Cidades | Cultura asiática

Manifestações culturais chinesas e japonesas no Brasil

Festivais, gincanas, religião e cultura pop são algumas das tradições do sudeste asiático que hoje fazem parte da cultura brasileira
Bárbara Lauria / O Estado29/08/2020 às 00h01
Atividade com famílias, na Associação Nipo-Brasileira no Maranhão, na década de 1990

São Luís - Apesar dos milhares de quilômetros de distância, clima e cultura diferentes, as famílias asiáticas que atravessaram oceanos, em busca de melhores oportunidades, encontraram formas de manifestar suas culturas e passar um pouco delas para a população brasileira. Festas, gincanas e até mesmo artes, como origami, foram algumas das tradições chinesas e japonesas que esses povos trouxeram para o Maranhão e vão muito além do estereótipo criado no ocidente.

Como muitos estrangeiros passaram por algumas dificuldades na adaptação em novas terras, principalmente pela grande diferença na língua e na cultura, tanto japoneses quanto chineses formaram comunidades pelo país, para que, além de tornar o processo de adaptação menos difícil e solitário, pudesse ser realizada uma troca de culturas e manifestações de tradições, mesmo longe de casa.

No Maranhão, não foi diferente. Com a vinda de tantos estrangeiros do sudeste asiático, principalmente durante e após a segunda guerra mundial, a comunidade japonesa inaugurou a Associação Nipo-Brasileira Maranhense, que, atualmente, é reconhecida pelo consulado japonês no Brasil.

Associação Nipo-brasileira
Criada na década de 1980, após a vinda de Kiyoshi Yamada para o Maranhão, a organização começou como uma sociedade de famílias japonesas que moravam no estado, para se apoiar no processo de adaptação. Contudo, Yamada conta que com um tempo ele passou a sentir a necessidade de tornar o grupo mais aberto a população brasileira, já que alguns da comunidade estavam criando famílias e vínculos com os brasileiros.

“Éramos uma espécie de sociedade muito fechada e eu não me sentia bem, pois minha esposa é brasileira. Então, acreditava que deveríamos fazer algo mais aberto, pois o objetivo não era só amizade entre japoneses, mas também apresentar nossa cultura e fazer intercâmbio”, contou.

E foi com esse pensamento que, em 1987, foi fundada a Associação Nipo-Brasileira do Maranhão (Anibrama), na qual atividades, como aulas de japonês e lutas marciais, são oferecidas para brasileiros. Além dessa troca de culturas e aulas, que acontecem até hoje, a associação promove outras manifestações culturais japonesas típicas.

Tradições japonesas

Shōrinji Kempō

Uma das famosas artes marciais japonesas, a luta foi criada em 1949 por Dōshin Sō e tem como objetivo equilíbrio, coordenação e condicionamento físico. A arte marcial japonesa, desenvolvida ao mesmo tempo que a meditação Zazen (base do zen-budismo). Suas três principais características são:

Recursos de autodefesa;

Treinamento mental (espírito);

Melhoria da condição física (corpo).

Undoukai

O Undokai é uma espécie de gincana poliesportiva que acontecesse culturalmente com o intuito de promover o trabalho em equipe. Organizado por comunidades locais, as atividades de um undoukai são prioritariamente direcionadas às crianças, que não comparecem ao evento para testar seus limites, mas para brincar e interagir não apenas com outras crianças da mesma idade, como também com suas próprias famílias e com toda a comunidade. O senso de grupo e de comunidade é fundamental para a própria existência e realização de um undoukai.

Normalmente os Undokais são realizados em escolas, pois as escolas funcionam como bases da vida comunitária e pelo aspecto prático de possuírem espaço aberto para que eventos do tipo possam ser realizados. No Brasil, undoukais são realizados em clubes ou por associações de japoneses e seus descendentes. No maranhão, eles comumente organizados pela Anibrama.

Tsuru de Origami, arte tradicional japonesa de dobradura em papel

Origami

O Origami, ou dobradura de papel, como diz seu significado, é a arte tradicional japonesa de dobrar papel, criando representações de determinados seres, objetos e personagens com dobras geométricas de uma peça de papel, sem cortá-la ou colá-la.

Muito trabalhado no Japão e Brasil, a arte desenvolve coordenação motora e a filosofia de que, se quiser um resultado bom, tem que trabalhar com capricho desde o começo.

Festival Bon Odori

O festival Bon Odori faz parte de uma das artes populares japonesas e conta uma história de cerca de 600 anos. A sua origem é um evento budista chamado Urabon'e (Festival dos Fantasmas). Acredita-se que os espíritos dos antepassados voltam durante o Obon, e dança-se de modo a prestar uma cerimônia fúnebre. De acordo com a lenda, dançando ao lado da imagem das pessoas falecidas, cai-se na ilusão de se estar a dançar com os próprios espíritos, e em algumas regiões chega-se a dançar usando vários tipos de máscaras.

“Dançamos em volta das pessoas tocando o tambor (TAIKO). Cantando, cada região tem seu canto. Oferecem comida típica. É muito divertido”, conta Keiko Murakamim que participa do festival que acontece, tanto no clube japonês de São Luís, como em São Paulo.

O Bon Odori simboliza a boa colheita e uma homenagem aos antepassados, por meio de danças tradicionais e folclóricas (chamadas de Bon Odori) que variam de região para região. A gastronomia tem destaque na festa, com pratos típicos da culinária nipônica servidos na praça de alimentação e distribuição de moti (bolinho de arroz japonês) - que, segundo a tradição, traz sorte o ano todo para quem o consome.

Ano novo chinês

Na China, o Ano Novo é comemorado segundo o calendário lunar. Esse período é um dos mais importantes para a sociedade chinesa, pois eles fazem uma pausa no trabalho para festejar com a família. A tradição foi sendo moldada através de lendas, histórias e hábitos, e costuma ser iniciado semanas antes com o objetivo de limpar seus lares para afastar os maus espíritos.

No 23º dia do último mês lunar, é oferecido comida ao Deus da Cozinha, que segundo a tradição, é o responsável pela prosperidade familiar. Também é costume colar nas portas e janelas das casas papéis vermelhos com dizeres de bom agouro em dourado, os Tao Fu, para atrair bons fluídos e proteger quem mora ali.

O vermelho e o dourado são as cores oficiais da data, segundo os chineses, elas são responsáveis por trazer boa sorte àqueles que as usam, principalmente em roupas novas. Assim como na comemoração ocidental do Ano Novo, os chineses consumam reunir-se em família e produzirem uma mesa farta na noite da véspera do Ano Novo Chinês.

Budismo

O Budismo é religião e também filosofia de vida, e tem como sustentação as mensagens legadas por Siddhartha Gautama. O Buda retratado pela História, que existiu entre 563 e 483 a.C. no Nepal, e não desejava converter ninguém, mas sim iluminar as pessoas com seus ensinamentos, frutos de sua própria experiência. Nesta religião conhecimento, sabedoria e intelecto têm um grande destaque e seus seguidores adquirem, com a prática, a tão sonhada paz interior.

O Budismo possui algumas vertentes como o Zen-budismo, praticado principalmente na China e no Japão, em que há ideia de que a iluminação não é um objetivo a ser alcançado após longos anos de esforço e de prática meditativo, pois já se é iluminado, ainda que não se saiba disso, e prática e iluminação não podem ser separadas uma da outra.

Outra vertente é o budismo de Nitiren Daishonin, que surgiu na Índia após a morte de Sakyamuni, por meio de um movimento de popularização dos ensinos do Buda e fundamenta-se na afirmação de que todas as pessoas têm o potencial de atingir a iluminação. No Maranhão, foi inaugurada uma sede do centro budista em agosto de 1998, com a ajuda de Takao Nishiwaki.

Reconhecimento da cultura chinesa e japonesa no Brasil

Márcio Rodrigues, historiado e pesquisador em cultura, conta que, infelizmente, ainda há muito desprezo e fascínio pela cultura do sudeste asiático. “Fascínio no sentido de que temos por aqui elementos culturais na gastronomia...eu particularmente sou de fora do Estado e moro aqui há 6 anos. Quando cheguei aqui percebi uma quantidade enorme de restaurantes japoneses, comparado com o de outros locais. Então, como aqui se come muito peixe acabou tendo uma sintonia em um setor mais da classe média”, explica o pesquisador, que também ressaltou que o desprezo está relacionado aos estereótipos.

Márcio, que estuda a recepção cultural de mangás, também lembrou que há um grande consumo da cultura pop japonesa e chinesa, que já até faz parte do cotidiano brasileiro, porém um imenso desconhecimento em relação a cultura tradicional desses povos. “Encontramos mangás em bancas de jornais, assistimos animes e já conhecemos inúmeros deles na nossa memória afetiva. Contudo, por outro lado, ainda há o desconhecimento das culturas tradicionais”, explicou.

SAIBA MAIS

Dicas para ler e assistir

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Anime

Dàyú Hǎitáng, ou O Peixe Grande & Begônia, é um anime chinês lançado em 2016 e disponível na Netflix. O filme foi escrito, produzido e dirigido por Liang Xuan e Zhang Chun e conta a história de Chung, um espirito que vive em uma aldeia em que os habitantes controlam as estações e marés do mundo humano. Ao passar sete dias viajando pelo mundo dos humanos, Chung precisa salvar um jovem que sofreu acidente nos mares

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Mangá

Akira é um mangá (história em quadrinhos) japonês lançado em 1988, no estilo cyberpunk. A história desenrola-se em Neo-Tóquio, uma cidade de Tóquio reconstruída (sobre o que é hoje a Baía de Tóquio) depois de ter sido destruída na III Guerra Mundial, (supostamente) iniciada pelo crescimento incontrolável de poderes sobrenaturais de uma criança chamada Akira, que foi registrado num programa governamental secreto de pesquisa. No tempo real do enredo, 30 anos depois da III Guerra Mundial, uma gangue de motoqueiros liderada por Kaneda é envolvida em uma luta com a gangue rival, quando o membro mais novo da gangue de Kaneda, Tetsuo, colide numa auto-estrada com uma criança misteriosa que havia escapado do programa de investigação psíquica secreta do governo. Tetsuo é depois levado pelos responsáveis deste programa governamental juntamente com a criança e é sujeito às mais diversas experiências. O mangá é publicado no Brasil pela Editora JBC e foi premiado no 30º Troféu HQ Mix na categoria Publicação de Clássico

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