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População defende permanência do comércio ambulante na Rua Grande

Desde a reforma do principal centro comercial de São Luís, vendedores ambulantes são frequentemente retirados da via pela Blitz Urbana.
MONALISA BENAVENUTO / O ESTADO26/11/2019
Blitz Urbana tem feito ações frequentes na Rua Grande para impedir ocupação de camelôs

SÃO LUÍS - Uma intervenção da Prefeitura de São Luís, por meio da Blitz Urbana, realizada na manhã de ontem, 25, retirou dezenas de vendedores ambulantes da Rua Grande, principal centro comercial da capital. A ação, justificada pela lei de disciplinamento do espaço público, é promovida frequentemente na via com o objetivo de reduzir a poluição visual e liberar as calçadas para passagem dos pedestres que frequentam o lugar. No entanto, população desaprova medida em apoio ao comércio ambulante que, entre outras coisas, movimenta o local, de acordo com consumidores e lojistas.

A presença de vendedores informais, conhecidos como “camelôs”, na principal via de comércio a céu aberto do Maranhão – a Rua Grande – é um assunto que gera divergência entre a categoria, lojistas, população e poder público, principalmente após a conclusão da reforma da área, quando, de acordo com a Prefeitura de São Luís, os ambulantes seriam realocados em um espaço adequado, que seria o Shopping do Comércio Popular da capital, para garantir a qualidade e durabilidade dos serviços de pavimentação e acessibilidade da via. Sem a entrega do prédio, porém, trabalhadores permanecem na via e contam com o apoio dos consumidores e empresários do local, como contou o lojista Edson Freire.

“Acredito que o comércio informal desorganizado atrapalha um pouco, mas, como lojista, eu avalio que o setor agrega muito para o comércio geral, porque quem vem à Rua Grande, não tem intenção de comprar apenas um produto e o comércio informal tem um leque de produtos e, por isso, acredito que eles somam ao comércio. A ocupação das calçadas e exposição de produtos pode até gerar algum desconforto ao consumidor, mas eles movimentam, povoam a rua e colaboram para a segurança dessa região”, opinou o empresário.

No entanto, para a vendedora ambulante Girlene Sousa, que há nove anos tem o trabalho como única fonte de renda para prover o sustento da família, o reconhecimento de que a categoria incentiva as vendas do comércio formal chegou tardiamente, uma vez que, diariamente, ações da Blitz Urbana removem comerciantes informais da Rua Grande. Uma dessas operações foi flagrada por O Estado, na manhã de ontem.

“Poucos lojistas nos apoiaram desde o início, mas agora que viram a situação, que as vendas caíram para eles, que perceberam que a nossa presença diminui a insegurança e que a nossa saída os prejudicou também, é que se colocaram do nosso lado”, declarou. “Isso aqui é humilhante, porque quando a Blitz Urbana chega, não é pedindo, é mandando a gente sair. Houve uma reforma e retirada dos camelôs, falaram que ia ser feito um local apropriado para trabalharmos, mas até agora nada. Você acha que eu, particularmente, queria estar aqui? Não, eu queria uma coisa melhor para mim”.
Sobre o assunto, o presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL), Fábio Ribeiro, declarou que, por ser um problema antigo, somente pode ser resolvido com decisão dos órgãos públicos, com ações permanentes e efetivas de disciplinamento do comércio informal.

Procurada por O Estado para comentar a situação, a Secretaria Municipal de Urbanismo e Habitação (Semurh) informou que, juntamente à Secretaria Municipal de Segurança com Cidadania (Semusc), com participação da Guarda Municipal, da Blitz Urbana e da Sub-Prefeitura do Centro, mantém equipes permanentes atuando no disciplinamento do comércio e resguardando o patrimônio público ao longo da Rua Grande. Informou ainda que a definição dos espaços de atuação dos vendedores ambulantes – as transversais da via – foi discutida em reuniões que contou com a participação do Sindicato e a Associação dos Trabalhadores Ambulantes.

Insegurança
A sensação de insegurança é, inclusive, outro assunto discutido por quem trabalha e frequenta a Rua Grande. Para eles, a retirada dos camelôs torna o local mais vazio e, portanto, mais vulnerável à ação de criminosos e, por consequência, acaba afugentando os consumidores do local. De acordo com a artesã Claudecy Lucena, a situação é um dos fatores que têm desmotivado as idas ao centro comercial.

“Costumava ir à Rua Grande, em média, quatro vezes por semana, mas desde que os ambulantes começaram a ser dispersados, têm tido muitos casos de furtos e, com pouco policiamento, a gente acaba se sentindo inseguro, por isso tenho optado por outras lojas, em outros bairros, mesmo sabendo que poderia encontrar tudo por aqui”, contou.

A um mês para o Natal, período que costuma aquecer o comércio, a expectativa é de que os órgãos públicos intensifiquem as ações de segurança e garantam a tranquilidade da população, como destacou o empresário Vanderlan Rolim, que atua na Rua Grande há mais de 30 anos.

“A insegurança é algo que existe em nosso estado, não se pode negar. Aqui em São Luís, a Rua Grande acaba sendo um atrativo para pequenos delitos e, principalmente, quando se aproxima a época natalina, em decorrência de problemas sociais, desemprego muito grande. Nas últimas semanas houve roubos de celulares e até assaltos a lojas, que terminaram em mortes. Todo mundo precisando se movimentar e eles não deixam por menos, por isso nos prendemos ao que foi prometido pelos órgãos públicos, que devem reforçar a segurança e garantir que os consumidores façam suas compras com tranquilidade”, contou.

A perspectiva de Rolim é comum à CDL de São Luís, órgão que representa os empresários formais da cidade. Com a disponibilização de saques do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), o controle da inflação e outras condições referentes à economia nacional, o setor espera por um aumento de vendas e aquecimento do comércio neste fim de ano e, para que tudo transcorra normalmente, o serviço de segurança pública torna-se um aliado essencial, como destacou Fábio Ribeiro.

“A questão da segurança pública afeta a todos, pois o consumidor tende a se afastar dos centros de compras onde se sinta inseguro e com a revitalização da Rua Grande há uma expectativa muito grande de retomada do movimento do comércio, especialmente neste fim de ano que, de acordo com pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), 77% dos brasileiros têm intenção de presentear no Natal, por isso é indispensável termos uma estrutura de segurança no local”, frisou.

Reforço
Sobre o assunto, a Guarda Municipal de São Luís informou que, no período diurno, manterá duas guarnições (manhã e tarde) e mais uma ronda ostensiva municipal, com guardas municipais motorizados, a partir das 18h e nos finais de semana. Com a proximidade do período natalino, o serviço será intensificado, em parceria com a Polícia Militar do Maranhão. Os guardas municipais também darão cobertura ao trabalho dos agentes da Blitz Urbana nas fiscalizações, para manter o ordenamento do comércio informal na Rua Grande. A secretaria afirma que todas as ações serão para garantir a ordem e o direito ao espaço público de todos, com disciplinamento e ordem.

A Polícia Militar do Maranhão (PMMA), por sua vez, informou que o esquema de segurança será reforçado neste fim de ano, no Centro de São Luís e em outras áreas da cidade com grande movimentação comercial. A ação contará com o patrulhamento ininterrupto de forma motorizada e a pé, realizado por policiais do 9º BPM, Batalhão Tiradentes, Esquadrão Águia do BPChoque e Batalhão de Polícia Militar de Turismo Independente (BPTur). A segurança será intensificada em locais como Rua Grande e adjacências, Praça Deodoro, Centro Histórico, João Paulo – com atenção para a Avenida São Marçal – Monte Castelo, Maranhão Novo, Cohab, Cohatrac, entre outras áreas com fluxo intenso de consumidores.

A PM ressaltou que os cidadãos podem e devem contribuir com serviço de segurança, prestando informações sobre ocorrência de atos ilícitos, com a total garantia de anonimato. As denúncias podem ser feitas por meio do 190 e do Disque Denúncia: (98) 3223-5800 (capital) ou (98) 99224-8660 (WhatsApp).

Shopping do Comércio Popular de São Luís

Durante encontros realizados em julho, entre a Secretaria Municipal de Urbanismo e Habitação (Semurh) e ambulantes que trabalham no comércio informal da Rua Grande, foi apresentado aos trabalhadores o projeto do Shopping do Comércio Popular de São Luís, que será implantado nas proximidades do Ginásio Costa Rodrigues, área central de São Luís, e vai contar com nove lojas âncoras, 987 boxes e 270 vagas de estacionamentos.
A obra deverá ser custeado por meio de parceria público-privada (PPP), com contrapartida da Prefeitura de São Luís. A ideia é que o local permita que os ambulantes sejam retirados das ruas e realocados para um amplo e confortável espaço. O projeto Shopping do Comércio Popular de São Luís já foi apresentado na Câmara Municipal de Vereadores e será discutido também na Defensoria Pública do Estado do Maranhão, Associação Comercial, Câmara de Dirigentes Lojistas, Ministério Público e na Vara de Interesses Difusos e Coletivos.

FALA, POVO!

Qual a sua opinião sobre a presença de camelôs na Rua Grande?

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“Eu acho que a Prefeitura precisa oferecer um lugar adequado para eles, que nós também possamos ir, porque quem está aqui tem família para sustentar, contas a pagar”

Maria Campos, 58 anos, técnica em Raio-X

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“A gente viaja o mundo inteiro e vê mercados de rua muito maiores que esse. As pessoas têm mais que trabalhar mesmo e isso precisa ser incentivado, não proibido”

Sérgio Marcos do Amaral, 60 anos, advogado (turista)

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“Eu acho que eles têm de ficar, porque todo mundo precisa trabalhar, ganhar o pão de cada dia. Não deixa de atrapalhar em alguns sentidos, mas é uma necessidade”

José Marinho, 63 anos, aposentado

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