Cidades | Magia secular

Da "monstruosidade" à irreverência: a tradição secular genuína do fofão

Figuras, cujo nascedouro remete a outros personagens momescos do Brasil e do mundo, ainda estão presentes na capital maranhense, com suas características únicas e seu toque de "terror" na festa profana
Thiago Bastos / O Estado15/02/2020
O tradicional fofão, traz o colorido e a irreverência ao Carnaval de rua

Alguns o definem como um “grande palhaço alegre”. Outros, como um monstro que traz um toque de terror à festa profana. Seja qual for a melhor interpretação, a tradição dos fofões na Ilha é única e repleta de características somente observadas nesta região do país.

Por questões diversas (perda de identidade, metamorfose cultural, características sociais e outros quesitos), o costume de se vestir com a marcante roupa feita de chita, com vários bordados coloridos e de usar uma máscara “das mais horrorosas” foi se perdendo. No entanto, exemplos não faltam de pessoas que tentam resgatar a “brincadeira”, que ainda sobrevive no Carnaval de rua de São Luís.

A aparição dos primeiros fofões remonta alguns séculos. Mas vestígios da passagem dos personagens na festa maranhense somente são vistos com maior força a partir da primeira metade do século XX. A tradição nasce e se desenvolve a partir do costume das camadas mais populares. Era comum ver, nas décadas de 1930, por exemplo, a passagem de fofões em bairros conhecidos da cidade.

A partir da segunda metade do mesmo século, grandes bailes da cidade - normalmente restritos aos mais abnegados - registravam a presença de pessoas fantasiadas com fofões. Exemplar do Jornal do Maranhão: Semanário de Orientação Católica de 1965 apontou que, na folia, o antigo Casino Maranhense apresentou a “festa do fofão”.

À época, de acordo com o periódico, participaram nomes como o Sr. César Aboud, além do tenente Antônio Reis e nomes como Próspero Cunha e Pires de Sabóia. Também estavam presentes o “jovem e dinâmico diretor” do Casino, Simão Félix. Além de Mattos Bezerra e Edwardo Macêdo, da antiga Sudene. Estiveram ainda Gerd Pflugger, Benito Neiva e outros nomes conhecidos da sociedade à época.

No entanto, de acordo com o pesquisador e autor de vários livros, dentre eles, “Ajuntamento de Memórias”, Euclides Moreira Neto enfatiza que o costume de se reunir, no período de Carnaval, em bailes ou em festas reservadas era comum em todas as camadas sociais. “Em alguns destes locais, havia o costume de ir justamente para se esconder e muitas pessoas costumavam ir atrás de parceiros ou parceiras, obedecendo a uma característica da festa”, enfatizou.

Antes do surgimento de figuras emblemáticas, como os fofões e outros personagens, a popularização se deu a partir da disseminação do uso das máscaras, ao longo do tempo.

Em Veneza, as máscaras eram acessórios mágicos

A tradição do uso de máscaras em festas momescas: o “começo” dos fofões
Desde os tempos antigos, é possível encontrar relação entre a figura dos fofões e a tradição de uso de adereços e incorporação de personagens à folia. Em populações, por exemplo, ligadas aos costumes tribais, as máscaras eram usadas em rituais religiosos.

No Egito, populações usavam máscaras em funerais, como as dos faraós. A sociedade da época acreditava que a função do acessório estava relacionada a um poder mágico. No Oriente, a máscara se iniciou como um acessório de festa, em danças e procissões, com a intenção de misturar o ritual e o divertimento. Na Grécia e na Roma antiga, era utilizada para caracterizar os personagens nos teatros.

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O objetivo destas populações era representar, com o auxílio das máscaras, deuses e espíritos. Outro intuito da máscara era simbolizar virilidade e “dar força” a quem acreditava-se estar sob o poder de uma força sobrenatural durante uma batalha.
A partir dos séculos XI e XII, as máscaras passam a ganhar outra utilidade e o adereço é usado no costume teatral, relacionado a personagens (deuses em geral) incorporados no enredo de uma narrativa a ser contada para o público em geral. De acordo com a historiografia oficial, as máscaras mantiveram uma relação mais direta com festas somente no século XV, mais especificamente na Itália.

Em paralelo, a máscara se tornou um acessório usado em procissões religiosas e a meta era “deixar o evento” com um viés sátiro, pautado na diversão. No território italiano, o acessório era usado em bailes e desfiles de fantasia. Ao longo do tempo, a máscara se tornou um objeto de caracterização clara do carnaval.

As máscaras da cidade de Veneza, aliás, são outras representações do estilo de vestimentas de nobres que viveram na cidade nos séculos XVII e XVIII. Este vestuário específico está incorporado à Commedia Dell´Arte, cujas representações teatrais são trazidas para o carnaval famoso veneziano todos os anos.

Foi a partir da Dell´Arte que personagens representados em festas carnavalescas passaram a surgir com mais ênfase, como pierrôs, colombinas e arlequins. A partir destes, séculos mais tarde, outras figuras brotaram a partir dos contextos sociais de cada localidade, como ocorreu com os fofões.

Ainda em Veneza, em períodos de festa, é comum ver várias pessoas fantasiadas, com uma programação intensa em cada esquina. A partir dos séculos XIV e XV, com a política lusa de colonização em várias partes do mundo, o costume de usar máscaras em festas penetrou em outras sociedades.

No Brasil, a partir dos séculos XVIII e XIX, esse costume ficou mais evidente, dando liberdade para o surgimento de manifestações do tipo “fofões”. Um movimento que surge especialmente para preservar o anonimato de quem simplesmente queria brincar na folia, sem ser criticado.

Definição do fofão

Trata-se de um “grande palhaço”, para alguns, e que usa uma máscara com caretas engraçadas, e que veste um macacão colorido feito de chita, tipo de tecido simples geralmente ornamento com estampas marcantes. A roupa, neste caso, traz guizos na ponta e o fofão tradicional carrega a boneca e a varinha, para assustar e, ao mesmo tempo, divertir por quem passar por ele.

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