BRASIL - Em uma época em que o cinema ainda engatinhava ao redor do mundo, um italiano radicado no Brasil ajudaria a registrar as primeiras imagens produzidas em território nacional. Em 19 de junho de 1898, Afonso Segreto retornava ao Rio de Janeiro após uma viagem aos Estados Unidos e à Europa trazendo equipamentos de filmagem e películas para exibição. Antes mesmo de desembarcar, porém, realizou um gesto que acabaria entrando para a história: a bordo do navio que cruzava a Baía de Guanabara, registrou imagens da entrada da então capital federal.
A gravação é considerada um dos marcos inaugurais da cinematografia brasileira e transformou o 19 de junho na data escolhida para celebrar o Dia do Cinema Brasileiro. Passados 128 anos daquele registro, o audiovisual produzido no país acumula uma trajetória marcada por diferentes movimentos artísticos, sucessos de público, reconhecimento internacional e obras que ajudaram a retratar as múltiplas realidades do Brasil.
Ao longo das décadas, títulos como Central do Brasil, Cidade de Deus, Tropa de Elite, Ainda Estou Aqui e Minha Mãe é uma Peça conquistaram espaço no imaginário popular e se tornaram referências quando o assunto é cinema nacional. Mas a produção brasileira vai muito além dos filmes que costumam dominar as listas de favoritos.
Neste Dia do Cinema Brasileiro, o Na Mira reuniu algumas obras que merecem ser redescobertas. Dramas, fantasia, ficção científica, comédia e clássicos históricos, os filmes a seguir ajudam a revelar a diversidade de estilos, narrativas e olhares que compõem a cinematografia nacional. Confira:
A Hora da Estrela (1985)
Direção: Suzana Amaral
Baseado no romance de Clarice Lispector, o longa acompanha Macabéa, uma jovem alagoana que se muda para o Rio de Janeiro em busca de oportunidades. Entre empregos precários, relações superficiais e uma rotina marcada pela solidão, ela atravessa a cidade quase invisível para aqueles ao seu redor, enquanto tenta encontrar algum sentido para a própria existência.
Com uma interpretação memorável de Marcélia Cartaxo, vencedora do Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim, o filme transformou em imagens toda a delicadeza e a dor presentes na obra de Lispector. Décadas após o lançamento, permanece como uma das adaptações literárias mais importantes da história do cinema brasileiro.
Boas Maneiras (2017)
Direção: Juliana Rojas e Marco Dutra
Clara, uma enfermeira que vive na periferia de São Paulo, aceita trabalhar como babá para Ana, uma mulher rica que enfrenta uma gravidez cercada por acontecimentos cada vez mais estranhos. À medida que as duas desenvolvem uma relação de afeto e confiança, segredos começam a emergir e alteram completamente os rumos da história.
Misturando horror, fantasia, musical e drama social, o filme desafia classificações fáceis. O resultado é uma obra ousada e surpreendente, considerada por muitos críticos um dos projetos mais criativos produzidos pelo cinema brasileiro nas últimas décadas.
O Palhaço (2011)
Direção: Selton Mello
Benjamin vive na estrada ao lado do pai, integrando um pequeno circo itinerante que percorre cidades do interior brasileiro. Acostumado a arrancar risadas do público, ele passa a enfrentar uma crise pessoal que o leva a questionar sua profissão, seus sonhos e a própria identidade.
Com humor sutil e sensibilidade rara, Selton Mello constrói uma narrativa sobre pertencimento e amadurecimento. É um daqueles filmes que encontram grandeza justamente nos pequenos gestos e nas inquietações mais humanas.
Bingo: O Rei das Manhãs (2017)
Direção: Daniel Rezende
Augusto Mendes sonha em se tornar um astro da televisão. Quando finalmente alcança o sucesso ao interpretar um famoso palhaço em um programa infantil, descobre que a fama tem um preço inesperado: o personagem pertence à emissora, e seu rosto não pode ser associado ao fenômeno que conquistou milhões de crianças.
Inspirado na trajetória de Arlindo Barreto, um dos intérpretes do Bozo no Brasil, o longa mergulha nos bastidores da televisão dos anos 1980 e discute fama, excessos e a busca constante por reconhecimento. A performance de Vladimir Brichta foi amplamente elogiada e ajudou a transformar o filme em um dos destaques do cinema nacional contemporâneo.
O Homem que Copiava (2003)
Direção: Jorge Furtado
André trabalha em uma fotocopiadora e leva uma vida aparentemente comum. Apaixonado pela vizinha, ele começa a imaginar maneiras de mudar sua realidade financeira e se aproximar da garota que observa da janela. Aos poucos, pequenos planos se transformam em situações cada vez mais inesperadas.
Com roteiro inventivo e narrativa cheia de reviravoltas, o filme combina romance, humor e suspense em uma história que continua conquistando novas gerações de espectadores mais de vinte anos após sua estreia.
O Homem do Futuro (2011)
Direção: Cláudio Torres
Zero é um cientista brilhante, mas frustrado, que nunca conseguiu superar uma decepção amorosa do passado. Quando um experimento científico produz resultados inesperados, ele encontra a oportunidade de voltar no tempo e tentar reescrever a própria história.
Estrelado por Wagner Moura e Alinne Moraes, o longa utiliza elementos clássicos da ficção científica para falar sobre escolhas, arrependimentos e segundas chances. É uma das experiências mais bem-sucedidas do gênero produzidas pelo cinema brasileiro.
Boi Neon (2015)
Direção: Gabriel Mascaro
Iremar trabalha em vaquejadas pelo Nordeste brasileiro, cuidando dos animais e ajudando na rotina dos eventos. Por trás da aparência rude associada ao universo em que vive, porém, ele cultiva um sonho pouco convencional: tornar-se estilista e criar suas próprias peças de roupa.
Com fotografia marcante e um olhar atento para personagens que desafiam estereótipos, o filme apresenta um Nordeste contemporâneo distante das representações mais tradicionais vistas nas telas. A produção recebeu reconhecimento em festivais internacionais e se tornou uma das obras mais celebradas do cinema brasileiro recente.
Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)
Direção: Glauber Rocha
Após entrar em conflito com um poderoso fazendeiro, Manuel e Rosa iniciam uma jornada pelo sertão nordestino. Pelo caminho, cruzam com figuras religiosas, cangaceiros e personagens que simbolizam diferentes formas de resistência e opressão presentes na sociedade brasileira.
Símbolo do movimento Cinema Novo, o filme permanece como uma das obras mais influentes da história do audiovisual nacional. Sua linguagem inovadora e suas reflexões sobre desigualdade, violência e poder continuam despertando debates mais de seis décadas após o lançamento.
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