São Luís: 392 anos de História e Cultura

07/09/2004 às 18h05

SÃO LUÍS - Nesta quarta-feira, 8 de setembro, é o aniversário de São Luís. São 392 anos respirando história, beleza natural, arquitetônica e cultural. A ilha foi fundada pelos franceses, habitada por etnias diversas, convivendo no dia a dia com a tradição e a modernidade.

HISTÓRIA

São Luís, lembrada hoje pelo enorme casario de arquitetura portuguesa, no início abrigava apenas ocas de madeira e palha e uma paisagem quase intocada. Aqui ficava a aldeia de Upaon-Açu, onde os índios tupinambás - entre 200 e 600, segundo cronistas franceses - viviam da agricultura de subsistência (pequenas plantações de mandioca e batata doce) e das ofertas da natureza, caçando, pescando, coletando frutas.

Em 1535, a divisão do país em capitanias hereditárias deu ao tesoureiro João de Barros a primeira oportunidade de colonizar a região.

Na década de 1550 foi fundada a cidade de Nazaré, provavelmente onde hoje é São Luís, que acabou sendo abandonada devido à resistência dos índios e a dificuldade de acesso à ilha.

Daniel La Touche, conhecido como Senhor de La Ravardière, acompanhado de cerca de 500 homens, chegou à região em 1612 para fundar a França Equinocial e realizar o sonho francês de se instalar na região dos trópicos. Uma missa rezada por capuchinos e a construção de um forte marcaram a data de fundação da nova cidade: 8 de setembro. Logo se aliaram aos índios, que foram fiéis companheiros na batalha contra portugueses vindos de Pernambuco decididos a reconquistar o território, o que acabou por acontecer alguns anos depois.

Comandada por Alexandre de Moura, a tropa lusitana expulsou os franceses em 1615 e Jerônimo de Albuquerque foi destacado para comandar a cidade. Dos fundadores restou o nome de São Luís, uma homenagem ao rei francês Luís XIII estranhamente mantida pelos portugueses.

Açorianos chegaram à cidade em 1620 e a plantação da cana para produção de açúcar e aguardente tornou-se então a principal atividade econômica na região. Os índios foram usados como mão-de-obra na lavoura. A produção foi pequena durante todo o séc. XVII e, como praticamente não circulava dinheiro na região, os excedentes eram trocados por produtos vindos do Pará, Amazônia e Portugal. Rolos de pano eram um dos objetos valorizados na época, constando inclusive nos testamentos dos senhores mais abastados.

Em 1641, foi a vez dos holandeses de Maurício de Nassau, que já comandavam Pernambuco, tomarem a cidade. Chegaram pelo porto do Desterro, saquearam a igreja que nele fica e só foram vencidos três anos depois. Preocupado com o isolamento geográfico e os constantes ataques à região, o governo colonial decidiu então fundar o Estado do Maranhão e Grão Pará, independente do resto do país.

A criação da Companhia de Comércio do Estado do Maranhão, em 1682, integrou a região ao grande sistema comercial mantido por Portugal. As plantações de cana, cacau e tabaco eram agora voltadas para exportação, tornando viável a compra de escravos africanos. A Companhia, de gestão privada, passou a administrar os negócios na região em substituição à Câmara Municipal. O alto preço fixado para produtos importados e discordâncias quanto ao modelo de produção, geraram conflitos nas elites que culminaram na Revolta de Beckman, considerada a primeira insurreição da colônia contra Portugal. O movimento foi prontamente reprimido pelas forças governistas.

Na segunda metade do séc. XVIII, devido a Guerra da Secessão, os Estados Unidos interrompem sua produção de algodão e abrem espaço para que o Maranhão passe a fornecer a matéria-prima demandada pela Inglaterra. Em 1755 é fundada a Companhia Geral do Comércio do Grão Pará e o porto de São Luís ganha enorme movimento de chegada e saída de produtos. Com a proibição do uso de escravos indígenas e o aumento das plantações, sobe muito o número de escravos negros.

Se desde o final do séc. XVII novos elementos da civilização européia já chegavam a São Luís por vias marítimas (com destaque para os religiosos carmelitas, jesuítas e franciscanos, que também passaram a educar a população), este processo de modernização aumentou no novo ciclo econômico, trazendo benefícios urbanos para a cidade. Durante o período pombalino (1755-77), acontece a canalização da rede de água e esgotos e a construção de fontes pela cidade.

Em 1780 é construída a Praça do Comércio, na Praia Grande, que se torna centro da ebulição econômica e cultural de São Luís. Tecidos, móveis, livros e produtos alimentícios, como o azeite português e a cerveja da Inglaterra, eram algumas das novidades vindas do velho continente.

Os filhos dos senhores eram enviados para estudar no exterior, enquanto na periferia da cidade, longe da repressão da polícia e das elites, os escravos fermentavam uma das culturas negras mais ricas do país. Entre as abastadas famílias de comerciantes estava a senhora Ana Jansen, conhecida por maltratar, torturar e até matar seus escravos.

Além de dar nome a uma lagoa que fica na parte nova da cidade, Ana Jansen é também lembrada através de uma lenda: sua carruagem, puxada por cavalos brancos sem cabeça, estaria circulando ainda hoje pelas ruas escuras de São Luís.

O grande fluxo comercial de algodão, que chegou a fazer da capital maranhense a terceira cidade mais populosa do país (atrás apenas do Rio de Janeiro e Salvador), entrou em decadência no fim do século XIX, devido à recuperação da produção norte-americana e a abolição da escravatura. A produção agrícola foi aos poucos sendo suplantada pela indústria têxtil que, além de matéria-prima, encontrou mão-de-obra e mercado consumidor na região. A nova atividade colaborou para a expansão geográfica da cidade e surgimento de novos bairros na periferia.

CULTURA

A terra de palmeiras dos versos do ludovicense Gonçalves Dias reflete em toda sua plenitude a miscigenação de raças característica da formação do povo brasileiro. Traços culturais de origem africana, européia e indígena são identificados a cada passo de dança, a cada rufar de caixas, nas rezas e nas roupas das festas. Aqui, as influências vindas de outros cantos se unem e se recriam, fazendo da cidade uma dos maiores polos culturais e turísticos do país.

Sede da terceira maior comunidade negra do país (atrás do Rio de Janeiro e Salvador), São Luís tem nas manifestações culturais e religiosas de origem africana uma de suas maiores riquezas. Se a herança da colonização portuguesa se faz presente principalmente na arquitetura dos sobrados concentrados no centro histórico, o legado dos africanos se espalhou pela periferia da cidade e pelo interior do estado.

Marginalizados e em algumas épocas reprimida, os hábitos e crenças trazidos pelos escravos e mantidos por seus descendentes são hoje reconhecidos como únicos no Brasil. Mesmo incorporando elementos culturais dos senhores e dos índios, a população de origem africana de São Luís e arredores mantém-se fiel às suas raízes.

REGGAE

O reggae chegou a São Luís pelas ondas curtas de rádio, nos navios que aportam na cidade ou através de DJs que foram à fonte jamaicana buscar o som. Desde que ganhou a cidade, na década de 70, foi se tornando um fenômeno de popularidade que só ganha força e seguidores.

No início, alguns reggaes eram tocados em meio ao popular forró. Da mistura dos dois surgiu a dança única dos bailes de São Luís, prova que o som caribenho ganhou um sotaque nordestino: o chamego típico do dois-pra-lá, dois pra-cá é a coreografia básica da festa. Para atrapalhar a conversa ao pé do ouvido, só mesmo o volume quase insuportável das paredes de som que cercam os galpões e salões.

Os sucessos de Bob Marley, Peter Tosh e Bunny Wailer comandavam o som quando o ritmo começava a conquistar seus adeptos. Hoje, no entanto, são lembrados apenas na seção saudade, guardada para o final dos bailes.

Quem anima mesmo as radiolas são bandas locais, como Miragem, Guethos e Reprise, e jamaicanos que, dada a freqüência com que se apresentam na cidade, são quase ludovicenses, como George Dekker e Norris Cole. E nunca é demais lembrar que a mais conhecida banda de reggae do país, a Tribo de Jah, começou em São Luís.

Quase todos os dias acontece uma festa na cidade. Na periferia, no centro histórico ou na beira-mar (aqui principalmente aos domingos, que afinal é dia de praia), os reggeiros têm sempre uma opção. Doze grandes radiolas (equipes de som) se revezam no comando dos eventos, sem contar as dezenas de equipes de menor porte. "São Luís é cercada", diz o DJ Marlon Brown, da radiola Estrela do Som, uma das mais populares. É só chegar para ver.

CARNAVAL

O carnaval de São Luís começa no ínicio de janeiro com o desfile de bandas - compostas principalmente por instrumentos de sopro - que saem às ruas para esquentar os foliões. Além das tradicionais escolas de samba, uma das grandes atrações do carnaval da cidade são os diversos blocos que representam aspectos culturais da região.

Fofões: os foliões se vestem com macacões estampados que lembram os palhaços da Comédia Del Arte e usam máscaras inspiradas em filmes de terror.

Tribos de Índio: os brincantes são meninos e adolescentes que se vestem com trajes dos índios norte - americanos e imitam um ritual de cura conduzido por um pajé.

Casinha da roça: trata-se de um carro alegórico que reproduz uma típica casa da roça recoberta com palha. No interior da casa, vários tipos maranhenses brincam ao ritmo do tambor de crioula.

Brincadeira de urso: auto popular onde homens e mulheres fantasiados - caboclos, índios, soldados, baianas, ciganas, veterinários e curandeiros - formam um cordão que tem, ao centro, três personagens mascarados que dançam o tempo todo ao som de marchinhas carnavalescas: um macaco, um cachorro e um urso.

Blocos tradicionais: surgidos na década de 50, seus integrantes usam fantasias luxuosas e brincam ao som forte dos tambores com coreografias cadenciadas.

Blocos Afro: inspirados nos grupos afros da Bahia, os blocos Akomabu e Abibimã usam o batuque das músicas para cantar mensagens contra o preconceito e exaltar heróis negros.

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Tambor de Crioula

Um dos rituais mais populares nas casas de cultura afro do Maranhão é o tambor de crioula, uma celebração baseada na música e dança que mistura fé e diversão. Uma homenagem a São Benedito (santo negro e filho de escravos, natural da Itália), é organizada ao ar livre em qualquer época do ano para celebrar datas, momentos marcantes ou pagar promessas.

Os coreiros e coreiras reúnem-se em um círculo, com homens tocando e cantando as toadas enquanto as mulheres dançam.

Embaladas pelo ritmo acelerado dos tambores, as coreiras interagem através da punga, ou umbigada: batem de frente com a barriga em quem está no centro da roda, saúdam uma companheira e a convidam para dançar.

A percussão embalada pelos coreiros é composta por três tambores, sempre tocados com a mão, formando uma parelha. O maior deles, chamado de roncador ou rufador, anuncia a punga; o médio (meião, socador ou chamador) marca o ritmo e o menor (perengue, merengue ou crivador) faz um som repicado. A matraca também é usada para cadenciar as coreiras.

Grandes saias rodadas e estampadas, torsos na cabeça, pulseras e colares, além da blusa branca de renda, compõem o alegre vestuário feminino. A maioria dos grupos que mantém viva a cultura do tambor de crioula está ligada às associações de bumba-meu-boi, outra tradição fundamental do estado.

Tambor de Mina

Religião afro-brasileira trazida pelos descendentes negros de origem jeje e nagô. Semelhante ao Candomblé da Bahia, o culto acontece em casas conhecidas como terreiros, onde os iniciados cultuam, invocam e incorporam entidades espirituais durante os rituais. As mulheres compõem grande parte dos iniciados e usam roupas especiais na ocasião. São utilizados instrumentos como tambores, cabaças, triângulos e agogôs.

Entre as casas de culto religioso na cidade, a mais antiga é a Casa das Minas, fundada no século XIX. Comandada por mulheres, é uma casa de culto aos voduns (entidades do reino africano de Dahomé - atual Benin) e pertence ao vodum Zomadônu, da família real de Davice. Único terreno de mina-jeje de São Luís, é muito visitada durante a Festa do Divino. Além da Casa das Minas, a Casa de Nagô e Casa Fanti-Ashanti também merecem destaque.

MONUMENTOS

Teatro Arthur Azevedo

Segundo mais antigo do Brasil, foi fundado com o nome de Teatro da União por dois comerciantes portugueses em 1817. No projeto original, o teatro se estenderia até o Largo do Carmo, mas acabou reduzido por um veto da Igreja. Baseado no chamado teatro de platéia italiano, em formato ferradura, apenas em 1922 ganhou o nome atual. Funcionou como cinema entre 1940 e 1966 e, abandonado, acabou em ruínas.

Em 1989, quando apenas a fachada original ainda resistia, foi demolido e reconstruído de acordo como o projeto original. Atualmente tem capacidade para 750 espectadores, distribuídos por 4 andares. Os espetáculos são gravados por um circuito profissional de vídeo instalado no teatro e retransmitidos pela TV Senado.

Palácio dos Leões

Aqui foi erguida pelos franceses uma fortificação em homenagem ao rei Luis XIII em 1612. A estrutura do atual prédio foi construída no final do sec. XVIII e passou por inúmeras reformas, até assumir o estilo neoclássico. Hoje é a sede do Governo do Estado.

Museu de Artes Visuais

Seu acervo é composto por azulejos coloniais, murais, fotografias e obras de artistas maranhenses. Um de seus destaques é a coleção de gravuras do escritor Arthur Azevedo.

Igreja e Convento Nossa Senhora do Carmo

Serviu de abrigo para portugueses durante a expulsão dos holandeses, em 1643. Pertencia à ordem dos carmelitas e depois passou para o controle dos capuchinhos. Sua escadaria é em pedra de cantaria.

Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho

Sediado num sobrado colonial de 3 pavimentos, mantém um grande acervo com peças das diversas manifestações culturais (bumba-meu-boi, tambor de crioula, carnaval, dança do coco etc) e religiosas (tambor de mina, Festa do Divino etc) do estado. Além disto, possui objetos da cultura indígena e artesanatos.

Ceprama - Centro de Comercialização de Produtos Artesanais do Maranhão

Antiga fábrica textil Companhia de Fiação e Tecidos de Cânhamo, reúne hoje o artesanato produzido em todo o estado.

Museu Histórico e Artístico do Maranhão

Funcionando no Solar Gomes de Souza, o museu foi inaugurado em 1973 e se destaca pela reconstituição da decoração típica dos sobrados do séc. XIX com móveis, objetos e obras de arte.

Igreja da Sé Nossa Senhora da Vitória

Erguida por ordem do terceiro capitão-mor Diogo Machado da Costa em 1629, quando a cidade passava por um surto de varíola. É uma homenagem à protetora dos portugueses na batalha de Guaxenduba (vitória sobre os franceses). Foi reconstruída várias vezes até 1922, quando assumiu o aspecto neoclássico. No interior destaca-se o altar-mor talhado em ouro.

Convento das Mercês - Fundação da Memória Republicana

Construído em 1654 e inaugurado pelo padre Antônio Vieira, aqui funcionava a sede do antigo Convento da Ordem dos Mercedários. Hoje é a Fundação da Memória Republicana, com documentos e objetos do ex-presidente José Sarney.

Fonte das Pedras

Serviu de base para a tropa de Jerônimo de Albuquerque durante a expulsão dos fundadores franceses em 1615. É cercada de árvores e bancos.

Solar de São Luís

Considerado o maior prédio em azulejos da país (tem três pavimentos), foi construído na segunda metade do século XIX. Teve seu interior destruído por um incêndio e ficou abandonado até ser adquirido e restaurado pela Caixa Econômica Federal, que nele instalou um agência.

Museu de Arte Sacra

Anexo ao Museu Histórico, funciona no Solar do Barão de Grajaú. Seu acervo, que pertence em parte à Arquidiocese de São Luís, é composto por peças dos séc. XVIII e XIX nos estilos mareirista, rococó, barroco e neoclássico.

Igreja dos Nossa Senhora dos Remédios

Construída em 1719 no estilo gótico, fica na praça Gonçalves Dias, de onde se tem uma das vistas mais bonitas da cidade.

Cafua das Mercês (Museu do Negro)

Pequeno sobrado onde funcionava o mercado de escravos que chegavam a São Luís, hoje abriga um museu de referência da cultura negra, com peças de arte de origem africana e instrumentos musicais.

Centro de Atividades Odylo Costa

Antigo armazém reformado, abriga um espaço cultural com cinema, teatro, galeria de arte, cursos e outras atividades.

Igreja do Desterro

Considerado o primeiro templo construído no estado (em 1614), foi demolido na invasão holandesa e reconstruído por moradores.

Palácio la Ravardiére

Construído em 1689, é a atual sede da prefeitura municipal. No largo do palácio está um busto de Daniel de La Touche, ou senhor de La Ravardière, o fundador da cidade.

Fonte do Ribeirão

Construída em 1796 para abastecer a cidade, tem o pátio revestido com pedras de cantaria. Suas janelas gradeadas dão acesso às galerias subterrâneas que passam pelo centro histórico.

A cidade nova e a Lagoa da Jansen

O centro histórico de São Luís fica na baía de São Marcos, às margens do rio Anil. A cidade ao longo do tempo cresceu para o interior e também atravessou o rio, ocupando uma vasta área plana que acompanha a baía e chega até o litoral.

A ponte José Sarney (1970) e, mais tarde, a ponte Bandeira Tribuzzi, fizeram a ligação entre o centro histórico e os novos bairros da cidade, que agora se estendem na direção das praias.

Nestes novos bairros existem bons restaurantes, hotéis, cinemas e shoppings. Já quase na orla marítima se destaca a Lagoa da Jansen, recentemente despoluida e recuperada, com largos calçadões e áreas de lazer ao seu redor.

Praias

A orla maritima de São Luís é marcada por praias extensas, planas, de areia dura e clara, com mar raso de temperatura amena. As praias têm muitas áreas aproveitadas como campos de futebol e costumam ser bem vazias durante a semana, sendo ocupadas pela população da cidade durante os finais de semana.

Em toda sua extensão existem barracas de praia que servem peixe, frutos do mar, cerveja gelada e aperitivos. Cada barraca tem sua atração especial, seja na culinária ou na música, atraindo um público afim. Na praia Ponta d´Areia se encontram vários clubes especializados em reggae.

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