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As novas "Rayssas" que surgem e o mercado que lucra com o skate

Se por um lado, sobram problemas, como a ausência de maior representatividade do skate, por outro, o esporte é tão encantador que é possível ver na pureza das crianças, quem sabe, a esperança de uma nova "Rayssa"
Thiago Bastos / O Estado31/07/2021 às 00h00
Paulo Capela, de 18 anos, treina manobras na rampa da Reserva do Itapiracó; ele começou no skate aos 10 anos e o apelido diz sua relação com o esporte

São Luís - Em todo bom resultado no esporte brasileiro, o mesmo fenômeno acontece. Ou seja, quando o Gustavo Kuerten vence Roland Garros por três vezes, fala-se na existência de novos "Gugas". Quando, mais recentemente, Gabriel Medina é vencedor no Surf, da mesma forma. Tal efeito não é diferente quando o assunto se trata no pós-medalha olímpica de Rayssa Leal no skate street.

E aí, a pergunta é clara: será possível aproveitar-se deste momento para a formação de novas Rayssas, ou Codós (em referência à José Carlos Moreira, o Codó, medalhista olímpico de Bronze em 2008) ou Tânias (em alusão à Tânia Maranhão, medalhista em Atenas em 2004)? Em comum, todos atletas do Maranhão que foram ao pódio em uma Olimpíada.

Um seleto grupo que poderia ser bem maior, se houvesse mais investimento na prática esportiva, na promoção de escolinhas, no desenvolvimento de novos treinadores e capacitadores e, principalmente, na viabilização de praças esportivas que tornem determinadas modalidades, como o skate, esportes promovidos como de massa, de fato.

No caso do skate, a vitória de Rayssa Leal é fruto simples de seu talento, e não é o resultado (infelizmente) de uma política de formação esportiva. É o que dizem especialistas e outros nomes ouvidos por O Estado desde, em especial, ao pódio da maranhense em Tóquio.

Se por um lado, sobram problemas, como a ausência de maior representatividade do skate no âmbito nacional, por outro, o esporte é tão encantador que, em meio ao caos e a ausência de investimentos, ainda é possível ver na pureza das crianças, quem sabe, a esperança de uma nova "Rayssa". E se não se formarem novos fenômenos do esporte, pelo menos o cidadão ou cidadã está garantido.

O skate no Maranhão
Para o surgimento de nomes fortes no esporte, além da identificação destes potenciais talentos, é fundamental ter dois elementos que, neste momento, o Maranhão não registra no caso do skate: representatividade (em termos de entidades organizadores que identifiquem skatistas e outros praticantes) e, por isso, calendário específico com promoção contínua de competições. Por ora, o estado segue no skate com a soma entre praticantes comuns e amadores com torneios isolados e, com a ausência de seletivas mais longas, não estimulam e ampliam o campo de participantes.

O Estado entrevistou Jonas Pires. Segundo ele, que já foi membro da federação local, está em fase de detalhes burocráticos a recriação da federação local skatista que, de acordo com ele, está sem abertura oficial há anos.

Ele, que citou nomes como o de Alessandro Baculejo, um dos nomes mais conhecidos e antigos do skate local, aborda ainda a necessidade de criação desta entidade. “Apesar de grupos como a Liga dos Skatistas Solidários e a Associação Metropolitana de Skate, ainda falta a maior representação, que se daria com a federação”, afirmou.

O negócio é fomentar a prática

Enquanto skatistas e praticantes defendem a ideia de que a representação é fundamental para o fortalecimento da modalidade, alguns membros do skate maranhense são adeptos da tese de que o estímulo à prática, por si só, seria o passo decisivo a ser dado para o surgimento de novos talentos.

Um dos mais fiéis defensores da ideia é Fábio "Dentinho". Segundo ele, o esporte é, em vários momentos, intuitivo e, com o acompanhamento de técnicos e outros capacitadores, pode ser suficiente ou fundamental para o crescimento de novos skatistas.

“O esporte é basicamente o estímulo natural ao crescimento com o incremento técnico de um especialista. No caso do skate, é um esporte basicamente democrático. Profissionais e amadores podem treinar lado a lado, na mesma pista, com o mesmo uso e espaço dividido, o que mostra basicamente o lado encantador deste esporte”, afirmou.

Segundo “Dentinho”, é preciso ainda citar nomes que fizeram parte da história do skate local. “Em relação a mão de obra qualificada e acompanhamento de obras do skate o nome de Ericksson Meireles, que é skatista e engenheiro, é de grande valia que seja citado também, pois ele tem a expertise necessária para tocar projetos e acompanhar a construção de pistas de skate”, disse.

Ele ainda lembrou de outro nome, o professor Cacá. “Não poderíamos deixar de citar o professor Carlos Augusto Cacá, como nome forte do skate educacional, que vem ao longo desses anos fazendo contribuições pontuais nesse segmento, sendo um dos responsáveis pela inclusão do skate nos Jogos Escolares Maranhenses de 2017 além de participar diretamente da Escolinha Social de Skate do Maranhão desde da sua concepção”, afirmou.

Opinião parecida quanto ao estímulo na formação de skatistas tem Bruno Guerra, o “Japona”. Para ele, com 42 anos, 35 deles dedicados ao skate, os talentos estão no estado e precisam ser descobertos. “Tem muita moçada aí mandando bem demais no skate, por aí afora, só que não tem quem lapide estas pessoas como atletas”, disse.

Ex-morador do estado do Amazonas, sua paixão pelo skate começou aos 7 anos quando viu “um cara” passar de skate na rua de casa. “Meu pai trabalha por lá em uma hidrelétrica e quando vi, quis andar logo de cara. É assim, quando a gente gosta do esporte, é amor à primeira vista”, afirmou.

“Japona” foi campeão maranhense de Skate em 1999 e vice no Norte-Nordeste em 2000, após se habilitar via seletiva estadual.

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A nova "Rayssa"?
A consolidação do esporte, a médio e longo prazo, passa pelo repasse das funções, habilidades e, principalmente, das técnicas a partir da massificação das clínicas de preparação. O Estado encontrou Sofia, de apenas 9 anos. Com o skate no sangue, já que é filha de Ricardo Daniel, um nome conhecido entre os skatistas mais antigos, ela carrega a semelhança física com a skatista mais famosa do Maranhão neste momento e, em comum, a paixão pelo esporte.

Ela está há pouco tempo em sua capacitação, cerca de três semanas. A garota está na fase de equilíbrio em cima da prancha, parte fundamental do processo de domínio do skate. Posterior a isso, deve dominar em breve as manobras mais exigidas no circuito.

Por enquanto, Sofia não pensa em se profissionalizar, e sim em curtir o momento. “Quando era ainda mais nova, não gostava muito. Mas depois que comecei a ver a Rayssa [Leal] e, principalmente, quando comecei a ver meu pai fazendo, passei também a curtir e a gostar. Para mim, hoje é um barato andar de skate”, disse.

Sofia contou ainda que assistiu a prova de Rayssa Leal. “Achei que ela [Rayssa] foi muito bem e corajosa. Fiquei muito feliz por ela ter trazido esta medalha”, afirmou.

Sobre, quem sabe, um dia conhecer a representante mais famosa do skate, Sofia disse que quer ser treinada pela “Fadinha”. “É um sonho que passei a ter, quem sabe um dia”, disse.

A mãe de Sofia, dona Jaqueline, dá apoio à inclusão da filha no skate. “Como o pai dela gosta, já foi um estímulo de certa forma. O mais importante, eu acho, é que os jovens pratiquem alguma modalidade. Se ela escolheu o skate, que seja do gosto dela e que ela pratique”, afirmou.

Sofia e outros jovens, crianças em geral, são o futuro do esporte. A filha de Mayza Mendes, estudante de 23 anos, já pratica skate mesmo tão nova. Luna, de apenas três anos de idade, está seguindo os passos da mãe, que também “se amarra” na prancha com rodas. “Eu comecei inspirada nos meus tios. Após o longboard, fui para o street, modalidade em que a Rayssa está. Faço skate por paixão e por questão da família ter apoiado e ver ela, a Fadinha, na pista tão bem nestas Olimpíadas, para mim, foi motivo de muito orgulho”, disse.

Dos jovens aos capelas
Informalmente, “capela” é aquele simplesmente viciado em fazer algo, de forma constante. Quem vai na pista do Itapiracó todas as tardes, encontra o Paulo “Capela”, de apenas 18 anos de idade. Fera nas manobras, ele pratica skate desde os 10 anos. “Eu morava ao lado de uma praça com skate, então para mim foi mais fácil gostar”, disse.

Morador do bairro da Forquilha, diariamente, “Capela” pega o transporte público para praticar skate. “É um amor, e gostar de esporte é ser ainda mais saudável”, afirmou.

Daniel Lopes (d) escolhe skate ao lado de Érico Araújo, empresário do setor; vendas estão aquecidas

Mercado de produtos para skatistas ferve pós medalha

Com a alavancada do skate após a conquista da medalha olímpica de Rayssa Leal, os lojistas do varejo no segmento esportivo calculam os lucros, com o aumento pela procura por artigos ligados ao esporte. Em várias lojas, os estoques de pranchas, tênis e outros artigos estão maiores, esperando pela demanda dos clientes.

Em um shopping da capital maranhense, os empresários Érico Araújo e Dinamarck Araújo, que administram uma loja no ramo do mercado de esportes radicais, estimam maior procura nas próximas semanas. “Por enquanto, a galera ainda está mais querendo saber de preços e como começar no skate. Depois disso, com negociação, adquirem uma prancha mais adequada e um calçado específico, além da roupa claro”, disse Dinamarck.

Para Érico Araújo, o mais importante é começar no skate com um bom suporte técnico. “Não é simplesmente pegar um skate apenas e colocar-se para andar. É fundamental também neste caso ter algum especialista que dê o mínimo de respaldo a esta pessoa”, disse.

A loja dos sócios oferece capacitação profissional aos interessados em começar no skate. O estudante Daniel Lopes, de 21 anos, esteve há quatro anos sem praticar a modalidade. Agora, com a nova ascensão do skate, ele quer voltar a praticar e esteve em uma loja para comprar a ferramenta de trabalho. “Além de estar inativo, vou voltar aos poucos.

SAIBA MAIS

Nota da Sedel

Em nota, a Secretaria de Estado de Esportes e Lazer (Sedel), informou que, com a pandemia causada pelo novo coronavírus, o que resultou no isolamento social e a suspensão das práticas de esporte e lazer, a Sedel teve que reavaliar suas ações e adaptá-las à realidade, direcionando-as para a reestruturação das praças esportivas do estado. Em um primeiro momento foi realizada a reestruturação do complexo esportivo da Lagoa da Jansen, onde está inserida uma pista de skate, entregue em 2020. Além desta, existem os projetos de implantação de uma pista no Parque do Itapiracó, na Praça da Juventude do bairro do Barreto e na Praça da Juventude em Paço do Lumiar, que contemplam o espaço destinado à modalidade.

A pasta ressaltou ainda a implantação do projeto “Skate na periferia”, inscrito na Lei de Incentivo ao Esporte do Governo do Maranhão. Segundo a Sedel, o projeto de uma escolinha de skate será implantado em São Luís, atendendo a população em quatro polos distribuídos nos bairros da Ilhinha, Piquizeiro, Barreto e no Jaracati.

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