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Madre Deus sobrevive a mudanças no Carnaval e é referência na folia

De Cristóvão, a "Sapinho", César Teixeira, Bulcão... vozes do bairro tradicional do Carnaval foram fundamentais para a consolidação da 'Madre Divina' e ainda ecoam nas ruas quando chega o período da festa de Momo
Thiago Bastos / O Estado08/02/2020
O Fuá propriamente dito; povo reunido em um grande bloco animado percorre as ruas da Madre Deus


Nomes como Cristóvão Alô Brasil – e que dele derivaram outras referências na arte da composição musical, como “Sapinho”, Paletó, César Teixeira, além de Wellington Reis e tantos outros - foram fundamentais na consolidação da Madre Deus como referência do samba e da boa música na Ilha não somente no período de Carnaval, como em outros períodos do ano.

Costumes, como os de ir do Largo do Caroçudo até o Centro, em blocos, durante a programação momesca, inspiraram versos que, para os mais fervorosos fãs da boemia e dos eventos ligados à cultura, são verdadeiros hinos. As transformações do Carnaval, que tornaram a festa mais programática (com a inclusão de circuitos padronizados e de desfiles performáticos de escolas de samba) poderiam inibir a essência da festa, ou seja, a espontaneidade e liberdade em curtir os dias de graça e diversão da forma que bem entenderem (desde que, claro, obedecendo aos requisitos legais).

Após o surgimento da espontaneidade dos blocos (organizados e tradicionais) que desfilavam pela Madre Deus, em 1997 – com a inclusão de São Luís como Patrimônio da Humanidade – o bairro passou a configurar oficialmente os circuitos permanentes de festa e a receber eventos com a chancela do poder público de forma mais constante.

No entanto, em cada rua, em cada esquina, como diz o poeta Luis Henrique Bulcão, a Madre Deus “é uma panela de pressão” que parece ferver ininterruptamente. Entender como a Madre Divina chegou a tal configuração nos tempos de hoje, ainda que com as transformações da cidade e intervenções da administração pública, é voltar ao passado.

A tradição dos blocos e o “brotar” dos compositores na Madre Deus
Na década de 1970, São Luís viveu uma época inesquecível de sua história, com um Carnaval, em especial, genuinamente das ruas e dos blocos, em sua maioria, organizados. Pelo menos em termos de manifestações, muitos historiadores e pesquisadores, como Ananias Martins, definem como o período mais rico da festa na cidade.

Essas brincadeiras convergiam para os cordões e corsos. O apogeu dos cordões, por exemplo, que se caracterizavam pela união de foliões de toda a parte do território foram descritos por Carlos de Lima, em “Antigos Carnavais”. De acordo com Lima, os cordões vinham “pela Vila Passos, do Canto da Fabril, do Alto da Carneira e da Madre Deus”. Segundo o escritor, moças e rapazes vinham fantasiados com calças lisas e blusas coloridas e entravam nas casas cantando e dançando “de toda maneira”.

Os blocos, que na Madre Deus são lembrados com carinho por moradores ou por quem foi criado lá, ou mesmo por quem tem apego à festa e frequenta um dos “berços” da cultura local, são os citados “Turma do Quinto” (referendado como escola de samba de sucesso anos mais tarde), além do “Cruzeiro”, organizado por “Sapinho”, um dos grandes compositores maranhenses.

Ainda no contexto dos blocos organizados, é impossível não lembrar do URTA (Unidos do Regional Tocado a Álcool). O grupo, nascido e desenvolvido na Madre Deus, era referendado por Wellington Reis, uma das referências na cultura popular do estado. Foi a partir deste grupo (nascido na década de 1960 e que ganhou maior projeção em 1970) que nomes como Bulcão, Cristóvão e o próprio Wellington Reis se notabilizaram no Carnaval de rua da cidade.

O próprio Luis Henrique Bulcão contou a O Estado que se tratava de um grupo no contexto dos blocos organizados, com o referencial de estandarte, com balizas (ou bailarinos) e o fuá (multidão) de sempre acompanhando. “Era um grupo conhecidíssimo aqui no bairro, com seus componentes e a referência clara a quem costumava tomar umas”, disse.

O estímulo à criação de grupos do gênero partiu dos próprios moradores e dos tais compositores “que brotavam e ainda brotam” de cada esquina da divina famosa. A necessidade de elaboração dos grupos era essencial para a festa.
Eram vários os blocos que saíam da Madre Deus em cortejo, pelas ruas históricas do Centro, até o Canto da Viração para se “apresentarem” ao público na Deodoro. “Ficávamos atrás das cordas, usadas para delimitar o espaço, e por lá passavam este e outros blocos famosos, com seus componentes, além de pessoas fantasiadas que se misturavam aos componentes para fazer a alegria da festa”, disse Luis Henrique Bulcão.

O ato de percorrer as ruas da Madre Deus rumo ao trecho central da cidade foi, inclusive, tema de canções lembradas pelos mais antigos moradores da localidade. Segundo Bulcão, “Sapinho” foi responsável pela marchinha que se inspirava em iniciativa de Ivar Saldanha para citar a transformação da Praça Rui Barbosa em Largo do Caroçudo.

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Os versos elaborados por “Sapinho” e cantados a plenos pulmões pelos brincantes eram assim: “Agora sim, as coisas melhorou! O prefeito Ivar Saldanha criou um grande valor. Tem entrada e tem saída. Tem canteiro e avenida. A Praça Rui Barbosa ficou mais querida. Mais uma volta que dou. Meu Cadillac parou e foi embora o meu amor!”.
“Sapinho” e suas canções inspiraram outros nomes importantes. Pessoas de suma importância para o samba e o carnaval de rua em um dos bairros mais tradicionais ludovicenses.

Os grandes “filhos” da Madre Deus
Vários nomes que, em sua maioria, ainda são desconhecidos do grande público, foram responsáveis pelo impulsionamento da Madre Deus como polo de cultura da cidade. Pessoas que, muitas vezes, não registram altos graus de escolaridade e que, apesar disso, compensavam o fato com alto conhecimento popular.

Um deles, e considerado o principal, era Cristóvão Colombo da Silva, o Cristóvão Alô Brasil. Ex-funcionário da Fábrica Cânhamo, na área têxtil de São Luís, ele juntou-se com a “Turma do Quinto”, após passar por “Cruzeiro” e outros grupos. A relação começou a partir da amizade com Renato Bulcão, pai de Luís Bulcão.

Era comum ver Cristóvão, com sua simplicidade, recitar versos que rapidamente ficavam na memória de quem curtia um bom samba de raiz. “Esse é o pai de todos nós!”, disse Bulcão sobre o grande artista.
Cristóvão era grande frequentador da casa de Renato Bulcão, que intermediou o contato entre Alô Brasil e bambas do Carnaval da Madre Deus ser próxima. Em seguida, Cristóvão foi para o Fuzileiros da Fuzarca.

Após a passagem por blocos da região, Cristóvão passa a integrar o conjunto de puxadores da “Turma do Quinto” e também fez parte do “Projeto Pixiguinha”, gravando com nomes como Antônio Vieira, Lopes Bogéa, dentre outros.
A data de nascimento de Cristóvão (19 de agosto) passou a ser um marco a partir de Projeto de Lei do vereador Marcial Lima, que sugeriu a alusão à data ao Dia Municipal do Samba.

Outro grande nome é justamente Luis Bulcão. Nascido em 1949 na Madre Deus, é advogado, compositor, poeta e produtor cultural. Também foi membro do Unidos do Regional Tocado a Álcool (URTA) é sócio-fundador da Companhia Barrica (1985), que se constitui do Boizinho Barrica, Bicho Terra e a Natalina da Paixão.

Sua memória das épocas mais antigas da Madre Deus é marcante e até hoje o ex-dirigente da Secretaria Estadual de Cultura se destaca como grande compositor popular.

Outros nomes também são históricos, como o próprio Wellington Reis e José Pereira Godão. Este último é poeta, fundador da Companhia Barrica em 1985. A manifestação, presente na festa de Carnaval e em outros períodos do ano, é uma das mais marcantes e possui raízes claras na Madre Deus, após aglutinar vários compositores e fãs da festa.

É de se registrar ainda a importância de Zé Pivó, sambista que faleceu em 2017. Com o nome de José Ribamar Costa, Zé Pivó marcou época e também é um dos filhos da Madre Deus. Ele integrou blocos como o Fuzileiros da Fuzarca e manifestações, como a “Turma de Mangueira”.

Sem falar de César Teixeira e de Gabriel Melônio, grande nome da “Turma do Quinto”. A O Estado, Melônio falou sobre a carreira e o fato de ter nascido como cantor e compositor na Madre Deus.
Em 1976, Gabriel Melônio passou a fazer parte do Quinto oficialmente, mas a sua relação com a manifestação vem de berço. “Eu via a Turma passar na minha porta quando eu era criança. Depois que passava, em bloco, ia com meu pai até a Deodoro para ver essa brincadeira. A Turma sempre fez parte da minha vida. Era uma revolução, um mar de gente!”, afirmou.

O primeiro carnaval empurrado por Gabriel na avenida foi em 1977, intitulado “A Lenda de uma Mulher Maranhense: Ana Jansen”. Para ele, uma grande responsabilidade. “Começar assim, não foi fácil. Mas depois que entrei, não saí mais”, disse.
Gabriel Melônio substituiu Maria Diniz, uma das sambistas das mais belas vozes da cidade. “Até hoje que a gente entra na avenida, dá um nervoso. Ainda dá aquela sensação”, disse.

Compositores, blocos e fuás famosos foram imprescindíveis no crescimento da Madre Deus. No entanto, a partir da década de 1990, o poder público decide colocar a localidade como foco do desenvolvimento cultural da cidade.

Governadora Roseana Sarney inspeciona obra do Viva Madre Deus, em junho de 1997, que reviveu o bairro

Projeto que alavancou o bairro: o Projeto “Madre Deus”

Elaborado pelo Governo do Maranhão durante a gestão Roseana Sarney, o Projeto “Viva Madre Deus” feito por Luís Phelipe Andrés, se destacou, à época, pela contribuição do Estado para as várias organizações de manifestações populares do bairro. Neste contexto, é preciso citar o valor que seria dado pela administração estadual ao papel de São Luís como incentivador de um dos polos da produção cultural ludovicense.
Após ter sido escolhida como patrimônio do mundo – por apresentar um dos mais homogêneos conjuntos arquitetônicos de origem portuguesa da América Latina nos séculos XVIII e XIX – São Luís passa a receber incentivos para a criação de espaços culturais na cidade. Um dos projetos do gênero era o “Viva Madre Deus” que, de acordo com o projeto original, vislumbraria a “valorização da cultura popular” mediante a reforma do bairro.
A iniciativa era compatível com a vontade governamental e fora reforçada durante a gestão da secretaria de Cultura da época. “Havia o conhecimento da importância histórica do bairro e, com isso, pensou-se na valorização do espaço do bairro a partir de intervenções necessárias e que até hoje são usufruídas pela população”, disse Luís Bulcão, então secretário de Cultura do Governo do Maranhão.
Nos anos seguintes, o Governo do Maranhão intensificou a agenda de eventos na Madre Deus e no entorno, seja com o financiamento de manifestações ou organização de shows com artistas e grupos que, até hoje, são referência na principal festa popular do estado.

A Madre Deus antes de virar “berço do Carnaval”

A Madre Deus surgiu em meados do século XVIII de um sítio de roça no lugar denominado de Ponta de Santo Amaro ou Sítio da Madre Deus, como ficou conhecido. Nesta localidade, de acordo com o historiador Euges Lima, o Capitão-Mor Manuel da Silva Serrão construiu uma ermida para abrigar a imagem de Nossa Senhora da Madre Deus, Aurora da Vida.
Alguns séculos mais tarde e o local passa a ser referência na extração e captura da pesca às margens do Rio Anil, já que a Madre Deus era “banhada” pelas águas antes do aterramento do Anel Viário. Algumas indústrias têxteis foram implantadas no bairro da Madre Deus e contribuíram para que o Maranhão chegasse a registrar o 3° maior parque industrial do país.
Em 1970, a localidade deixa de ser banhada pelo Rio Bacanga para viabilizar a construção da barragem de mesmo nome e que abriu espaço para a consolidação de bairros, como o Anjo da Guarda e outros. Conhecido como o bairro mais festeiro de São Luís, a Madre Deus tem uma história que está muito além da Folia de Momo.

Grandes compositores da Madre Deus

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Wellington Reis
Fez parte da Companhia Barrica e é um dos compositores mais famosos da Madre Deus, sendo membro do Unidos do Regional Tocado a Álcool (URTA)

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Cristóvão Alô Brasil
Ex-funcionário da Fábrica Cânhamo, Cristóvão é considerado até hoje o pai dos demais compositores da Madre Deus. Membro do Fuzileiros e da Turma do Quinto

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Gabriel Melônio
Puxador da “Turma do Quinto” desde 1976, Gabriel era integrante do Unidos do Regional Tocado a Álcool (URTA) e casou de forma perfeita com a cultura a partir da amizade com os bambas da Madre Deus.

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Luís Bulcão
Ex-secretário de Cultura do Estado do Maranhão, é um dos fundadores do Barrica e um dos compositores mais famosos e nascidos na madre divina.

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