Opinião | ARTIGO

"Nasci para ser feliz!"

José Salim / Radialista, jornalista e advogado21/10/2019

Li, de uma assentada, as reminiscências, reunidas em livro, da escritora Clarice Pinto Haickel. Lançou-o ao celebrar seus 90 anos, em companhia das pessoas mais queridas. Na linha de frente irmãos, filhos, netos e bisnetos - o círculo da consaguinidade - e amigos. Muitos amigos.
A narrativa é um desfilar de histórias, de todos os matizes, que vão da intimidade familiar em tempos de antanho até o cenário bucólico da cidade naquele tempo. Passando pelo ambiente nos colégios, nas relações de amizade, pela tranquilidade das ruas, pela beleza das lojas, pelo celebrar das datas populares.
O texto vai além do simples registro de ocorrências: “é um testemunho pujante de que... ‘Nasci para ser feliz!’”, na melhor acepção da assertiva. O argumento inspirador da produção é justificado como “histórias que precisam ser contadas”. E a autora o faz despretensiosamente, mas com a influência da atmosfera bucólica que marcaram os anos de antes e a efervescência de agora.
Os primeiros leitores, os filhos, encontram nele “a essência de Clarice”. Ao que ela, simplesmente, define: “é mensagem permanente a filhos, netos, bisnetos e parentes mais próximos”, não restritiva, ampliada para confrontar passado e presente e promover o intercâmbio entre as épocas.
A leitura leva-nos a rever passeios em São José de Ribamar e a outros recantos rurais da ilha, sítios então distantes; a “festa da melancia”, na Beira-Mar, próxima da estação do trem; o andar pela Rua Grande e o extasiar-se ante as lojas e suas vitrines.
Do relacionamento familiar reencontramos a família reunida em volta da mesa (hoje a família mantém o hábito, no casarão do Olho d’Água, aos domingos); reverência aos mais velhos, consanguíneos ou não; a obediência às recomendações paternas no trato com piolho, sarampo, catapora, papeira…
Uma figura histórica citada trouxe-me profunda recordação: Moacyr Neves, dublê de funcionário público (dos Correios) e homem-show, em cuja companhia descobri meus talentos radiofônicos, que me levaria definitivamente ao rádio e, posteriormente, ao jornal, recolhendo o diploma de advogado ao escaninho.
Aí aparece Nagib Haickel (na sede social do Grêmio Lítero Recreativo Português, na Praça João Lisboa), namoro que se estendeu por 45 anos, até o precoce falecimento, em meio a vitoriosa trajetória política, que ainda muito prometia. O namoro prossegue, pois, conforme declara, embora “viúva”, se declara “eternamente casada com o amor de minha vida, Nagib Haickel”
O livro e um hino em louvor à amizade, com estrofes a cada página em reverência a pessoas que conquistaram o casal ou foram por ele conquistadas ao longo dos anos. Sentimento profunda herdado pelos filhos. Sob a presidência do sentimento, ganham lugar especial, na imensa galeria sentimental, “mãe” Didi, Doutor Zezico (o futuro governador Matos Carvalho), Teté, Loló, Romaninha, Família Vale, Dona Rosário, Dona Joaninha, Stênio, Benedita, Raimundinha, Lourival, José, Haroldo, Brás, Afonso, Maria José, Selma, Mary, Ana Rosa Alice, Rose, João, Neto, Luís, Paulo, Jesus, Pedro, Neves, Regine, Litiane... A lista é interminável!
No final um capítulo especial homenageia os filhos: os de sangue - Joaquim e Nagib - e os de amor - Lúcia de Fátima (sobrinha), Joaquim Jorge, Maria Santana, Celso Henrique. Mais netos e bisnetos. E uma sequência de pensamentos que retratam sua prática de vida. E todos resplandecentes de felicidade.
Na festa, foi possível constatar o elevado grau do sentimento amizade na relação entre todos que foram homenageá-la. Difícil encontrar-se uma existência que faça jus, com tanta justiça, ao lema “nasci pra ser feliz!”. Clarice Pinto Haickel chancelou essa assertiva e, aos 90 anos, ensina o valor da amizade. E nós (estávamos lá eu e dona Yeda) aprendendo com ela a “ser feliz”.

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