Política | Lava Jato

"Ninguém me quer", diz doleiro Alberto Youssef

Pivô da Lava Jato tenta se reerguer criando robôs para oferecer serviços de investimento em câmbio e diz que não consegue ter conta bancária
Folha de S. Paulo21/11/2019 às 07h56
"Ninguém me quer", diz doleiro Alberto YoussefReprodução/O Globo

O doleiro Alberto Youssef, 51, pivô da Operação Lava Jato, passa os dias sozinho em seu apartamento de 36 metros quadrados no bairro Vila Nova Conceição, área nobre de São Paulo, desde que saiu da prisão, em Curitiba, em novembro de 2016.

Ele foi condenado a mais de cem anos de reclusão, mas conseguiu ir para casa após três anos, depois de firmar um acordo de colaboração premiada com a Justiça.

O doleiro ficou quatro meses em prisão domiciliar e agora segue no regime aberto diferenciado com o uso de tornozeleira eletrônica. Precisa estar em casa das 20h às 6h, de segunda a sexta. Durante finais de semana e feriados, deve permanecer em casa.

Foi nos meses em que não podia deixar o apartamento que ele resolveu estudar o mercado de dólar futuro.

Youssef chama esse tempo de período de reciclagem, em que tomou conhecimento da rotina do mercado e se preparou para abrir uma conta e voltar a operar. Hoje ele passa o dia acompanhando o sobe e desce do dólar futuro na Bolsa, de onde tira seu sustento.

“Precisava arrumar alguma coisa para fazer. E o meu métier é o mercado financeiro. Decidi voltar a operar porque era o jeito mais fácil e mais rápido para poder me inserir na sociedade novamente”, diz ele.

A pequena sala tem um sofá de três lugares antigo, coberto por um tecido com furos em vários pontos, e uma mesa de bar dobrável com três cadeiras. Chama a atenção um notebook ligado a uma televisão LCD e a outro monitor.

Na parede ao lado da televisão, alguns santos de devoção de Youssef, como nossa Senhora Aparecida, foram colocados em uma prateleira alta. O doleiro sempre deixa flores e uma vela acesa, o que já escureceu um pouco a parede.

Com a condição de não tocar em assuntos relacionados à Lava Jato nem à política e de não ser fotografado, ele recebeu a reportagem em seu apartamento. Youssef tem a fala calma e olhos azuis profundos. Enquanto ele fala, gira os dedos polegares entre si.

Por que o senhor voltou a operar no mercado financeiro?
Preciso me sustentar, pagar as minhas contas, meu aluguel, meu plano de saúde, minha luz, minha água.

Mas o sr. tentou um emprego formal antes de começar a operar?
Vários, mas ninguém me quer. Não passa no compliance [departamento de governança corporativa e combate à corrupção das empresas].

Vou te dar um exemplo: tinha um concurso de traders no Itaú. Me inscrevi e me aprovaram no concurso. Recebi até uma data e um dia, mas depois veio um email me dizendo: “Olha, está lotado. Fica para uma próxima”.

E como foi o retorno?
Tinha uma conta na XP, que foi aberta nos anos 2000 e na qual já havia operado bem antes da Lava Jato. Quando eu recebi parte do dinheiro do meu livro [o jornalista Pedro Marcondes está escrevendo um livro sobre a vida de Youssef, pela Companhia das Letras], atualizei o cadastro, mas, quando fui mandar o dinheiro para começar a operar, o compliance me bloqueou e não deixou.

Então abri uma conta da Modal Investimentos, que me recebeu muito bem. Sou muito grato a eles. Infelizmente essa situação durou pouco, pois daí uma execução fiscal bloqueou meu saldo e não tenho mais condições de operar. Hoje dou consultoria para quem opera e estou criando os robôs.

Robôs?
Sim. São três robôs. Tem que ser mais que um. Sempre. Hoje nossos robôs têm um acerto de 98% a 92%.

Precisou estudar o mercado?
Precisei fazer uma reciclagem. Com as novas ferramentas. Eu venho de uma época antiga, que era pregão e telefone. Fui estudar, ver as plataformas e ferramentas que existiam para que eu pudesse fazer uma leitura mais afinada do mercado em si.

Quais as dificuldades que enfrentou?
Todas as possíveis e imagináveis. Primeiro que, para operar, você precisa ter uma conta no seu nome, e banco nenhum abre conta para mim, porque eu sou uma pessoa que não pode ter uma conta bancária no mundo.

Ninguém me quer como cliente. Tentei em vários e não consegui. Tenho uma conta-poupança que é de muitos anos atrás e não foi encerrada. É através dela que eu movimento alguma coisa.

Qual a sua opinião sobre os compliances?
Acho que pecam em vários sentidos. Por exemplo, não passo no compliance para abrir uma conta. Mesmo querendo ter uma conta e pagar imposto. Mesmo querendo movimentar só pelo sistema bancário, não me deixam. Esse é o compliance.

É frustrante ter as contas bloqueadas?
Muito. Porque, a partir do momento em que você pagou sua pena perante a Justiça, pagou suas multas e volta para ser reinserido na sociedade, você é bloqueado em todos os sentidos. Mas não me deixo abater. Vamos seguir em frente, de cabeça erguida.

O sr. já operava o dólar futuro numa época pré-Lava Jato?
Operava. E nem sempre ganhava. É um mercado muito difícil. Para aprender, primeiro perde muito e depois chega a uma posição em que consegue ter um equilíbrio.

Quando descobriu o câmbio?
Em 1991. Tinha voltado da minha atividade de piloto comercial. Eu fazia voos fretados e voava no garimpo. Aí, surgiu a oportunidade e eu abri uma casa de câmbio aqui em São Paulo e outra em Londrina. Comecei a trabalhar com o dólar, mas acabei fazendo dólar só no atacado e vendia só para doleiros. Tinha poucos clientes pessoa física.

Qual foi o maior tombo que levou em uma operação?
Ah, deixa quieto, vai. Você vai me deixar com vergonha. Já levei muito tombo. O operador de mercado futuro que não quebrou conta não é operador de mercado futuro.

E qual foi a operação de que tem mais orgulho?
Tenho orgulho de todas as minhas operações. Não importa se elas são pequenas ou grandes ou se dão prejuízos ou lucro. Mas eu ganhei cerca de US$ 870 mil em um dia no início da década de 1990. Mas também já perdi isso em um único dia.

O economista Edmar Bacha diz que “o câmbio foi inventado por Deus para humilhar os economistas”. Por que o sr. acha fácil fazer essa leitura?
O mercado de câmbio se movimenta por várias situações: preço do petróleo, estoque do petróleo, juros… É uma mistura de ativos que fazem a proporção subir ou descer.

Ter participado dos bastidores de governos anteriores é o seu diferencial?
Isso ajuda muito, mas não é tudo.

​A diferença de juros com os EUA trazia muito dinheiro para o Brasil. A paridade atual atrapalha o mercado?
Tem influência, sim. Grandes analistas e economistas falam do dólar num patamar de R$ 3,90, R$ 3,80 em dezembro. Acredito que, com essa Selic, vai ser difícil romper a barreira dos R$ 4.

Acho que a gente vai conviver um bom tempo com esse dólar a R$ 4. Pode ser que no fim de 2020 esse dólar venha abaixo dos R$ 4, mas também não tenho bola de cristal.

Qual a sua avaliação sobre os dez primeiros meses do governo?
Acho que está no caminho certo com essas reformas. Só precisa de agilidade nas aprovações.

E o que falta para essa agilidade?
Aí nós vamos entrar no cenário político que não vou dizer para você.

O que precisa acontecer na Petrobras para que não se repita uma Lava Jato?
Hoje o compliance é muito maior. Acho que está bem blindada com relação a esse assunto.

Qual a diferença do doleiro para uma pessoa comum?
Nenhuma. O doleiro não é bandido. A vida inteira a sociedade esteve ligada a um doleiro. Quem não viajou para o exterior e comprou dólar de um doleiro? O câmbio paralelo saía na Globo todos os dias, no Jornal Nacional. De uma hora para outra viramos bandidos.

Encara o momento atual como uma segunda vida?
Encaro como uma segunda chance. Tô procurando fazer a coisa mais correta possível.

Perdeu amigos?
Não sei. Sei que muitos que eu ajudei não vieram até hoje me visitar para perguntar se eu estou precisando de uma bala. Fico chateado. Sou uma pessoa totalmente humilde. Não mudei na questão da humildade, mas não faria certas coisas que fiz no passado. Por exemplo, operar o mercado paralelo. Jamais.

Sente falta da vida pré-Lava Jato?
Sinto falta de estar perto das minhas filhas todo dia. De estar perto da minha família todo dia. Disso eu sinto falta, das outras coisas não.

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