Opinião | Artigo

Quem tem um pediatra para chamar de seu?

Marynéa Vale *31/07/2021

No dia 27 de julho, comemora-se o dia do pediatra e a Sociedade de Puericultura e Pediatria do Maranhão traz uma reflexão para todos, no sentido de identificar quem são as crianças e adolescentes que, infelizmente não terão uma resposta positiva para um questionamento tão simples para muitos e tão doloroso para uma grande parcela da população. O acompanhamento na gestação, ao nascimento e no crescimento e desenvolvimento das crianças, até a chegada na idade adulta, de forma sistemática, segura, competente e acolhedora, deve ser tarefa do pediatra, como preconiza a Sociedade Brasileira de Pediatria, de forma a reduzir as fragilidades na saúde física e mental dos nossos adultos, pois já está bem claro e estabelecido que muitas das morbidades crônicas da idade adulta possuem origem na infância.

Nesse sentido, a SBP e suas filiadas estão firmes na defesa da inserção do pediatra em todos níveis da Rede de Atenção à Saúde, em especial na Atenção Primária, onde a literatura é clara na afirmação sobre a resolutividade dos problemas de saúde em 80%. Nos dias de hoje, a assistência às crianças moradoras de áreas menos nobres das grandes cidades, atingidas pela fragilidade social de suas famílias, em geral é feita em Unidades de Pronto Atendimento, deixando às claras a lacuna da promoção da saúde e a prevenção das morbidades.

Quando uma mulher está gestante, devemos nos questionar se está fazendo pré-natal e se na Unidade de Saúde em que vai fazer o mesmo, será feita uma consulta com o pediatra, de modo a reduzir as possibilidades de risco de doenças para o bebê.

Assim como devemos nos questionar se é realizada a vinculação da gestante com uma maternidade, onde deverá nascer seu bebê, devemos nos questionar quem será o pediatra, que vai garantir que sejam realizadas as boas práticas nesse nascimento, quais sejam o contato pele e a amamentação na primeira hora de vida, se o bebê nascer bem; ou se este pediatra é capacitado em Reanimação Neonatal, apto para em 60 segundos (minuto de ouro) reanimar este bebê e reduzir o risco de sequela neurológica ou óbito.

Quando essa mulher sai de alta para casa, precisamos nos questionar quem será o pediatra que vai ser procurado na primeira semana de vida deste bebê para orientar sobre o aleitamento materno, sobre as vacinas, sobre os testes de triagem neonatal, sobre a carteira da criança e sobre as dúvidas e anseios de uma família que recebe um novo membro.

Nos últimos anos, em especial nos dois últimos anos com a pandemia da COVID 19, observou-se redução na cobertura vacinal, com riscos de surtos de sarampo e meningite, além da redução dos leitos hospitalares pediátricos e lacuna na condução de morbidades crônicas. Nesta pandemia, as crianças foram colocadas em segundo plano, pela menor possibilidade de complicações clínicas e transmissibilidade do vírus SARSCOV 2. Assim, ficaram sem escolas, expostas à violência doméstica, sem políticas públicas para garantia de mínima de seus direitos e sem um profissional que prioriza o cuidado à infância e adolescência, que é o pediatra.

Por isso, no dia do pediatra, pedimos um presente a todas as crianças e adolescentes brasileiras: que tenha um pediatra para chamar de seu, próximo da sua casa, em uma Unidade Básica de Saúde. Que todas as famílias possam contar com um pediatra desde a consulta pré-natal, no atendimento ao nascimento e no acompanhamento em toda a infância e adolescência, para enfim termos a esperança de um futuro melhor para o nosso País, com cidadãos saudáveis.

* Pediatra Neonatologista, presidente da SPPMA, chefe da Unidade de Cuidados Intensivos Perinatais do HUUFMA e membro do Departamento Científico de Neonatologia da SBP

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