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São Luís está há três meses com praias impróprias para banho

Dez análises já foram realizadas desde o retorno das atividades suspensas na pandemia e todas as faixas coletadas da Grande Ilha apresentaram irregularidades; especialistas alertam para riscos de doenças
Bárbara Lauria / O Estado15/10/2020
São Luís está há três meses com praias impróprias para banhoApesar das placas informando a balneabilidade imprópria, banhistas persistem (De Jesus / O ESTADO)

São Luís –

A avaliação semanal de balneabilidade das praias mostrou que as 22 faixas analisadas da Grande Ilha estão há três meses impróprias para banho. O estudo, que é realizado pela Secretária do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Sema), havia sido suspenso temporariamente em março devido a pandemia da Covid-19. Contudo, no dia 7 de agosto as avaliações retornaram e apresentaram a balneabilidade dos locais. Até o momento já foram realizadas dez consultas entre agosto e outubro.

Uma praia é considerada imprópria para banho quando são identificadas densidades superiores a 100 unidades de colônias desta bactéria para cada 100 mililitros de água (100 UFC/100 ml) em duas ou mais amostras dentro de um conjunto de cinco semanas. Ou ainda valor superior a 400 unidades desta colônia na última amostragem. A presença da quantidade destes organismos além do limite estabelecido é motivada por uma série de fatores.

A Sema informou a O Estado, por meio de nota, que vem realizando, ações para caracterização de novas placas de sinalização, coletas de dados e amostras em ponto de lançamento de efluentes, além de ações de educação ambiental nas praias, que visam conscientizar ambulantes, donos de bares e banhistas, quanto à poluição da orla.

Também foi ressaltado que a Secretaria realiza monitoramento periódico dos rios de São Luís e envia os dados coletados à Companhia de Saneamento Ambiental do Maranhão (Caema) para apurar as causas dos despejos irregulares de esgoto e tomar as providências cabíveis. Assim como a BRK Ambiental nos municípios de São José de Ribamar e Paço do Lumiar. Uma das principais causas da poluição dos mares é a presença de esgotos, chuvas e desaguamento de rios.

Foram avaliados 22 pontos nas praias da Ponta d’Areia, Ponta do Farol, São Marcos, Calhau, Olho d’Água, Meio, Araçagi, Olho de Porco e Mangue Seco. A maior quantidade de dejetos lançados na praia provém de prédios erguidos próximo à orla marítima.

Na Praia da Ponta d’Areia estão impróprios os trechos em frente ao Condomínio Jardins de Bordaux e à Praça de Apoio ao Banhista, bem como ao lado do Espigão. Na Praia de São Marcos, os banhistas não podem tomar banho de mar nos trechos em frente aos bares do Chefe e Desfrute, ao Grupamento Batalhão do Mar, ao Heliporto e no perímetro da banda de jornal, conforme a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos.

No Calhau, os trechos proibidos são em frente à Elevatória da Caema, à Pousada Vela Mar e à direita da Pousada Suíça. No Olho d’Água, foram coletadas amostras em frente à descida da Rua São Geraldo, à direita da Elevatória Iemanjá e em frente à casa com pirâmides no teto, antes da falésia. Enquanto a Praia do Meio e os trechos poluídos são em frente ao Kactus Bar e ao Bar do Capiau 2. Já na Praia do Araçagi, estão impróprios os trechos em frente à descida principal da praia e ao Bar da Atalaia. Na Praia Olho de Porco, as amostras são dos trechos em frente ao Bar Rainha e em frente ao Las Vegas Bar. Por fim, no Mangue Seco, é imprópria para banho a faixa da última Barraca antes do Mangue e entre a Barraca da Val e Barraca do Sr. Pedro.

Riscos de contaminação

De acordo com especialistas, um dos principais riscos das praias improprias para banho é a propagação de doenças em banhistas e, até mesmo, naqueles que ficam na areia. Os riscos podem ir de dermatites a infecções nos olhos, ouvidos, nariz e até doenças mais graves como Hepatite A.

Rosana Castelo Branco, médica da família, explica que as dermatites podem ser causadas tanto pelo contato quanto por micro-organismo, como bactérias. “Ao contrário do que pensam, as dermatites podem acontecer com qualquer um, e não só com quem tem feridas abertas. O contato da pele com esses coliformes fecais pode gerar irritação, vermelhidão e até mesmo feridas. Em caso de pessoas que já estão com feridas abertas, o contato com a água contaminada pode, inclusive, gerar infecções e queimadura”, explicou a médica.

Já a Hepatite A, doença infecciosa aguda causada pelo vírus VHA, é transmitida via oral-fecal e é comumente passada quando o banhista ingere a água do mar. De acordo com Rosana Castelo, as crianças são os principais afetados por essa doença. “Crianças costumam ser mais propensas a essas doenças pois, além da fragilidade da imunidade, elas costumam ingerir água quando nadam e brincar na areia”, destacou.

A médica também lembrou dos riscos de propagação de doenças pela areia da praia. “Muitas vezes, devido a animais que passam pela areia da praia, há o risco de outras doenças como o Bicho Geográfico, que é transmitido pelas fezes do cachorro”, explicou. Bicho Geográfico é uma doença causada por um parasita que se hospeda na pele de seres humanos, causando irritação e muita coceira.

Para evitar a contaminação, a médica enfatiza a importância de evitar banhos em locais impróprios: “O ideal é que seja evitado o banho em praias improprias, mas caso ele ocorra, é importante que logo após a pessoa tome banho com água e sabão e evite o contato com olhos, bocas e nariz”.

SAIBA MAIS

Mudanças na avaliação

Conforme foi apresentado por O Estado em agosto deste ano, cientistas defendem que ocorram mudanças na avaliação da balneabilidade das praias. De acordo com especialistas, o estudo precisa ser contextualizado, levando-se em consideração fatores como características da maré, frequência de banhistas, densidade de ocupação, entre outros, para que o cidadão seja melhor orientado.

O cientista ambiental Márcio Vaz explicou a O Estado que “O índice indireto, por si só, que é o empregado pelas autoridades maranhenses, apenas serve para orientar grupos de risco. O ideal é fazer uma análise baseada no modelo conceitual, ou seja, buscar entender a dinâmica do sistema. Pelo atual modelo empregado, teríamos praias poluídas aos domingos, mas não necessariamente durante a semana”.

O cientista também ressaltou a necessidade de levar em consideração as questões sanitárias da Grande Ilha. Conforme um estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgado há três anos, o Maranhão tem a menor percentagem do país de municípios com esgotamento sanitário por rede de coleta de esgoto, dados que integram a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico.

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