cultura maranhense e reforça o reconhecimento do legado de Alcione em âmbito nacional. (Foto: Luan Batista)

“Fazer a ponte São Paulo–Maranhão é quebrar mais uma barreira histórica do isolamento do Norte e Nordeste do país. Alcione fez isso quando migrou para o Sudeste e transformou a cultura nacional. Esperamos que essa itinerância dedicada à artista amplie a percepção dos visitantes sobre a construção da cultura brasileira, reconhecendo sempre a contribuição do pensamento popular, principalmente afro-indígena, nesse percurso. A exposição é um grande viva a todos que, como Alcione, inventaram e continuam inventando nosso país a partir das margens”, diz Gabriel Gutierrez, diretor do Centro Cultural Vale Maranhão e curador da exposição “Com Amor, Alcione”.

O curador Gabriel Gutierrez ressaltou que a itinerância da mostra amplia o diálogo entre Maranhão e São Paulo e evidencia a contribuição de Alcione para a construção da cultura brasileira. (Foto: Luan Batista)

Para a temporada em São Paulo, que se estende até dezembro deste ano, foi concebido um novo módulo expositivo, exclusivamente para o Museu das Favelas. Agora, além do que o público pode conhecer em São Luís, a exposição também destaca Alcione como um tributo às pessoas migrantes, mostrando o seu papel nas transformações sociais e culturais. 

De acordo com Natália Cunha, diretora do Museu das Favelas, a chegada da exposição também reforça o compromisso da instituição com a valorização de narrativas fundamentais para a compreensão da identidade brasileira: "Receber 'Com Amor, Alcione' no Museu das Favelas é reconhecer uma artista cuja trajetória ajuda a compreender a formação cultural do Brasil. Ao longo de mais de cinco décadas, Alcione construiu uma obra marcada por encontros entre territórios, memórias e identidades que dialogam diretamente com as histórias que preservamos e compartilhamos aqui. Esta exposição reafirma o Museu das Favelas como um espaço de celebração e valorização de legados fundamentais para a construção da nossa memória coletiva” afirma a diretora. 

O curador do Museu das Favelas, Jairo Malta, afirmou que receber a exposição representa um momento histórico para a instituição e para a valorização das narrativas das periferias brasileiras. (Foto: Luan Batista)

Para o Museu das Favelas, sediar uma exposição tão grandiosa como esta tem um significado forte e que está alinhado às próprias propostas do museu de dedicar o seu espaço ao protagonismo das múltiplas favelas brasileiras, para que suas memórias sejam preservadas e suas produções culturais cada vez mais potencializadas. 

“É uma honra sediar projetos expositivos que tanto representam as favelas e periferias deste país, usando assim a cultura oriunda das favelas. Para nós esta é a noite mais importante pra gente, porque abrimos a principal exposição desta temporada”, disse o curador Jairo Malta durante a estreia da exposição.

Uma viagem por cinco décadas de história

Ao longo do percurso, a exposição convida o visitante a revisitar diferentes fases da vida e da carreira de Alcione. Entre os cerca de 650 itens expostos estão fotografias raras, documentos, objetos pessoais, discos, premiações e figurinos que ajudam a contar a trajetória da artista desde a infância no Maranhão até a consolidação como um dos maiores nomes da música brasileira.

A exposição "Com Amor, Alcione" reúne cerca de 650 itens que percorrem diferentes momentos da vida e dos mais de 50 anos de carreira da cantora maranhense. (Foto: Luan Batista)

Um dos elementos que mais chama atenção é um trompete, instrumento que simboliza o início da relação de Alcione com a música. Filha de João Carlos Dias Nazareth, que foi mestre da Banda da Polícia Militar do Maranhão, a cantora foi incentivada desde cedo pelo pai a estudar instrumentos de sopro, como trompete e clarinete. Antes mesmo de conquistar o Brasil com sua voz marcante, ela já demonstrava talento como instrumentista, característica que a transformou em uma artista multifacetada.

Os figurinos também ocupam lugar de destaque na mostra. Entre eles está a roupa utilizada por Alcione no desfile da Estação Primeira de Mangueira em 2024, quando a escola levou para a Marquês de Sapucaí o enredo "A Negra Voz do Amanhã", uma homenagem à trajetória da cantora e à sua forte ligação com a agremiação.

Figurinos originais da cantora maranhense estão presentes na exposição. (Foto: Luan Batista)

Outro espaço apresenta registros da atuação social desenvolvida por Alcione na comunidade da Mangueira. Fotografias relembram o tradicional Baile Vozes da Primavera, idealizado pela artista para realizar o sonho de jovens da comunidade que não tinham condições de celebrar seus 15 anos. A iniciativa, promovida pela Mangueira por mais de uma década, nasceu da própria história da cantora, que nunca teve seu baile de debutante, e tornou-se um símbolo do compromisso de Alcione com a transformação social por meio da cultura.

Os sucessos que atravessaram gerações

A exposição também reserva um espaço dedicado à obra musical de Alcione. Ao longo do percurso, o visitante encontra referências aos principais sucessos que marcaram mais de cinco décadas de carreira e ajudaram a transformar a cantora em um dos maiores nomes do samba e da música popular brasileira.

Canções como "Não Deixe o Samba Morrer", "Você Me Vira a Cabeça (Me Tira do Sério)", "Meu Ébano", "A Loba", "Estranha Loucura" e "Sufoco" fazem parte da memória afetiva de diferentes gerações e ajudam a explicar a dimensão do legado construído pela artista. Ao reunir objetos, imagens e memórias que dialogam diretamente com esses grandes sucessos, a mostra evidencia como a trajetória de Alcione ultrapassa a música e se confunde com a própria história da cultura popular brasileira.

Mais de 100 mil visitas em São Luís, no Centro Cultural Vale Maranhão (CCVM)

Antes de chegar a São Paulo, a exposição "Com Amor, Alcione" conquistou o público em sua temporada de estreia, realizada em São Luís. Inaugurada em fevereiro de 2025 para celebrar os 50 anos de carreira da cantora maranhense, a mostra teve o encerramento prorrogado diante da grande procura e ultrapassou a marca de 100 mil visitantes, entre eles 7.635 estudantes da rede pública de ensino.

Ao longo de um ano em cartaz, a exposição transformou-se em um espaço de encontro entre diferentes gerações, reunindo admiradores da artista e pessoas interessadas em conhecer mais sobre sua trajetória e sua contribuição para a cultura brasileira. 

Segundo os curadores, a mostra cumpriu a missão de celebrar o legado construído pela Marrom ao longo de mais de cinco décadas de carreira. Além de homenagear a artista, a exposição também buscou reconhecer sua contribuição para a formação da identidade cultural brasileira, valorizando uma trajetória que atravessa gerações e ultrapassa fronteiras.

Sobre o CCVM

O Centro Cultural Vale Maranhão é um espaço cultural dinâmico, diverso e aberto, que oferece e mantém o lugar de diálogo e prática para artistas, produtores de cultura e visitantes. Seu principal objetivo é ampliar o acesso ao fazer e aos bens culturais, proporcionando ambientes de troca, criação e formação, que sejam diversos e de todos. A liberdade expressiva e responsável é o eixo central de atuação, entendendo cultura e educação como base para a produção da experiência.

A programação é pensada com o comprometimento de oferecer ao público conteúdo de qualidade, nas mais diversas linguagens artísticas, colaborando para o saber e formação do pensamento crítico. Exposições, editais, shows, apresentações de cultura popular, espetáculos de artes cênicas e dança, cursos, oficinas, mostras de cinema e festivais são pensados para proporcionar vivências enriquecedoras a todos os visitantes.

Ainda, o CCVM entende e reconhece a riqueza cultural maranhense, e assim, funciona como um farol difusor, colocando o Maranhão entre os importantes polos culturais do país, com grande foco na cultura popular e suas interlocuções com as instâncias institucionais. Além disso, também recebe profissionais de outros estados e países, para que haja intercâmbio cultural, levando a cultura maranhense cada vez mais longe e contribuindo para a formação local.

O Centro Cultural Vale Maranhão é mantido pelo Instituto Cultural Vale, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, e situa-se no coração do Centro Histórico de São Luís. Ao lado de outras instituições culturais, colabora com a dinamização da localidade e reafirma o caráter cultural da região da cidade.

Sobre o Museu das Favelas

O Museu das Favelas é uma instituição do Estado de São Paulo, gerida pelo Instituto de Desenvolvimento e Gestão (idg). Possui a missão de conectar e garantir o protagonismo das múltiplas favelas brasileiras, preservando suas memórias e potencializando suas produções culturais por meio de exposições, programações, ações educativas, pesquisa e difusão de informação.

Através de sua relevância cultural, o Museu das Favelas recebeu o Selo de Igualdade Racial 2025, que destaca iniciativas que promovem a equidade racial e a diversidade no mercado de trabalho. Também foi premiado pela APCA 2024, na categoria Música Popular – Projetos Especiais, com a exposição ‘Racionais MC’s: O Quinto Elemento’, reconhecido também como a Melhor Atração Turística no 4º Prêmio do Afroturismo - Guia Negro, em 2026. 

Na temporada de 2026, por meio da Lei de Incentivo à Cultura - Lei Rouanet, o Museu tem a Meta como mantenedora, patrocínio do Mercado Livre, apoio da EY e EATON, cooperação da Unesco e parceria institucional da CUFA – Central Única das Favelas.

Localizado no Largo Páteo do Colégio, nº 148, o Museu das Favelas possui entrada gratuita, funcionando de terça-feira a domingo, das 10h às 17h. Saiba mais em: museudasfavelas.org.br.

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