Opinião | ARTIGO

E por falar em conspiração

Isa Albuquerque / Cineasta e diretora do filme OURO NEGRO21/10/2019

O petróleo - esse recurso natural gerado nas entranhas da terra, em condições extremas de temperatura e pressão, despertou a cobiça de grandes corporações mundiais, bem como a ira de empresários brasileiros de pena afiada, como o escritor Monteiro Lobato, sócio de cinco companhias, de Norte a Sul do país, entre os anos 20 e 30. Seu livro-denúncia “O Escândalo do Petróleo e do Ferro”, publicado em 1936, foi censurado e o escritor amargou uma prisão por três meses, durante a ditadura Vargas. Da prisão ele enviou ao presidente uma carta propondo a criação de companhias nacionais para gestão desses recursos - inspirando o presidente a criar a CSN e a Petrobras. Porém, o escritor revelou o seu profundo desgosto com a causa do petróleo, que o levou à prisão, dedicando-se somente à Literatura.
Desde os primórdios da exploração do ouro negro, até hoje, as conspirações sempre marcaram os países produtores, que sofrem uma espécie de maldição, com um rastilho de crises políticas e econômicas, com graves consequências sociais. Ao pesquisar a existência do petróleo brasileiro, a 7 mil quilômetros de profundidade, na plataforma submarina, a Petrobras especializou-se em tecnologia de exploração em águas profundas.
Nas províncias do Pré-Sal, localizadas a 300 km da costa de Angra dos Reis, há reservas de 120 bilhões de barris. O que levou o governo brasileiro a apresentar à ONU, um pedido de expansão do mar das 200 milhas, concedidas em 25 de março de 1970, para 350 milhas. Esse óleo, sob uma rígida camada de sal, foi o maior achado dos últimos dez anos, em todo o mundo e explica a cobiça do capital estrangeiro sobre o Brasil. Mas é na Venezuela onde se encontram as maiores reservas de petróleo do mundo, com 300,9 bilhões de barris.
O petróleo venezuelano foi descoberto no princípio do século XX e, desde então, o país passou a viver, unicamente, às custas do petróleo, tornando-se dependente do comércio exterior para seu abastecimento interno. Em 1994, o povo venezuelano começou a usufruir de um naco dessa riqueza, ao eleger o militar Hugo Chávez, que promoveu a maior distribuição de renda da história do país, reelegendo-se por quatro mandatos consecutivos. Ao falecer, em 2013, vítima de um câncer, Chávez deixou Nicolás Maduro, para eleger-se como seu sucessor. Desde então a situação econômica e política agravou-se com uma inflação descontrolada e a Venezuela vive sob uma crise de desabastecimento tão grave que 4 milhões de cidadãos já se refugiaram no Peru, Colômbia e Brasil.
A crise vivida pela Venezuela, desde 2014, é atribuída à queda do preço do barril do petróleo: de US$ 111,87, por barril, para apenas US$ 48,07, o que provocou a derrocada do PIB, naquele mesmo ano, em quase 4%. Entretanto, especialistas do Centro Estratégico Latino Americano de Geopolítica (CELAG) elaboraram um relatório sobre a situação sócio econômica do país e afirmam que, após a morte de Hugo Chávez, em 2013, perderam-se cerca de 22 bilhões de dólares, em investimentos anuais. Esse revés financeiro corresponde a lançar bombas em sua infraestrutura, inclusive a petroleira.
Nos cinco anos abarcados pelo estudo, os prejuízos somaram 350 bilhões de dólares, devido ao embargo, com a perda de quase 4 milhões de empregos, o que representa o principal fator de deslocamento dos milhões de venezuelanos para os países vizinhos. Além disso: não basta ter petrodólares, é importante haver de quem comprar os produtos que faltam ao país. Segundo relatório do CELAG, o bloqueio de vendas de alimentos, à Venezuela, foi estimado em 300 milhões de dólares, além de suspensão da entrega de remédios de extrema necessidade, tais como 300 mil doses de insulina, para os diabéticos, insumos para hemodiálise e vacinas. Os Estados Unidos e seus aliados realizam uma sucessão de embargos e sanções econômicas, desde 2017, para enfraquecer o governo de Maduro e fortalecer o autoproclamado presidente Guaidó”: É uma briga de David contra Golias na qual o Brasil de Bolsonaro já escolheu Trump, colocando-nos em meio a essa espécie de guerra fria. A maldição do petróleo atinge a América do Sul.

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