Cidades | História secular na saúde

A "Casa dos Donativos" e da ajuda de abnegados: a Santa Casa sobrevive pela solidariedade

Durante os mais de dois séculos de existência, a unidade de saúde recebeu apoio de pessoas que, com seus bons gestos, contribuíram para o funcionamento do local
Thiago Bastos / O Estado 07/11/2020
A "Casa dos Donativos" e da ajuda de abnegados: a Santa Casa sobrevive pela solidariedadeImagem antiga da Santa Casa de São Luís, vista da perspectiva da Praça da Misericórdia (Divulgação)

Em 2020, a Santa Casa de Misericórdia completa 205 anos de fundação. Neste período, a unidade foi fundamental não somente para o tratamento de pacientes, como para a formação de médicos e outros profissionais de saúde. Grandes nomes da medicina local contribuíram, direta ou indiretamente, com a Santa Casa.

Sua estreita ligação com a Igreja Católica foi acompanhada pela abnegação de pessoas que, de forma reservada, somaram seus esforços em prol da assistência populacional gratuita. Após o funcionamento, a unidade passou a receber grande contingente de pacientes, o que obrigou gestores e colaboradores a reformar a parte física da unidade.

Em 1874, conforme citação dos responsáveis técnicos atuais pelo local, a Santa Casa passou por processo de reconstrução. Vários setores passaram por recuperação. O então provedor, Augusto Olympio Gomes de Castro - com a colaboração dos responsáveis pelo setor fiscal, como Alexandre Collares Moreira, João José Fernandes, João da Matta Moraes Rêgo e outros, foi o mentor das obras.

À época, a Mesa Administrativa era formada por Antônio Telles de Berredo, Adriano Duarte Godinho, Manoel Gonçalves Ferreira, José Maria Freitas e Vasconcelos, Raimundo José Pereira da Castro, Eduardo Américo de Moraes Rêgo e Flávio Alexandrino dos Reis Quadros.

Enfermos do conflito pró-monarquia assistidos na Santa Casa

Em 1889, de acordo com o historiador Euges Lima, um personagem chamou a atenção nos livros mais específicos dos fatos marcantes do Maranhão relativos à resistência social dos movimentos pró-monárquicos. Um deles chamava-se, segundo o especialista, Manuel da Silva Assunção.

Segundo Euges, após o conflito entre forças populares e de segurança da época, feridos foram levados para a Santa Casa. De acordo o mapa dos indivíduos baleados que deram entrada no Hospital da Santa Casa de Misericórdia no dia 17 de novembro de 1889, era um total de catorze homens, entre 20 e 40 anos, sendo que alguns chegaram mortos e outros feridos.

Conforme os Mapas dos feridos que deram entrada naquela “noite sangrenta” de meados de novembro de 1889, Manuel estava entre eles, sendo alvejado no peito direito.

De acordo com informes de Dunshee de Abranches, Manuel sobreviveu aos ferimentos, foi internado e teve alta da unidade misericordiana no dia 21 de dezembro de 1889. Ainda segundo Euges, “outros demais pacientes que deram entrada tiveram ferimentos em outras áreas do corpo, como pernas, braços e mãos”.

Vários dos feridos foram obrigados a amputar membros e os procedimentos teriam sido feitos na Santa Casa, com profissionais locais. Segundo o Mapa dos corpos sepultados no Cemitério da Santa Casa de Misericórdia entre os dias 18 e 19 de novembro de 1889, os manifestantes mortos foram: João de Britto (40 anos); Sergio (22 anos); Martinho (29 anos) e Raimundo Araújo Costa (34 anos), todos “pardos” ou pretos. A ligação entre a Santa Casa e o Cemitério é outro fato emblemático.

O Cemitério que recebeu vários corpos vindos da Santa Casa

Devido ao pequeno espaço, em 1805, foi aberto o Cemitério Novo da Misericórdia (tema de reportagem especial de O Estado em 2018), onde atualmente funciona o Hospital Djalma Marques, o Socorrão I. Com esta nomenclatura, o local foi preparado para evitar que os corpos fossem enterrados nas igrejas e/ou nos arredores destas construções católicas.

No Cemitério, conforme cita o Regulamento do próprio local, “todas as tardes ficavam seis sepulturas abertas, com cinco palmos de fundo, para que os corpos fossem enterrados o mais rápido possível, para que não houvesse contaminação de doenças provenientes da exposição ao cadáver”.

Segundo o “Dicionário Histórico e Geográfico da Província do Maranhão”, de César Augusto Marques, em 50 anos – de 1805 a 1855 –, foram enterradas aproximadamente 41.183 pessoas, entre aristocratas e escravos, no Cemitério Novo da Misericórdia, o que causou uma superlotação no espaço. Muitos destes corpos eram encaminhados a partir de atendimentos preliminares na Santa Casa.

Com a necessidade de disponibilização de novos espaços para a ocupação dos corpos, o então presidente da Província, Olímpio Machado, comprou um terreno para a construção de um novo cemitério, na chamada Quinta do Gavião.

Segundo César Augusto Marques, este foi o primeiro cemitério construído a partir de cálculos que se basearam nas condições topográficas e na climatologia (com base na análise das condições dos ventos), para que as impurezas dos corpos fossem literalmente arrastadas pelo vento para o oceano.

Conflitos e relações com o poder público: tônicas em períodos da Santa Casa

Citado em “O Combate” em sua edição do dia 11 de setembro de 1925, o problema oriundo de falta de investimentos na Santa Casa de Misericórdia é recorrente. De acordo com o texto que abordava a relação entre políticos locais e a Câmara Federal, “o Estado devia cerca de cem contos” para a direção da unidade.

Ainda segundo o periódico, o fato por pouco não causou o fechamento das portas da unidade de saúde. A ausência de pagamento a profissionais, somado à carência em itens considerados básicos tornava o funcionamento inviável.

Em novembro de 1925, ainda no jornal “O Combate”, é relatado que o Diário Oficial tornou público que a secretaria de Fazenda liberou os valores a serem repassados à Santa Casa relativos aos serviços prestados no mês anterior.

A relação entre a Santa Casa e as administrações locais perdura até os dias atuais, com o acordo entre a direção da unidade e a Prefeitura de São Luís, que repassa valor mensal para a casa filantrópica, com a exigência de contrapartida na assistência de pacientes que são recebidos inicialmente por unidades municipais.

Ainda no final da década de 1930, a Santa Casa era agraciada com recebimentos de donativos. Ao coronel José João de Sousa, então provedor da unidade, foram entregues os seguintes donativos: cinco “sacos” de farinha fina enviados pelo então coronel Manoel Antônio da Motta, além de um conto enviado pelo Satellite Football Club, proveniente da renda arrecadada no jogo realizado dias antes entre a agremiação e o Sport Club Luzo Brasileiro.

Das doações e acertos com o poder público, a Santa Casa fora sobrevivendo.

Da segunda metade do século XX aos dias atuais: a consolidação da Santa Casa

Com a desistência da congregação religiosa que, até meados da primeira metade do século XX, fazia a gestão da Santa Casa, o Hospital – citado pela historiadora Lourdes Lacroix – passou a ser administrado por membros da família Murad. José Duailibe Murad foi importante na reconstrução do local.

Na década de 1970, ele deu prosseguimento a obras internas da unidade. Uma das principais intervenções ocorreu na fachada do hospital. A colocação dos azulejos foi uma marca de sua gestão e os revestimentos externos até hoje são vistos. Após a gestão de José Murad - assumiu o irmão Benedito Murad. Ao falecer, em 2011, assume o sobrinho, Dr. Abdon Murad.

O atual provedor, durante o período de sua gestão, requereu maiores investimentos na Santa Casa. Foram várias as oportunidades em que o provedor expôs a possibilidade de fechamento da unidade. Apesar das dificuldades, a Santa Casa conta com pavilhões de internação, centro cirúrgico (em alusão ao médico Antônio Dino, com procedimentos diários) e outros serviços.

“Apesar de todas as dificuldades, contamos com o corpo de funcionários dedicado, que sempre está pronto para assistir aos nossos pacientes da melhor forma. A Santa Casa é uma referência histórica e, sem dúvida, ser provedor dela para mim me honra como profissional da saúde e dirigente”, disse Abdon a O Estado.

Além dos leitos assistidos pela própria unidade, outros foram arrendados para o Município que, via recursos do Sistema Único de Saúde (SUS), mantém o atendimento interno. A dedicação de funcionários antigos é uma marca forte da Santa Casa.

Alusão a antigos colaboradores e participação dos atuais funcionários: a Santa Casa ajuda muita gente

Engana-se quem pensa que atualmente a Santa Casa reduziu o seu corpo de funcionários e pacientes. Com capacidade de pouco mais de 400 leitos e com demanda de até 15 cirurgias diárias (esse número chegou a ser mais do que o dobro antes da pandemia), a Santa Casa ainda é sim referência no atendimento público na capital maranhense.

A Santa Casa conta com a colaboração de funcionários que, de forma exclusiva e afastando interesses particulares, dedicam suas vidas em prol do atendimento aos pacientes. A coordenadora de Enfermagem Maria de Fátima Silva está lotada na Santa Casa há três décadas. Ela faz parte da história da unidade assistencial. “A Santa Casa é minha vida. Aqui, ascendi profissionalmente e tenho muito carinho e gratidão por este local”, disse.

Apesar dos problemas e ausência de maiores investimentos, a profissional entende que a Santa Casa ainda é fundamental na assistência à saúde maranhense. “Sem a Santa Casa, sem dúvida a saúde de todos estaria ainda pior. Temos médicos, serviços em várias especialidades que, porventura, são desconhecidos do grande público, mas que ocorrem diariamente”, afirmou Maria de Fátima.

Nos pavilhões da Santa Casa, a referência a antigos colaboradores, como Carlos Macieira (antigo assistente da Chefia do Serviço de Cirurgia) e João Braulino (também antigo chefe do Centro Cirúrgico da unidade). Ambos tiveram os nomes ligados ao setor após a iniciativa do dr. José Murad, então provedor da Casa.

Além da Santa Casa, a praça em frente à unidade é uma marca do Centro de São Luís.

A praça em frente à Santa Casa: a reforma do espaço público

As obras de revitalização da Praça da Misericórdia, em frente à Santa Casa, seguem em andamento. Os trabalhos, que oportunizam novo paisagismo, iluminação e mobiliário urbano, com a inclusão de bancos e lixeiras, além de quiosques, visam revitalizar um dos espaços marcantes do Centro da cidade.

Em frente à Santa Casa, o asfalto deu lugar a um piso de paralelepípedos, que dão originalidade à área e, ao mesmo tempo, valoriza a fachada central do local de saúde.

Por enquanto, o Município ainda não deu prazo para a entrega dos trabalhos, que seguem em ritmo intenso.

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