Roda Viva | Opinião

Hoje como ontem ou ontem como hoje?

05/06/2021

Nos dias correntes é comum ouvir dos mais idosos reclamações quanto ao comportamento das novas gerações, acusadas de não darem o valor merecido às pessoas que em vida lutaram ou cuidaram dos nossos valores culturais e artísticos.
O desprezo das gerações de hoje às figuras humanas que se destacam ou ganham relevo nas letras e nas artes maranhenses, não é, entre nós, novidade, pois, também, em tempos remotos, fatos e atos semelhantes aconteciam e com a mesma indiferença e intensidade.
Imaginar, portanto, que no passado, havia reconhecimento, respeito ou veneração pelos homens de cultura que em vida trataram de elevar o nome do Maranhão às alturas, é um tremendo equívoco.
Essa afirmação o faço louvado num texto extraordinário e brilhante produzido pela inteligência do jornalista conterrâneo, Franklin de Oliveira, publicado em São Luís, em O Imparcial, a 01 de dezembro de 1950, em memória do inesquecível escritor, nascido em Viana, Antônio Lopes, que morreu angustiado por não se ver reconhecido pelos seus contemporâneos.
O texto é longo, razão pela qual limitar-me-ei a reproduzir trechos que considero antológicos, expressivos e contundentes: “De todos os escritores com que até hoje privei, foi Antônio Lopes o que maior impressão de força e segurança de voo me deu. Tudo, nele, sob a unção de sua palavra, era amplo e transfigurava-se. E nenhuma força o galvanizava mais do que o amor pelo Maranhão. “Amor da terra, da paisagem, das tradições, dos hábitos, dos costumes das heranças sociais, amor primordial de tudo aquilo que constitui a história e a alma da velha província que nunca soube compreender o mestre, sempre ingrata à sua ternura e insensível à nobreza mental de seu afeto.
“Dir-se-ia, e estou certo disso, de que o Maranhão, com esta decorrência que o corroe estava muito abaixo da espécie de afeição que lhe dedicava Antônio Lopes..
“Pobre, porque generoso e abnegado, porque idealista e não pragmático, pobre porque inteligente e não falcatrueiro, pobre porque digno e não fraudulento, nunca o Estado lhe procurou tornar a vida mais leve, que assim precisava fosse não por egoísmo, mas pelo desejo de poder melhor trabalhar pela sua terra.
“Homem intensamente mentalizado, ardentemente intelectualizado, que tudo compreendia em termos de arte e de pensamento, e que não podia aceitar que não fosse filtrado pela cultura e purificado pela sensibilidade, Antônio Lopes sentia a não correspondência de seu amor como uma injustiça, não ao seu nome, mas ao próprio patrimônio do Maranhão. Ele se excluía do episódio para testemunhar a vilania do desapreço, a vileza da desatenção que estávamos dando miseravelmente a nós mesmos. Isto o matou. Não foi a doença. Foi isto.
“E que fica para o Maranhão? Em tempos antigos, desaparecia um mentor de gerações, e outro ocupava o lugar. Hoje, andam por aí, um ultraje tão grande e uma canalhice tão proliferante, que a velha fisionomia da terra é quase irreconhecível.
“O que Antônio Lopes criou de inteligência e nobreza de alma persistirá. Tão poderosamente forte, como o remorso dos que, nesta terra, não amparam a única coisa que sempre distinguiu o Maranhão do resto do Brasil: não amparam seus homens de cultura.
“Mestre, se em vida não ajudou a tua terra, é um escárnio o resgaste que à última hora se tentou. Tu a perdoarás que teu amor era magnífico. Ela, porém, não se perdoará a si mesma. Os crimes contra o Espírito são crimes sem recessão.”

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