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Livro analisa o Brasil sob o prisma do terreiro

No livro "O corpo encantado das ruas" (Editora Civilização Brasileira), o historiador Luiz Antonio Simas, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Livro do Ano de 2016, valoriza saberes e fazeres milenares de caboclos e negros
29/09/2019 às 07h00
Livro analisa o Brasil sob o prisma do terreiroDetalhe da capa do livro " O corpo encantado das ruas" (Divulgação)

Rio - Depois do sucesso na Bienal do Livro 2019, chega às livrarias o novo livro do historiador Luiz Antonio Simas, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Livro do Ano de 2016. "O corpo encantado das ruas" (Editora Civilização Brasileira), apresenta o autor em forma exuberante, reunindo influências diversas como o cronista João do Rio e o sociólogo alemão Walter Benjamin. Simas convida seus pares, leitores e pesquisadores a batucar e rechaça a ideia de uma produção acadêmica como laboratório de testes para conceitos elaborados nas cátedras das instituições europocêntricas. Nestes ensaios curtos, Simas valoriza saberes e fazeres milenares de caboclos e negros. Depois de lecionar em cursos pré-vestibular, o historiador-macumbeiro tem se dedicado a aulas abertas em praças, botequins, esquinas e encruzilhadas na qual dá vazão a práticas que conquistaram gerações de alunos.

“As ruas desencantadas, a festa combatida, os tambores calados e as bandeiras recolhidas são crônicas do desencanto e da arenização das cidades. Recentemente uma polêmica tomou conta de alguns estádios de futebol. Torcedores levaram faixas lembrando a vereadora Marielle Franco, assassinada numa tocaia. As torcidas do Grêmio e do Cruzeiro tiveram as faixas retiradas por seguranças. No Rio, torcedores de Flamengo e Fluminense levaram faixas depois de negociação com a Polícia Militar. A da torcida do Fla foi retirada por um segurança privado. Grandes cidades são espaços de confrontos, e o futebol não é alheio a isso. A cidade vista como o espaço funcional, prioritariamente destinado à acumulação e à circulação do capital, elabora estratégias de controle das massas. Os subalternizados, por sua vez, inventam cotidianamente maneiras de construir no perrengue seus espaços de lazer, sobrevivência e sociabilidade. (...) A história do Rio de Janeiro e a história do futebol brasileiro têm muito dessa subversão, que chamo de “esculhambação criativa”: a capacidade de transformar territórios, espaços de controle, em terreiros – espaços de encantamento”.

As ruas, como vistas por Luiz Antonio Simas, incorporam o movimento. São terreiro de encontros improváveis, território de Exu, que se manifesta na alteridade da fala e na afluência das encruzilhadas. Do Centro ao subúrbio, as tramas das ruas cariocas confundem-se com sua escrita.

Se João do Rio foi o cronista da alma carioca do início do século XX, Simas aparece, cem anos depois, como o historiador do corpo do Rio de Janeiro atravessado pelas flechas do capital cultural e financeiro global. Por isso, contra a barbárie civilizatória, surgem suspiros e mariolas nas sacolinhas de São Cosme e São Damião, a simpatia de São Brás para não engasgar, as conversas na feira, o cotidiano da quitanda e o boteco da esquina.

"O corpo encantado das ruas" reivindica a riqueza dos saberes, práticas, modos de vida, visões de mundo das culturas que não podem ser domados pelo padrão canônico. Dá um olé na historiografia oficial. Aqui, tambor e livro são tecnologias contíguas. O Parque Shanghai é tão importante quanto o Cristo Redentor. Bach é um gênio como Pixinguinha. O Museu Nacional, um território sagrado, que acumulava o axé proporcionado pelos ancestrais à comunidade.

Não é um livro sobre resistir. É sobre reexistir. Reinventar afetos, aprender a gramática dos tambores, sacudir a vida para que surjam frestas. Para que corpos amorosos, corpos de festa e de luta se lancem ao movimento e jamais deixem de ocupar a rua.

Luiz Antonio Simas é escritor, professor e historiador, mestre em história social pela UFRJ. Tem mais de 15 livros publicados. Recebeu o Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção em 2016 com ‘Dicionário da história social do samba’, que escreveu em parceria com Nei Lopes e foi publicado pela Civilização Brasileira.

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