Opinião | Artigo

Eu, professor

15/10/2019

Comecei a dar aulas aos 18 anos. Meus alunos, em um supletivo de bairro, eram todos mais velhos que eu. Senti ali, pela primeira vez, a urgência do conhecimento. Experiência eu não tinha, história de vida também não. Aquelas pessoas cansadas e sonolentas sentavam nas carteiras estreitas e olhavam para mim à espera de algo. Não fazia sentido aquelas horas sem dormir e sem jantar se não houvesse uma compensação à altura. Eu precisava, diariamente, refazer a conexão com eles, apresentando algo que eles não viam no seu cotidiano, algo que nunca lhes passou pela cabeça, algo que despertasse-os da anestésica rotina dos seus afazeres mal remunerados. E eu estudava e estudava para sempre ter uma história suculenta para eles. Como o artesão que capricha na peça que será admirada; como o agricultor que revolve e revolve a terra para dela tirar o fruto de encher os olhos. Eu aprendia e eu ensinava. E assim eu aprendia o que devia ensinar. Eu era ponte, eu era isca, eu era o palhaço e o domador, o atirador de facas, o malabarista. E, muitas vezes, eles saíam das aulas com os olhos vermelhos de sono, cansaço, um breve sorriso, um balançar de cabeça. Eu havia chegado a algum lugar deles. Eu estava ali. Eu sei.

Para continuar aproveitando o conteúdo de O Estado faça seu login ou assine.

Já sou assinante

entrar

Ainda não sou assinante

assine agora

Leia mais notícias em OEstadoMA.com e siga nossas páginas no Facebook, no Twitter e no Instagram. Envie informações à Redação do Jornal de O Estado por WhatsApp pelo telefone (98) 99209 2564.

© 2019 - Todos os direitos reservados.
Tamanho da
Fonte