Roda Viva | Opinião

Abdala, o meu querido pai

Benedito Buzar07/08/2021
Abdala, o meu querido paiNos idos de 1962, Abdala Buzar, prefeito de Itapecuru e os candidatos a deputados federal e estadual, Líster Caldas e este jornalista. (Divulgação)

Amanhã, dia dedicado aos pais, não posso esquecer do meu saudoso Abdala Buzar Neto, filho dos libaneses, Rafiza e João Buzar, que vieram do Líbano para o Brasil, no começo do século XX, fixando residência na cidade de Itapecuru, onde, como comerciantes, prosperaram e construíram, com a participação dos filhos Abdala e José João um conceituado e forte empreendimento empresarial.
Reza a lenda, que o meu pai nasceu na cidade baiana de Juazeiro, mas, de acordo com o registro de seu nascimento, ele, veio ao mundo em Itapecuru a 15 de novembro de 1911, sendo aluno do professor Manfredo Viana, que lhe deu boa formação moral e educacional.

Trabalhando com os pais e o irmão no empreendimento comercial, Abdala começou a se destacar e ser reconhecido pelos itapecuruenses como um homem trabalhador, de boa índole e responsável pelas mudanças operadas na firma familiar, que a fizeram conhecida na capital do Estado como fornecedora de produtos primários e importadora de manufaturados.

Casou-se com Deonila Rodrigues Bogéa, a 5 de maio de 1937, com a qual gerou uma prole de oito filhos, sendo eu o primeiro da fila.

Pela boa atuação na atividade privada, chamou as atenções do interventor Paulo Ramos que o nomeou para as seguintes funções no período ditatorial: juiz suplente, adjunto de promotor, delegado de Polícia, gerente em Itapecuru da Rede Aeroviária Maranhense, órgão que ligava as principais cidades à capital do Estado pelos aviões da Condor.

Na transição da ditadura getuliana para o regime democrático, o interventor Saturnino Bello o nomeou prefeito de Itapecuru, que administrou de fevereiro de 1946 a janeiro de 1948, transmitindo o cargo ao sucessor e eleito Miguel Fiquene.

Na sua gestão, construiu o moderno Grupo Escolar Gomes de Sousa e doou à Comissão Executiva dos Produtos da Mandioca uma área da cidade para a instalação da fábrica de álcool, projeto não concluído por atos de corrupção.

Identificado com os problemas da cidade, ingressou na vida pública, sendo o mais votado à Câmara de Vereadores, no pleito de 1950, ato que o conduziu à presidência da edilidade e, como tal, assumiu por alguns dias o cargo de prefeito.

Nas eleições de 1958, volta a ter assento na Câmara de Vereadores, credenciando-se a disputar as eleições de prefeito em outubro de 1960. Ao término do mandato, em janeiro de 1966, legou um saldo positivo de obras nas áreas urbana e rural, nesta, com a construção de estradas vicinais e pontes.
No último mandato que disputou, por conta de seu prestígio popular e dos recursos próprios, elegeu-me, aos 22 anos de idade, deputado estadual no pleito de 1962, pelo Partido Social Progressista, mandato que perdi em abril de 1964, a mando do regime militar.

A partir de setembro de 1963, com o falecimento do pai João Buzar, da invalidez do irmão José, e da avançada idade da mãe Rafiza, Abdala passou a conduzir praticamente só os negócios comerciais e industriais da família.

Na história política de Itapecuru, além de sua correta atuação à frente dos negócios públicos, fez-se estimado e querido pela população, face ao modo generoso como ajudava o povo nos momentos da necessidade. No exercício do poder, não desviava recursos ou se locupletava com as verbas públicas.
A sua maneira de atuar na campanha partidária e no processo eleitoral era singular, pois nos comícios não faltavam banda de música, foguetório, transporte e muita comida nos ranchos. Dificilmente discursava nos palanques, preferia ficar no meio do povo. No dia da eleição, realizada totalmente na sede do município, os eleitores recebiam as chapinhas no ponto de serem colocadas nas urnas. Após a apuração dos votos, os candidatos vitoriosos e o eleitorado eram convocados para uma grande festa pública. Dos governadores de sua época, construiu forte amizade com Sebastião Archer da Silva, a ponto de ser um frequente consumidor da comida palaciana.

Quando se encontrava à frente da prefeitura, dois problemas o preocupavam e não podiam deixar de faltar à comunidade: o abastecimento de carne e o fornecimento de energia elétrica.
No seu coração, o ódio não encontrava lugar, razão porque sabia perdoar com facilidade. Podia ter adversários eventuais, inimigos, jamais. No seu reinado político em Itapecuru, fazia questão de ter sempre de seu lado, o padre, o juiz e o delegado de polícia.

Religioso ao extremo e devoto de São Benedito, era quem se encarregava de promover os festejos do santo, com recursos próprios nos finais de cada ano. Ao longo da vida, foram frequentes e relevantes os serviços prestados à paróquia de Nossa Senhora das Dores.

Paralelamente à sua religiosidade, não descurava de seu fervor profano, tanto que gostava de ajudar os cultivadores das manifestações populares e folclóricas, promovidas nos povoados do Moreira, Santa Rosa do Barão, Outeiro dos Nogueiras e Filipa, que não deixava de comparecer.

Por falar em festa, que seja ressaltado o prazer e a alegria de participar também dos folguedos carnavalescos, nos quais costumava se vestir de mulher e invadia a casa dos amigos, para banhá-los de lança-perfume e de pó da cabeça aos pés. Os padres eram suas vítimas preferidas.
Nos anos 1960, encabeçou um movimento para fundar um clube social e recreativo na cidade, do qual foi o primeiro presidente.

A vida de Abdala Buzar, toda ela voltada para fazer o bem e de proporcionar a felicidade das pessoas, da cidade e da sua família, começou a fragilizar fisicamente no começo da década de 1970, quando se viu atacado por um maligno câncer. Sendo ele um viciado fumante, a doença não o perdoou, invadindo o seu pulmão de forma inapelável, a despeito dos esforços que fizemos para tratá-lo em São Luís, Fortaleza e Rio de Janeiro.

Termino essa homenagem ao meu querido pai, lembrando da composição musical de Sérgio Bittencourt, que terminava assim: “Naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele tá doendo em mim”.

Pedro Caldeira
Com muita tristeza, recebo um telefonema da amiga Maria Elda, informando-me do falecimento do esposo, Pedro Caldeira, que morava em São Paulo, vítima da Covid-19.

Nascido em Pedreiras, era engenheiro competente, professor modelar, escritor renomado e cientista de produção reconhecida internacionalmente, com livros publicados no Japão, China, Dinamarca e Inglaterra.

Centenário de Líster Caldas
Nesta quarta-feira, 11 de agosto, Líster Segundo da Silveira Caldas, completaria cem anos de vida.
Nascido em Teresina, mas ainda criança veio de muda com a família para São Luís, onde diplomou-se bacharel em Direito.

Ingressou na atividade pública pelas mãos do interventor federal Saturnino Bello, que o nomeou chefe de gabinete.

Nas eleições democráticas de 1947, elegeu-se deputado estadual, iniciando uma longa trajetória política, encerrada em 1966, depois de cumprir dois mandatos na Assembleia Legislativa e três na Câmara Federal.

Conselho político
Dotado de fina ironia, de excepcional verve e de incomum presença de espírito, Líster Caldas deixou para os políticos, que teimam em permanecer na vida pública, quando são rejeitados pelo eleitorado, este oportuno conselho: - Não é a gente que deixa a política; a política é que deixa a gente.

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