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Poluição nas praias tem afastado banhistas da orla de São Luís

Treze dos 21 pontos analisados pela Sema não apresentam boas condições de balneabilidade; proprietários de bares e hotéis que funcionam na Avenida Litorânea sentem-se prejudicados e reclamam da falta de ação do poder público
MONALISA BENAVENUTO / O ESTADO06/11/2019
Água suja, que escorre de esgoto e segue na areia até o mar, na orla de São Luís

“O faturamento negativo de hotéis da orla de São Luís está diretamente relacionado às terríveis condições das praias de nossa cidade”, afirmou João Antônio Barros, Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Maranhão (Abih-MA). A situação também tem sido criticada pela Associação de Bares e Restaurantes da Avenida Litorânea (Aslit) que, há cerca de um mês, reuniu-se com representantes de órgãos municipais, estaduais e federais para discutir o assunto. De acordo com o último laudo de balneabilidade das praias da Grande Ilha, divulgado em 25 de outubro pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Sema), 13 dos 21 pontos analisados estão impróprios para o banho.

Prejuízos nos hotéis
A poluição chega às praias de diversas formas, no entanto algumas acabam sendo mais agressivas e causando danos significativos ao ecossistema e, como consequência, à população. Sejam prejuízos na saúde ou na economia, os problemas afetam de forma mais intensa àqueles que mantêm contato mais direto com a orla e, de acordo com o presidente da Abih-MA, têm sido a principal causa para a redução de hóspedes nos hotéis de São Luís, principalmente naqueles localizados próximos às praias.

“Esta situação está acabando com o turismo de São Luís, não só na região da orla, como na cidade inteira. Não temos mais feriadões, a cidade fica morta. No período das férias de julho tivemos poucas reservas e, para o fim do ano temos menos ainda. A impropriedade das praias tem um impacto terrível. O faturamento negativo de hotéis da orla de São Luís está diretamente relacionado às terríveis condições das praias de nossa cidade”, afirmou João Antônio Barros.

Ainda segundo ele, a situação está diretamente relacionada a um problema que vem evoluindo há cerca de uma década, a redução considerável de leitos disponíveis para hospedagem na capital. “Há oito anos tínhamos 12 mil leitos e, de acordo com um levantamento realizado pelo Observatório do Turismo do Maranhão, temos, atualmente, apenas 6.200. Estamos sofrendo com isso há, pelo menos, 10 anos e os órgãos competentes não fazem nada”, reivindicou.

Prejuízos nos bares
A Aslit, instituição que responde por 55 bares localizados na Avenida Litorânea, tem buscado, no poder público, formas de solucionar esta e outras demandas relacionadas à categoria e, para isso, reuniu-se, em outubro, com representantes de órgãos como o Ministério Público Federal do Maranhão (MPF-MA), Ministério Público do Estado (MPE-MA), assim como representantes das gestões municipal e estadual. No entanto, até o momento nenhuma proposta foi apresentada.

Enquanto aguardam, os proprietários de bares lidam com o acúmulo de prejuízos causados pela baixa movimentação de banhistas e clientes. De acordo com o presidente da associação, Walternor Costa, não só os turistas têm deixado de frequentar a orla ludovicense, como também a própria população da cidade. Segundo ele, é preciso que investimentos na área sejam feitos para atrair visitantes.

“A gente percebe que houve uma queda muito grande da movimentação. Em todos os anos que trabalho aqui, nunca registrei números tão baixos. As praias estão mais vazias do que o de costume nesse período. É importante que os órgãos invistam no turismo da nossa cidade e melhorem a imagem das nossas praias lá fora, porque há um investimento forte para Barreirinhas e São Luís acaba ficando apenas na passagem de quem visita nossa cidade. Os moradores, que sempre tiveram o costume de vir à praia aos domingos, nem isso têm feito mais”, lamentou.

Balneabilidade
De acordo com o último laudo de balneabilidade divulgado, dia 25 de outubro, pela Sema, apenas oito dos 21 pontos analisados nas principais praias de São Luís e região metropolitana – Ponta d’Areia, São Marcos, Calhau, Olho d’Água, Praia do Meio e Araçagi – apresentaram índices favoráveis ao banho. Destes, somente três ficam na capital, sendo dois na Praia de São Marcos e um no Calhau. Para o empresário mineiro, Rafael Soares, praticante de kitesurf, o problema gera preocupação e tristeza para quem valoriza o local.

“São Luís tem um potencial muito grande para essa área e essa despreocupação e desrespeito com o meio ambiente acabam sendo negativos. Ali perto do parquinho [da Avenida Litorânea], inclusive, tem um esgoto que é liberado sem nenhum tratamento, chega a gerar um odor desagradável e tudo isso acaba afastando as pessoas. Eu, por exemplo, pratico kitesurf e esse é um ambiente que eu frequento bastante, mas muitos colegas de São Luís evitam o lazer na orla por essas condições. Acredito que se houvesse mais investimentos, atrairia mais pessoas, porque é uma paisagem muito bonita, mas, infelizmente, negligenciada”, contou o esportista.

Em nota a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Naturais (Sema) informou que a balneabilidade é monitorada semanalmente pelo Laboratório de Análises Ambientais e os resultados disponibilizados no site da Secretaria. No último laudo, oito pontos da orla estavam próprios para o banho.

Informou, ainda, que a Superintendência de Fiscalização realizou uma operação conjunta no início do segundo semestre deste ano, na orla de São Luís, com apoio Delegacia Especializada de Meio Ambiente (Dema), Agência Executiva Metropolitana (Agem) e Corpo de Bombeiros. Foram realizadas 28 vistorias efetivas e verificadas as condições de abastecimento de água e tratamento de efluentes. Na ocasião, os fiscais ambientais aplicaram as medidas administrativas, através de Autos de Notificação e Intimação, e Autos de Infração, nos casos de irregularidades identificadas.

A Secretaria de Estado do Turismo (Setur), por meio da última pesquisa realizada na semana da pátria pelo Observatório do Turismo do Maranhão, apontou que as praias seguem sendo visitadas por mais de 43% das pessoas, ficando atrás apenas de atrativos culturais que correspondem a 46%. Segundo a Agência Brasileira de Agentes de Viagem - ABAV, não houve cancelamentos e perda de turismo durante o mês de outubro no Maranhão, e nem nos primeiros dias de novembro. Apesar de ser época de baixa temporada, a Setur não tem recebido comunicação de perdas no setor. De todo modo, segue monitorando e implementando melhorias na região.

SAIBA MAIS

Balneabilidade
A classificação da balneabilidade é a indicação da qualidade das águas destinadas à recreação de contato direto e prolongado, como natação, mergulho e lazer. É realizada por meio da coleta de amostras de águas e análise laboratorial para a avaliação de indicadores coliformes termotolerantes.

Como são feitos os testes
Os testes de balneabilidade são simples e são feitos por amostragens. Biólogos retiram do mar amostras da água em diferentes pontos da praia e em diferentes profundidades. Estas amostras são levadas para os laboratórios especializados, onde são feitas as contagens de bactérias fecais presentes nas amostras – que não pode ser superior a 100 enterococcus (gênero de bactéria) por 100 ml – e, então, é determinado se a praia está apropriada ou não para o banho. Porém, este resultado não é obtido somente por uma medição. São apurados os resultados de cinco medições realizadas durante uma semana para obter o laudo. Se em duas destas medições o número de bactérias for maior que o determinado como seguro, a praia é considerada imprópria para banho.

Doenças mais comum transmitida pelo mar poluído
As mais comuns são as gastroenterites, que podem ser causadas por bactérias ou protozoários, como as amebas, ou por vírus, como o rotavírus e o norovírus. Esses micro-organismos entram no corpo em contato com a água contaminada e pode desencadear vômito, diarreia, cólicas, febre e até sangue nas fezes.

Opinião

Jorge Luiz Nunes, biólogo

A principal causa da poluição na orla de São Luís é antrópica. Nós somos os maiores responsáveis. Muito se fala de efluentes domésticos (esgoto), mas há muito mais que isso. Andando pelas praias, vemos muito plástico que é jogado direto na areia, chega por enxurrada das chuvas e pelos rios. Balneabilidade significa condição de banho, imagine alguns turistas chegando em nossas praias e vendo muitos resíduos sólidos (lixo)! Será que entrariam na água? Provavelmente não, porque não é atraente.

Esses tipos de poluentes são os mais comuns, o que não quer dizer que haja outras substâncias, como detergente, agrotóxicos, óleos e lubrificantes. Detergente e agrotóxico são ruins para o ambiente porque propicia ‘boom’ de algas. Algumas algas podem produzir toxinas e elas podem atingir várias espécies, incluindo o homem, pelo consumo de organismos contaminados. Óleos e lubrificantes possuem substâncias tóxicas que podem ter vários efeitos, há acúmulo nos tecidos gordurosos e pode levar à falência de organismos aquáticos.

O efeito no homem também é acumulativo, em logo prazo pode gerar problemas neurológicos e motores. Em curto prazo, a poluição pode gerar problemas que variam de dermatites à intoxicação, sendo os problemas de pele mais prováveis em relação ao banho em águas impróprias e, em casos mais complexos, infecção intestinal, que também pode ocorrer pela ingestão dos sais que compõem a água do mar.

Imagino que podemos reverter a poluição até certo ponto. Os efluentes domésticos podem ser reduzidos significantemente por meio das estações de tratamento. Mas, o crescimento da população e problemas sanitários aumentam em progressão geométrica e as estações de tratamento em progressão aritmética. Como resultado palpável, podemos verificar a diminuição de coliformes, que o parâmetro deste tipo de poluição.

Por outro lado, a poluição por plástico tem sido abundante e as pesquisas têm indicado que será uma missão quase impossível reverter. Os efeitos são pouco conhecidos, mas podem causar problemas cancerígenos e deficiência hormonal. O plástico pode se decompor em frações menores chamado microplástico. Nenhum organismo tem ficado isento ao microplástico.

FALA, POVO!

Qual a sua opinião sobre a atual condição das praias de São Luís?

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“Eu sempre ouço nas reportagens que as nossas águas não estão viáveis por conta de vazamentos de esgoto, mas a praia, a paisagem em si, é muito bonita”

Kátia Borges, secretária-executiva, 59 anos.

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“Infelizmente, nós não podemos desfrutar desse mar maravilhoso, porque é tudo poluído. O que nos resta é, simplesmente, fazer caminhadas e admirá-lo”

Linarosa Moraes, autônoma, 43 anos.

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“A praia está se acabando, a poluição, a cada dia, aumenta mais. A gente tem uma natureza muito bonita, mas se não for cuidada, ela não prospera”

Maria Clara Vieira, vendedora ambulante, 43 anos.

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“Como eu sou daqui e o ludovicense não tem frescura com isso, muito pelo contrário, então se vier uma doença, fazer o quê, não é? Nada que um bom remédio não cure”

Fernando carvalho, servidor público, 40 anos.

Pontos impróprios
Praia da Ponta d’Areia

- Ao lado do Forte de Santo Antônio
- Atrás do Hotel Praia Mar
- Atrás do Bar do Dodô
- Em frente a Praça de Apoio ao Banhista
- Em frente ao Edifício Herbene Regadas
- Em frente ao Hotel Brisamar

Praia de São Marcos
- Em frente ao Agrupamento Batalhão do Mar
- Em frente ao IPEM e ao Bar Kalamazoo
- Foz do Rio Calhau

Praia do Calhau
- À direita da elevatória II da CAEMA

- Em frente ao Bar Malibu

Praia do Olho d’Água
- À direita da Elevatória Pimenta I

- À direita da Elevatória Iemanjá II

Pontos próprios
Praia de São Marcos

- Em frente a Barraca da Marcela
- Em frente aos bares Do Chef e Marlene’s

Praia do Calhau

- Em frente a Pousada Tambaú

Praia do Meio
- Em frente ao Bar do Capiau
- Em frente ao Bar da Praia

Praia do Araçagi
- Em frente ao Fátima’s Bar
- Em frente ao Bar Novo Point
- Em frente ao Bar do Isaac

NÚMEROS

6 praias analisadas
13 pontos impróprios
8 próprios

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