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Economia criativa perde 458 mil postos de trabalho no último trimestre

Postos para trabalhadores especializados na área da cultura sofreram o maior impacto, com queda de 18%
07/04/2021 às 10h26
Economia criativa perde 458 mil postos de trabalho no último trimestre Banco de imagens/Freepik

São Paulo - A economia criativa perdeu 458 mil postos de trabalho formais e informais entre o quarto trimestre de 2019 e o quarto de 2020, devido aos impactos da pandemia da Covid-19. De outubro a dezembro de 2019, havia 7.137.912 indivíduos trabalhando no segmento. Nos mesmos três últimos meses do ano seguinte, o número havia caído para 6.679.994, uma retração de 6,4%.

Essa perda só não foi maior porque no último trimestre de 2020 houve um aumento próximo a 115 mil trabalhadores em Tecnologia da Informação, um crescimento de 24% em relação a igual período do ano anterior. Isso se explica devido às restrições de circulação trazidas pela pandemia, que aumentaram a demanda e deram relevância aos serviços e plataformas online adotados por segmentos diversos da população.

A definição de trabalhador criativo, que norteia o levantamento do Observatório Itaú Cultural, se baseia no modelo de intensidade criativa de Hasan Bakhshi, Alan Freeman e Peter Higgs, calcado em cinco conceitos. Tem esse perfil aquele que atende a pelos menos quatro desses critérios: capacidade de resolver problemas ou atingir objetivos de maneira inovadora, com o emprego claro e frequente da criatividade; a sua tarefa não tem como ser realizada por máquinas; não repete nem uniformiza uma função, de modo a que o impacto no processo produtivo seja diferente a cada vez que atua, a depender do contexto da tarefa e das capacidades cognitivas por ela acionadas. Os outros dois conceitos são: a contribuição criativa desse trabalhador à cadeia de valor, atuando em qualquer setor que traz inovação e/ou criações, e a interpretação, não mera transformação do trabalho.

As informações constam do Painel de Dados do Observatório Itaú Cultural, que monitora a evolução econômica da indústria criativa no Brasil. Neste levantamento foram utilizados dados da Pnad Contínua.

“Obter e compreender os dados e as informações a respeito do trabalho no campo da economia criativa é fundamental para produzirmos e apoiarmos ações e políticas públicas para o segmento”, observa Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural.

Com teatros, cinemas, museus, centros culturais e outros equipamentos operando em ritmo mais lento, os postos de trabalho na área da cultura (atividades artesanais, artes cênicas e artes visuais, cinema, música,
fotografia, rádio e TV e museus e patrimônio) foram os mais afetados pela retração, com recuo de 18% no período analisado. No quarto trimestre de 2019 havia 773.962 postos de trabalho para profissionais de cultura no país. No final do quarto trimestre de 2020, o número havia baixado para
634.297.

Dos trabalhadores criativos especializados ligados à cultura, a queda maior foi nas ocupações de cinema, música, fotografia, rádio e TV, onde houve uma perda de mais de 95 mil postos de trabalho entre o final de
2019 e o final de 2020, representando uma taxa de queda de 30%.

A retração também foi acentuada no caso de trabalhadores de apoio à indústria criativa, caso, por exemplo, de um contador que presta serviços para empresas e pessoas físicas na área. A queda de postos, neste
estrato, foi de quase 15%. No quarto trimestre de 2019 havia 2.540.624 trabalhadores atuando neste campo. No final de 2020, restaram 2.164.134.

Entre os trabalhadores criativos incorporados por outros setores da economia (um designer que trabalha para uma indústria automobilística, por exemplo) a queda foi de 4,1%, ou cerca de 76 mil postos de trabalho. No 4º trimestre de 2019, eram 1.854.951 neste estrato. No 4º trimestre de 2020, o número retraiu para 1.778.690.

O impacto foi mais acentuado nas ocupações relacionadas ao cinema, música, fotografia e tv, publicidade e design, totalizando uma queda de 33%, 23% e 20%, respectivamente, em números absolutos, publicidade foi a categoria a apresentar a maior queda, com menos cerca de 145 mil postos de trabalho no período.

Altas
Mas nem todos os subgrupos analisados pelo Observatório Itaú Cultural sofreram retrações. Há também segmentos com saldos positivos em contratações, nas ocupações de trabalhadores criativos especializados. A lista é encabeçada pelos postos de trabalho abertos na área de Tecnologia da Informação, que, em números absolutos, representam cerca de 115 mil das 134,5 mil vagas abertas nesse recorte da economia criativa. Na sequência, o setor editorial abriu cerca de 23,8 mil postos de trabalho, arquitetura pouco mais de 14,8 mil e publicidade mais de 6,5 mil.

Entre os trabalhadores incorporados, ou seja, aqueles que são criativos, mas atuam em outros setores da economia, as categorias que tiveram um aumento nos postos de trabalho, mais uma vez, foram aquelas ligadas ao setor de arquitetura, editorial e, principalmente, de Tecnologia da Informação, que abriu mais de 98 mil postos de trabalho.

Formais x informais
A queda no número de postos de trabalho afetou mais fortemente os trabalhadores informais, que são aqueles que atuam sem carteira assinada e profissionais empregadores ou por conta-própria sem cadastro
formal de CNPJ.

Teve menos impacto entre os trabalhadores formais, ou seja, os que possuem carteira assinada, servidores públicos e profissionais empregadores ou conta-própria com cadastro formal de CNPJ.
No caso dos informais, havia 2.838.385 postos de trabalho na economia criativa no 4º trimestre de 2019. O número caiu para 2.525.900 postos no 4º trimestre de 2020, consolidando queda de 11%.

Entre os trabalhadores formais, uma das razões para a retração ter sido menor é a criação de políticas de proteção ao emprego implementadas durante a pandemia, que permitiram a diminuição de carga horária e a suspensão temporária de contratos de trabalho, protegendo os trabalhadores celetistas de possível desligamento. Segundo dados da Pnad Contínua, no 4º trimestre de 2019 eram 4.299.526 postos de trabalho formais na economia criativa. No mesmo período em 2020, foram 4.154.094, uma retração de 3,4%.

“Cada vez mais, a sociedade, as empresas e o Estado precisam observar a economia criativa como um exercício permanente para o desenvolvimento econômico do país”, analisa Saron.

Os segmentos que mais conseguiram recuperar seus níveis de emprego entre o 4º trimestre de 2019 e o de 2020 foram os de trabalhadores especializados formais (trabalhadores criativos de todas as categorias – culturais e demais categorias criativas – que atuam nos setores criativos) e o de trabalhadores incorporados formais e especializados informais. Os trabalhadores de apoio informais, após expressiva queda nos dois primeiros trimestres de 2020, ainda mostram dificuldades para recuperação.

Por sua vez, os trabalhadores criativos especializados formais conseguiram ultrapassar o seu nível de emprego do final de 2019, com saldo positivo na faixa de 49,5 mil empregos. Esse aumento possivelmente foi puxado pelos trabalhadores especializados da área de Tecnologia da Informação, que – conforme mencionado – obtiveram crescimentos expressivos no período.

O movimento de recuperação do emprego dos trabalhadores incorporados formais – que chegou perto de seu patamar anterior à pandemia, embora ainda não o tenha atingido – demonstra a importância dos trabalhadores criativos para os demais setores da economia.

Após a queda no 2º trimestre de 2020, os 3º e 4º trimestres mostram que o setor formal não criativo voltou a contratar esses profissionais para contribuir em seus setores. Estima-se que essa retomada nos trabalhadores criativos incorporados também esteja ligada principalmente aos trabalhadores de ocupações ligadas à Tecnologia da Informação.

Sobre o Observatório Itaú Cultural

O Observatório Itaú Cultural foi criado em 2006 com foco na gestão, na economia e nas políticas culturais e promove, desde então, estudos e debates desses temas, estimulando a reflexão sobre a cultura em seus vários aspectos e analisando os indicadores nacionais. Amplia a sua atuação e alcance com seminários, cursos, encontros e palestras; uma linha editorial de livros e da Revista Observatório, disponíveis gratuitamente na web; a promoção de pesquisas sobre o campo cultural.

Entre 2009 e 2019 realizou, ainda, um curso de especialização em gestão cultural em parceria com a Cátedra Unesco de Políticas Culturais, a Cooperação da Universidade de Girona, Espanha, e com o apoio da Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI). Em 2021, lança o Mestrado Profissional em Economia Política da Cultura e Indústrias Criativas em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul,

Sobre o Painel de Dados

O Painel de Dados do Observatório Itaú Cultural é primeira plataforma digital do país inteiramente dedicada à análise de dados da cultura e da economia criativa. O projeto fornece um arsenal de dados sobre estes setores, em três grandes eixos: emprego/empresas, financiamento público e importação e exportação de produtos e serviços.

O painel agrega dados de diferentes fontes oficiais de informação como PNAD Contínua, RAIS (Ministério da Economia), Pesquisa Anual de Serviços (PAS - IBGE), Pesquisa Industrial Anual (PIA – IBGE), Pesquisa Anual de Comércio (PAC - IBGE) e SICONFI (Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do Setor Público Brasileiro), entre outros repositórios de indicadores.

Na plataforma, o visitante encontra um ambiente intuitivo, amigável e ferramentas para analisar informações de 16 diferentes variáveis, criando séries históricas, quadros comparativos e recortes por ano, região, estados e setores específicos de atividade, permitindo a geração de painéis sobre a economia criativa, que representa 4% da receita bruta total da economia brasileira.

O Painel de Dados do Observatório Itaú Cultural pode ser consultado em: https://www.itaucultural.org.br/observatorio/paineldedados.

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