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Empresa de disparos de WhatsApp trabalhou para Haddad

Ex-funcionário da Yacows declarou, dentre outras coisas, que empresa "tinha uma forte relação com o PT"
Gilberto Léda, com Agência Senado12/02/2020 às 07h25
Empresa de disparos de WhatsApp trabalhou para HaddadAgência Senado

A comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI) das Fake News ouviu na terça-feira (11) explicação sobre o funcionamento cotidiano de uma operação coordenada de marketing virtual. Segundo o relato do depoente, Hans River do Nascimento, ex-funcionário da Yacows, a prática inclui o uso não autorizado de dados pessoais.

River declarou, dentre outras coisas, que trabalhou para a campanha de Fernando Haddad (PT) a presidente, em 2018. Em outro momento, ele disse que “tinha uma forte relação com o PT”.

O ex-funcionário da Yacows declarou, ainda, que, no tempo em que trabalhou na empresa de marketing digital, não houve ação “para denegrir a imagem de ninguém”.

“O tempo todo em que eu estive na empresa, não teve disparo para denegrir a imagem de ninguém. Nem do pai desse moço aqui [Eduardo Bolsonaro], nem do PT. Não tinha coisa ofensiva.”

“Todos os partidos contrataram a Yacows para fazer propaganda, mas o PT cismou com o pai dele e comigo”, comentou.

A Yacows é uma das empresas acusadas de operar disparos em massa em favor de campanhas políticas durante as eleições de 2018. River trabalhou na empresa durante aquele ano e depois iniciou um processo trabalhista contra ela, reivindicando o pagamento de salários e horas extras.

Segundo explicou, ele foi contratado pela Yacows para fazer marketing comercial através do WhatsApp, mas logo de início os representantes da empresa orientavam os funcionários a trabalharem, também, com material político. Vários candidatos e partidos usavam os serviços, inclusive fora do período eleitoral.

De acordo com River, para enviar as mensagens em massa a empresa mantinha um cadastro de nomes e CPFs que usava para registrar chips de celular. Ele afirmou não saber como esses dados eram obtidos, mas disse acreditar que os indivíduos listados não haviam concedido autorização para esse uso.

Os chips, após serem testados, eram instalados em celulares e sincronizados a contas de WhatsApp criadas para enviar mensagens de propaganda. Cada CPF pode cadastrar mais de um chip, dependendo da operadora, o que multiplica o tamanho do cadastro.

Os funcionários da empresa então recebiam dos seus supervisores o material a ser enviado em massa através das novas contas de WhatsApp. Nos casos dos conteúdos políticos, as mensagens consistiam apenas em versões digitais dos “santinhos” dos candidatos, com nome e número de campanha, segundo River. Cada operador comandava uma estação com computador e cerca de cinco celulares, e trabalhava por oito horas diárias.

Os problemas trabalhistas do ex-funcionário têm relação com atraso em pagamentos. Segundo o depoente, os operadores eram incentivados a trabalhar além do horário padrão, e alguns chegavam a dormir nas dependências da empresa.

— Todo mundo estava iludido com o desejo de ter um salário alto. Combinavam com todos os funcionários de fazer hora extra pagando o dobro. Era conveniente — afirmou.

River não soube precisar o número de funcionários na empresa, mas explicou que havia três equipes que se revezavam em turnos, e que o grupo do seu turno — o da madrugada — continha cerca de 500 pessoas. O depoente também disse não saber a origem dos celulares e chips usados nas atividades da empresa.

Ele citou duas pessoas que se identificavam como responsáveis pela Yacows: Lindolfo Antônio Alves Neto e Flávia Alves. A CPI Mista das Fake News já havia aprovado a convocação desses dois nomes, mas o depoimento ainda não foi agendado.

Processo

Hans River contou que seu processo trabalhista foi resolvido em um acordo proposto pela Yacows. No dia da lavra do acordo, segudo o ex-funcionário, estavam presentes advogados de outras empresas de marketing digital, algumas das quais já estão no radar da CPMI, como AM4 e Kiplix. Perguntado se haveria relação entre as empresas, River não soube explicar.

O depoente se mostrou incomodado com a repercussão do seu processo na imprensa. Ele disse que a publicação do seu nome relacionado às atividades da Yacows tem dificultado que ele consiga outros empregos.

River negou ter disponibilizado informações sobre o processo para jornais, e citou a repórter Patricia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, autora de uma matéria sobre o caso. Segundo River, ela obteve documentos e fotos anexados ao processo por conta própria.

— Não encaminhei nada para a jornalista, ela conseguiu o processo na Justiça. A matéria saiu dizendo que eu entreguei [documentos] para ela, mas não entreguei. O interesse das empresas que fecharam o acordo era que eu não comentasse mais nada — justificou.

Pouco depois dessas declarações, a jornalista publicou nas redes sociais contestando o depoimento de River e antecipando que tornaria públicos os contatos entre eles. As informações não foram disponibilizadas até o fechamento deste texto.

Conflitos

Em um trecho de seu depoimento, Hans River afirmou que a Yacows possuía uma “forte ligação” com o PT, e que a empresa teria recebido uma soma de dinheiro logo após a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em abril de 2018, para intensificar o envio de mensagens em favor do partido.

O deputado Rui Falcão (PT-SP), autor do requerimento de convocação de River, classificou a declaração como inverídica e disse que o partido não tinha contrato com a empresa. Ele também acusou River de “tergiversar” e de agir para “acobertar” as práticas criminosas da Yacows que ele inicialmente denunciou.

O senador Humberto Costa (PT-PE) afirmou enxergar uma contradição no depoimento de River: no seu processo trabalhista, a data de admissão na Yacows é no mês de agosto, o que significa que o operador de mensagens não estaria trabalhando na empresa na época da prisão de Lula. River respondeu que a empresa não agia corretamente no registro dos seus funcionários.

Os deputados Túlio Gadêlha (PDT-PE) e Natália Bonavides (PT-RN) também destacaram inconsistências no depoimento, bem como o fato de que a jornalista Patricia Campos Mello estaria desmentindo as referências ao seu nome. Eles cogitaram que River poderia estar sendo ameaçado ou coagido a mentir para a CPMI.

Gadêlha quis saber quem seria responsável pelo pagamento do advogado que acompanhou River na audiência. O depoente afirmou que estava custeando os serviços do próprio bolso, mesmo enfrentando dificuldades financeiras por fazê-lo.

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