Cidades | Outubro Rosa

Câncer de mama é coisa de homem também

Apesar de casos serem raros, eles existem e os poucos pacientes preferem o anonimato íntegro, com receio da "reação" da sociedade
Thiago Bastos / O Estado 17/10/2020
Doença predomina entre as mulheres, mas 1% da população masculina registra esta enfermidade

São Luís - Conforme dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca), a cada 100 casos de câncer de mama em mulheres, existe um em homens. Em dados percentuais, a enfermidade atinge 1% dos registros totais. Com a estimativa de 840 novos casos da doença no Maranhão em 2020, são esperadas 8 ocorrências de câncer de mama no público masculino.

Sim, eles são poucos, mas existem. E os que tem o câncer de mama demonstram vergonha em falar sobre o assunto. O Estado tentou, por diversas semanas, conversar com pacientes homens residentes na capital maranhense e que estão enfrentando o carma da doença. Nenhum deles topou mencionar o assunto.

A postura somente explicita o pudor que este público ainda tem de tratar sobre o tema. As críticas, os costumes de uma sociedade que não admite determinados comportamentos adotados pelos homens e relacionados ao público feminino e, principalmente, a falta de abertura dos próprios pacientes em “aceitar” a doença geram este tipo de comportamento.

Mesmo com a recusa, médicos discorrem o tratamento feito por pacientes com este perfil. Ao contrário das mulheres, cujas mamas são maiores e que apresentam manifestação da doença por nódulos (caroços) fixos e indolores, no caso dos homens, estes caroços aparecem especificamente no centro ou nos arredores do chamado “bico do peito” e podem ser causados por aspectos genéticos que devem ser investigados.

Por isso, recomenda-se que homens com suspeita da doença apalpem o local e procurem o médico imediatamente. “A vergonha, neste caso, é até compreensível. Seria importante que eles falassem e se assumissem como tal. No entanto, os homens com câncer nas mamas temem alguma reação adversa da sociedade”, afirmou a mastologista Gláucia Mesquita.

Em geral, no caso dos homens, o público acima dos 60 anos está mais sujeito à doença. O tratamento é semelhante ao do público feminino, e envolve procedimento cirúrgico e tratamento quimioterápico. “É fundamental que o homem, quando possível, procure um especialista. Muitos acham que a profissional mastologista é somente para as mulheres. Estamos também disponíveis para assistir aos homens que estejam passando por este problema”, disse a mastologista.

No caso dos homens, segundo o Inca, o câncer de próstata ainda é o mais comum, seguido pelo de cólon e o de reto. Além destes, também são comuns os cânceres de estômago, de cavidade oral e da bexiga. Segundo o instituto, espera-se para o triênio 2020/2022 cerca de 65.840 novos casos de câncer de próstata neste período no país. Em contrapartida, nos próximos três anos, são estimados no território brasileiro 66.280 casos de câncer de mama envolvendo mulheres.

Sintomas
Dentre os sintomas citados para o câncer de mama, estão a inclusão de um nódulo (caroço) fixo e considerado indolor. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o fato é a principal manifestação da doença, estando presente em 90% dos casos quando o câncer é percebido em homens e mulheres.

Além disso, a pele da mama apresenta um aspecto avermelhado, com aparência semelhante à de uma “casca de laranja”. Em casos mais graves, ainda de acordo com especialistas, são perceptíveis “pequenos nódulos” nas axilas ou no pescoço e saída considerada “espontânea” de líquido anormal pelos mamilos.

RECONSTRUÇÃO

8 a cada 10 mulheres têm as mamas reconstruídas

Se por um lado, no caso dos homens, o tratamento é voltado para a retirada de possíveis nódulos, no caso das mulheres atingidas com o câncer de mama, além do tratamento cirúrgico, há o aspecto estético de reinserção da mama retirada. Dados do Hospital Aldenora Bello, ligado à Fundação Antônio Dino – referência no tratamento oncológico no Maranhão - apontam que 8 a cada 10 mulheres assistidas no local saem com próteses mamárias.

Nos demais casos, segundo a direção da unidade, não há necessidade de próteses. O procedimento surge como uma espécie de “prêmio” à mulher que, em geral, sofre com o tratamento de alta exigência física e psicológica.

As mulheres que ainda estão nesta caminhada contam suas experiências de vida. A dona-de-casa Eliene de Sousa Bezerra, de 53 anos, descobriu em março deste ano – pouco antes do início da pandemia do coronavírus – que estava com o nódulo em uma das mamas.

Semanas mais tarde, a mulher iniciou o tratamento à base de forte tratamento quimioterápico. “É extremamente desgaste e é preciso muita força de vontade”, disse.

A cirurgia está marcada para o início do ano que vem, mediante recomendação médica. Até lá, a dona-de-casa aposta na fé em Deus. “Somente muito apego religioso para nos tirar de uma doença tão grave”, destacou.

Maria Eliete Sousa Lima e a irmã Eliene de Sousa Bezerra

Comum após os 40

De acordo com os médicos, é comum o câncer de mama - em especial - após os 40 anos de idade nas mulheres. A dona de casa Eliene de Sousa Bezerra, preocupada com o seu bem-estar familiar, sugeriu à irmã, Maria Eliete Sousa Lima, de 50 anos, para fazer o exame de mamografia. “Como estou passando por isso, não quero que minha irmã passe pelo mesmo”, afirmou.

A irmã - ciente da necessidade de se prevenir - percorreu 393 quilômetros que separam a cidade de São Domingos do Maranhão da capital São Luís. A mamografia, por sorte, não registrou qualquer anormalidade. “Faço o autoexame em casa e também costumo vir à capital pelo menos uma vez ao ano”, afirmou.

O exame de mamografia dura apenas alguns minutos e deve ser feito por especialistas. Na rede pública, por exemplo, o Hospital da Mulher - unidade ligada à administração municipal localizada na Avenida dos Portugueses (no Anjo da Guarda) - oferece (após ser de abril a agosto deste ano local de referência para atendimento específico dos casos de coronavírus) procedimentos de mamografia. A marcação é feita na própria unidade.

Apesar da referência, ainda são poucos os locais públicos e com serviço gratuito em que é possível fazer o procedimento. A maioria dos casos na capital e no interior é encaminhada ao Hospital Aldenora Bello, mantido de forma filantrópica (com a ajuda de doações) e que recebe de maneira menos periódica do que deveria auxílio de abnegados e verbas fruto de emendas parlamentares.

Recentemente, diante da possibilidade de fechamento da unidade, o Governo do Maranhão admitiu a assistência financeira ao hospital. E diante do dilema de ter que fazer a mamografia no lugar do autoexame, as mulheres e homens em sua maioria enfrentam dificuldades para acesso ao serviço.

SAIBA MAIS
Sobre o Aldenora

Com uma área de 8.145,19m², com 4444,50 m² de área construída, atualmente o Hospital do Câncer Aldenora Bello – localizado na Avenida Getúlio Vargas, no Monte Castelo (em São Luís) - tem 175 leitos de internação, divididos em enfermarias clínica, cirúrgica, pediatria, UTI e apartamentos. O Hospital conta com um serviço de radioterapia e braquiterapia.

Em 1996, o hospital foi renomeado Instituto Maranhense de Oncologia Aldenora Bello (Imoab). Segundo a diretoria, a mudança serviu para a readequação no foco de atuação da unidade, “facilitando a comunicação das atividades com entidades nacionais e internacionais”. Em 2014, como forma de renovação e simplificação do nome, o nome oficial do hospital mudou novamente para Hospital do Câncer Aldenora Bello.

Por ano, são realizadas no Aldenora Bello mais de 56.756 consultas, 896 cirurgias, 30.141 quimioterapias e 6.025 radioterapias.

TIRA-DÚVIDAS (com base em informações do Inca e Ministério da Saúde)

Qual a importância do autoexame?

Fundamental, no entanto, já fora mais. O mais importante é a mulher entender que aquele nódulo foi pequeno, no entanto, não quer dizer que não seja maléfico. Os diagnósticos somente são feitos com exatidão pelo procedimento de imagem.

Assim que é constatada a doença, quais são as etapas seguintes?

Primeiro, entender a gravidade do nódulo. Quando é encontrado, é preciso entender que existem de vários tipos. Alguns são benignos, outros não. A maioria dos nódulos não traz malefícios. E quando trazem, é preciso tratamento.

A checagem do câncer de mama é recomendada quando?

O ideal é quanto mais cedo, melhor. No entanto, a ida ao médico é recomendável para mulheres acima dos 40 anos de idade e de homens acima dos 60 anos. Neste caso, é preciso ainda seguir medidas para evitar a doença, como controle de peso corporal, estímulo à atividade física e evitar o consumo de álcool e cigarro.

SINTOMAS do Câncer de Mama

  • Nódulo (caroço), fixo e geralmente indolor
  • Pele da mama avermelhada, retraída ou parecida com casca de laranja
  • Alterações no bico do peito (mamilo)
  • Pequenos nódulos nas axilas ou no pescoço
  • Saída espontânea de líquido anormal pelos mamilos
Fonte: Instituto Nacional de Câncer (Inca)

Mais sobre a doença

O câncer de mama é uma doença causada pela multiplicação desordenada de células da mama. Esse processo gera células anormais que se multiplicam, formando um tumor.

Há vários tipos de câncer de mama. Por isso, a doença pode evoluir de diferentes formas. Alguns tipos têm desenvolvimento rápido, enquanto outros crescem mais lentamente.

Fonte: Instituto Nacional de Câncer (Inca)


NÚMEROS

1% é o total de casos de câncer de mama envolvendo homens
56.756 consultas são realizadas por ano no Aldenora Bello
Em 90% dos casos de câncer de mama, há o aparecimento do chamado “nódulo”

Fonte: Inca e Aldenora Bello

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