Literatura

Livro do polonês Bruno Schulz ganha nova edição com texto inédito

"Lojas de canela", publicado originalmente em 1934, inclui contos entre eles, um texto inédito em português

- Atualizada em 11/10/2022 às 12h22
Capa do livro "Lojas de canela", de Bruno Schulz
Capa do livro "Lojas de canela", de Bruno Schulz (Capa Loja de canela)

São Paulo - O escritor e desenhista polonês Bruno Schulz (1892-1942) criou a sua breve e deslumbrante obra literária em um período de pouco mais de uma década, quando teve a sua vida tragicamente interrompida pela barbárie nazista. Em sua pequena cidade nos confins da Europa Central, Drohobycz, escreveu, ao todo, dois ciclos de contos e mais um punhado de narrativas, que alcançariam a admiração de nomes como Witold Gombrowicz, Czesław Miłosz, Isaac Bashevis Singer, John Updike e Philip Roth, entre muitos outros.

Além de "Lojas de canela", livro de estreia do autor, publicado originalmente em 1934, este volume inclui os cinco contos que não figuram em sua segunda obra, "Sanatório sob o signo da clepsidra" — entre eles, um texto inédito em português, “A primavera” —, e se encerra com um brilhante posfácio em que o eslavista italiano Angelo Maria Ripellino lê a obra de Schulz à luz dos seus pares poloneses e das vanguardas europeias, restaurando a proximidade da sua prosa e da “exuberância irrefreável” de suas imagens com as tendências estéticas da art nouveau e do modernismo.

Para esta nova edição da ficção de Bruno Schulz, a ser completada com a publicação de "Sanatório", a consagrada tradução de Henryk Siewerski — extremamente fiel aos adornos e arabescos tão característicos da escrita de Schulz — foi novamente revista e cotejada com as edições mais recentes da obra do autor.

Sobre o autor
Bruno Schulz nasceu em 1892 em Drohobycz, pequena cidade na região da Galícia, então parte do Império Austro-Húngaro. Em 1910 ingressa na Escola Politécnica de Lvov, e depois na Universidade de Viena, locais onde estuda arquitetura. A partir de 1921 ocupa o cargo de professor de desenho e de artes e ofícios no Ginásio de Drohobycz, época em que direciona seu interesse à pintura e ao desenho. Trabalhando em gravuras com a técnica do cliché-verre, publica o "Livro da Idolatria" em 1922 e participa de exposições coletivas em Varsóvia, Cracóvia, Lvov e Vilna.

No início de 1934 dá-se a sua estreia literária com a publicação do livro de contos "Lojas de canela". Com ele Schulz ganha reconhecimento imediato e passa a exercer também o ofício de escritor. Escreve resenhas literárias e ensaios, faz algumas tentativas de traduzir sua obra para outras línguas, e logo começam a aparecer em revistas literárias os contos que viriam a compor seu segundo livro, "Sanatório sob o signo da clepsidra", lançado em 1937. Em 1938 recebe o prestigioso Laurel de Ouro da Academia Polonesa de Literatura.

A partir de 1939 Drohobycz é ocupada pelos alemães, depois pelos russos, quando passa a integrar a República Socialista Soviética da Ucrânia, e depois novamente pelos alemães, em julho de 1941. Em 19 de novembro de 1942, Bruno Schulz foi assassinado no meio da rua por um oficial alemão, inimigo de outro oficial para o qual o autor trabalhava.

Sobre o tradutor
Henryk Siewierski nasceu em Wrocław, Polônia, em 1951. É doutor em ciência da literatura pela Universidade Jaguelônica, de Cracóvia, onde lecionou de 1975 a 1981. Em 1986 veio ao Brasil à convite da Fundação Nacional Pró-Memória, e desde então atua como professor do Departamento de Teoria Literária e Literaturas da Universidade de Brasília (UnB). É autor de História da literatura polonesa (2000), Um paraíso imperdível: silva rerum amazônico (2006), Livro do rio máximo do Padre João Daniel (2012) e dois livros de poemas: Outra língua (2007) e Lago salgado (2012). Traduziu, entre outros autores, Bruno Schulz, Bronisław Geremek, Tomek Tryzna, Andrzej Szczypiorski, Zbigniew Herbert, Stanisław Lem e Czesław Miłosz. Organizou a coletânea polonesa 33 poemas bras ileiros (2011) e, em parceria com Agostinho da Silva, traduziu Mensagem, de Fernando Pessoa, para o polonês (2006).

Texto de orelha
Num breve ensaio intitulado “A mitificação da realidade”, Bruno Schulz apresenta sua instigante teoria sobre a literatura e a poesia: as palavras, tais quais as conhecemos, seriam derivações distantes e atenuadas de hipotéticas “palavras originais”, saturadas de sentido e capazes de criar e de constelar realidades próprias. Assim, o que comumente chamamos de realidade seria simples sombra, reflexo e desdobramento de algo maior: a palavra, em seu estado original. O papel do poeta seria, então, restituir às palavras, enfraquecidas pelo uso cotidiano, algo de sua força primordial. Ao inverter os sentidos consensualmente aceitos quando se trata das relações entre linguagem e realidade, atribui-se à palavra poética, como o faziam as antigas cosmogonias do Oriente Médio, um poder criador, e a língua revela-se como o “órgão metaf&iacu te;sico do ser humano”.

Quando lemos a prosa incandescente de Schulz, que arrebata o leitor e o apanha pelas vísceras com uma força irresistível, fica claro que essa teoria poética é um registro da sua prática de autor, uma descrição do seu ofício literário. Em Lojas de canela, sua obra-prima, assim como nas cinco outras narrativas breves reunidas neste volume, ele concede às palavras a liberdade pela qual, como dito em seu ensaio, elas anseiam naturalmente, e elas, movidas por um magnetismo misterioso e espontâneo, vão tecendo, diante de nossos olhos, universos insuspeitados e maravilhosos.

No epicentro das narrativas de Lojas de canela encontra-se a figura de um pai que já não é mais humano, mas um ser de natureza mitológica, um demiurgo inquieto, que se lança a perigosos experimentos. Descrito como “um magro asceta, um lama budista cheio de uma impassível dignidade em todo o seu comportamento, que se guiava pelo cerimonial severo da sua grande estirpe”, este pai é, também, um retrato do próprio escritor, anunciador de uma redenção impossível, num ambiente obtuso, alheio, indiferente às suas preocupações, uma espécie de profeta bíblico, com sua mensagem e missão incompreendidas.

Para Schulz, o pensamento socrático foi um equívoco. Por meio de sua poética, ele buscou restaurar a sensibilidade pagã e, a partir dos objetos mais improváveis, criou uma mitologia própria, de contornos barrocos, formada por fragmentos de histórias eternas, uma espécie de bric-à-brac, como convém a um tempo e a um lugar — o período entre-guerras e a Europa Central — marcados pelo dilaceramento e pela desconstrução de todas as certezas.

Homem pequeno, tímido, mesmo acabrunhado, que passou a vida na provinciana cidade de Drohobycz, na antiga Galícia austro-húngara, depois incorporada à Polônia, Bruno Schulz está entre as vozes mais expressivas e originais do século XX. Em poucos anos, a partir de sua “redescoberta”, meio século após seu assassinato, perpetrado pelos nazistas, ele passou do esquecimento para o lugar de clássico incontornável da literatura universal. Lê-lo é, sobretudo, retornar ao mistério que foi banido do mundo numa época de amesquinhamento da consciência, a “nossa era de pequenez”, diante da qual ele estende o tapete esplêndido e fulgurante da genialidade.

Luis S. Krausz

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