Especial | Literatura

São Luís por meio das páginas da literatura

Romances também podem traduzir referências de uma cidade
Bruna Castelo Branco/Editora do Alternativo08/09/2021
São Luís por meio das páginas da literaturaO pesquisador Henrique Borralho (Divulgação)

São Luís - Dizem que da janela de um casarão localizado na Rua do Sol, no Centro de São Luís, o escritor Aluísio Azevedo observava a sociedade ludovicense. O comportamento social, os preconceitos da época serviram de inspiração para o consagrado romance O Mulato, publicado em 1881, com fortes críticas à sociedade da época.

Da varanda da sua casa, José Chagas pensou em como transformar os telhados de São Luís em poesia e Josué Montello escreveu romances pujantes, entre sua beleza narrativa abordou temas contundentes, reflexos da sociedade na época.

Embora a literatura não tenha a obrigação de ter traços da realidade histórica, mas dialogam, alimentam-se da realidade, do contexto dos autores e também do tempo em que foram escritas e podem servir como documentos importantes para as análises históricas.

Segundo o escritor professor do Departamento de História e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual do Maranhão e coordenador do Núcleo de Estudos de Historiografias e Linguagens – UEMA, Henrique Borralho, a “literatura diz muito sobre a realidade, e em alguns aspectos diz até mais que a própria realidade, mas não tem a obrigação de dizê-lo. Se tiver, deixa de ser literatura. Obras como Tambores de São Luís, de Josué Montello e, O cortiço, de Aluísio Azevedo, são documentos históricos porque foram produzidas num tempo e espaço e possuem relações com a realidade, mas não são um retrato fiel dela. São documentos importantes? Sim, enquanto monumentos, mas não enquanto veracidade dos fatos. As personagens são tipos ideais, são baseadas na realidade, os tipos, costumes, são inspirações, não podem nunca ser tomadas como valor incontestável”, destaca Borralho,

“Literatura é literatura, é própria dela, está no campo da verossimilhança, na ficcionalidade. Há elementos que tangenciam a cognominada realidade, uma vez que a literatura retira do mundo seu material de inventividade e devolve ao mundo aquilo que não tem, a literança. Claro também que os aspectos da literança dialogam com a realidade, senão, não haveria retroalimentação, sistema literário, compreensão, aliteração, sentido, interpretação, e, sobretudo, remissão”, pondera o pesquisador.

Estudos

Segundo o pesquisador, as relações entre literatura e história voltaram a se bifurcar a partir dos anos 1960, com os estudos pós-estruturalistas, o new criticism, da variação linguística, da nova semiologia, dos estudos de semiologia, de análise do discurso, da crítica à escola do formalismo russo, da ascensão do grupo de Mikhail Bakhtin, da arqueologia de Michel Foucault, dos trabalhos de Roland Barthes, dentre outras coisas. Todos esses elementos influenciaram por demais a chamada Nova História cultural que passou a considerar a literatura enquanto fonte de investigação. “Eu disse voltaram a se bifurcar porque na Grécia clássica, antes da separação definitiva de um Logus, de um tipo de racionalidade, todo o conhecimento era holístico, poesia e história eram a mesma coisa, depois, sobretudo com Aristóteles se separam. Andaram juntos até o século XVIII quando o conceito de literatura assumiu os contornos que tem até hoje, até a separação mais abrupta com o positivismo no século XIX”, pontua.

Referências

Durante mais de 10 anos, o professor Henrique Borralho teve como foco em suas pesquisas a história e a literatura do Maranhão, do século XIX e XX e pontuou algumas obras que, de alguma forma, servem como um documento acerca dos contextos da cidade.

Hoje, mesmo dedicando-se aos estudos da literatura africana pontuou algumas obras importantes aqui no Maranhão.

“Sermões escolhidos, do Padre Antônio Vieira; Presuntolamia Lazeiral; Poranduba Maranhense, de Francisco Nossa Senhora Prazeres Maranhão (uma espécie de dicionário linguístico do Maranhão no início do século XIX); Viagem pelo Brasil: 1817 – 1820, de Johann Baptist Von Spix; os folhetins de João Francisco Lisboa que me ajudaram a entender o ethos maranhense, e também, Jornal de Timon; Curso de Litteratura portugueza e brasileira, de Sotero dos Reis; O Cativeiro, de Dunshee de Abranches; Casca da Caneleira (uma obra coletiva em resposta a Questão Coimbra - debate sobre o realismo em Portugal e a disputa ferrenha entre Feliciano de Castilhos e Antero de Quental, o primeiro afirmando que o realismo português só tinha leitores em países de analfabetos como o Brasil); Tres Lyras, um dos autores é Trajano Galvão (uma de suas obras que me é muito cara); O Livro do Povo, de Antonio Marques Rodrigues; Um Livro de Crítica, de Frederico José Correa (a mais dura crítica ao mito da Athenas Brasileira, livro basilar na minha tese de doutorado); Pantheon Maranhense, de Antônio Henriques Leal; O Mulato, de Aluísio Azevedo; Os Novos Atenienses, de Antônio Lobo; Vencidos e degenerados, de Nascimento Morais; Estrela do Céu Perdido, de Lago Burnet; Um Pouco acima do Chão, e também Poemas Sujos, de Ferreira Gullar; Alguma Existência, de Bandeira Tribuzi; Clamor da Hora Presente, de Nascimento Morais Filho, Azulejos do Tempo, de José Chagas (as obras dele, não apenas essa); Guia Histórico e Sentimental de São Luís do Maranhão, de Astolfo Serra; Breve história das ruas e praças de São Luís, de Domingos Vieira Filho; todas as obras de Josué Montello, afinal, os romances dele constituem a ‘saga maranhense’, uma espécie de cartografia sociocultural e espacial ficcional sobre o Maranhão e em particular, São Luís. No fundo, ele escreveu apenas uma obra, um mapa ficcional da cidade”,

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