Coluna do Sarney

Boa Esperança

José Sarney

- Atualizada em 11/10/2022 às 12h21

Ninguém pode avaliar a guerra necessária para o administrador fazer uma grande obra, com a complexidade e as dificuldades de coordenação, desde o projeto até à construção e à finalização da obra.

Quando assumi o governo do Maranhão, em 1966, o Maranhão estava às escuras. Não havia energia nem em São Luís nem em nenhum lugar do Estado inteiro. Um capitão do Exército, chamado César Cals, sonhava com a construção de uma Hidroelétrica no Rio Parnaíba, em Boa Esperança, onde o rio era mais estreito. Veio 1964 e o sonho morreu. Então, eu e um grupo de deputados do Piauí, entre eles o mais aguerrido, Milton Brandão, apoiamos o Cals e resolvemos ir à frente com a ideia. O Maranhão era contra, queria fazer uma pequena usina perto das nascentes do Itapecuru, inviável por problemas ambientais, de 18 MW, uma PCH, como se chama. Com minhas relações com o presidente Castelo Branco fui a ele e mostrei que, como nordestino, podia fazer a primeira hidroelétrica da Região, beneficiando dois estados que ele bem conhecia, Maranhão e Piauí, que viviam de energia de pequenos motores a óleo ou a lenha (como era a Ullen de São Luís). Todo o Maranhão consumia o equivalente ao consumo do edifício Avenida Central, no Rio de Janeiro. Ele sensibilizou-se e mandou irmos ao ministro de Minas e Energia, dr. Mauro Thibau.

Fui a ele com o César Cals e o Milton Brandão. Ele foi radical. Iniciou dizendo: “Isso é uma total irresponsabilidade, fazer um castelo no deserto. Maranhão e Piauí juntos não tem demanda para uma usina dessas.” Saímos de cabeça baixa. Eu voltei ao presidente Castelo e relatei a resposta do ministro, fazendo um destaque para sensibilizar o presidente. “Presidente, ele disse que seria um ‘Castelo’ no deserto”. O presidente tomou como uma ironia e respondeu-me: “Pois dr. Sarney, volte ao Thibau, vou falar com ele e vamos ver esse castelo no deserto.” Senti que matava a cobra. Convidei os que tinham ido comigo da primeira vez e voltamos ao Ministério. O Thibau nos recebeu como uma seda e foi logo dizendo: “O presidente falou-me e vamos tocar o assunto.”

A obra avançou a toda velocidade. Para melhorar logo a situação do Maranhão, convidei o César Cals para presidente da Cemar. Iniciamos a construção das linhas de transmissão no Estado antes da obra existir. Em breve, a convite do presidente, eu assistia em sua companhia ao desvio do Rio Parnaíba. Mudamos a cidade de Nova Iorque, que ia ser inundada, para a margem da rodovia, com alguns protestos. Mas antes de deixar o governo liguei São Luís e outras cidades do nosso Estado com a energia de Boa Esperança. O Maranhão viu entre as palmeiras de babaçu as linhas de transmissão levadas pelas torres.

Deus deu-me a ventura de como presidente da República terminar a construção de Tucuruí e ligar a usina a São Luís por dois grandes linhões de 600 MW. Também conectei, em Presidente Dutra, os Sistemas da Chesf e de Tucuruí, levando assim energia do Rio São Francisco à capital.

Graças à abundância de energia foi possível trazer a Alcoa e outras indústrias para cá.

Temos hoje a melhor estrutura de energia do Nordeste. Encontrei o Estado no escuro, deixei o Estado iluminado. Hoje ele é exportador de energia com o gás, que foi descoberto no poço pioneiro e exploratório mandado fazer por mim quando presidente.

A saga da energia que começou em Boa Esperança é um trunfo do Maranhão para hoje e para um grande futuro.

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