Especial/ Festas juninas

79 anos do Festejo de São Pedro, tradição que arrasta multidões na Ilha

O encontro e as homenagens são o ponto máximo da reverência ao santo que, de pescador, virou apóstolo; procissão marítima ocorre neste sábado, às 15h30

Thiago Bastos / O Estado

- Atualizada em 11/10/2022 às 12h24
Igreja de São Pedro após reforma realizada pelo governo em 2001, quando passou a ter essa denominação
Igreja de São Pedro após reforma realizada pelo governo em 2001, quando passou a ter essa denominação

SÃO LUÍS - Dos primeiros grupos à consolidação da festa como rito religioso, o Festejo de São Pedro completa 79 anos, conforme defendem pesquisadores da festa. Com a construção da capela por César Aboud até a década de 1970, a tradição ganha nova configuração e apresenta modificações. Com o processo de modernização da capital maranhense e entrega de obras de expansão urbana, as homenagens ao santo padroeiro dos pescadores e das viúvas tornam-se conhecidas não somente entre os moradores da região Central como em outros bairros.

Contam alguns mais antigos que um dos primeiros grupos de bum­ba-boi a comparecer na capela simples de São Pedro, às margens da Praia da Madre Deus, foi o Boi de Iguaíba, ainda na década de 1930. A informação é rechaçada por Herbert Santos. Para ele, as primeiras manifestações compareceram à estrutura religiosa para as bênçãos do santo em meados da década de 1940. “Os primeiros grupos somen­te compareceram neste período. Alguns contatos de pessoas com antigos moradores da Madre Deus e estivadores vindos da região de Guimarães da Baixada e que por ali na Madre divina se estabeleceram facilitaram o deslocamento das primeiras manifestações”, disse o pesquisador.

Segundo Herbert, grupos como o Boi do Matadouro (que virou o Boi de Leonardo), de Laurentino (da Fé em Deus) e do Mizico (da Vila Passos) foram os precursores da tradição de buscar na capela a proteção divina. “Como havia na comunidade da Madre Deus uma força muito grande da comunidade cultural, com a promoção previamente de festas de Carnaval, por meio dos grupos tradicionais, pensou-se na junção da festa religiosa com a tradição dos grupos de bumba-boi. E deu certo”, frisou Herbert.

O fator barragem
Com a inauguração, em meados da década de 1970, da Barragem do Bacanga, o itinerário da procissão marítima (que antes saía da Praia da Madre Deus) passou a ter como ponto de partida a maré alta do Jenipapeiro, no cais que atualmente é administrado pela Marinha do Brasil (ainda é possível ver o cais para quem sai da Ponte Bandeira Tribuzi) O deslocamento, assim como hoje, depende da variação da maré.

Dependendo do ano, a procissão sai nas primeiras horas da manhã ou no fim da tarde. A atual configuração da procissão e da capela permaneceu até 1997, quando o governo do Maranhão, na gestão de Roseana Sarney, financiou a construção da igreja em alusão ao santo.

O projeto foi pensado, na ocasião, pelos departamentos de infraestrutura e apoiados pelo setor de cultura. Com os serviços, a igreja passou a funcionar no alto do espaço do largo, com cobertura em formato de chapéu típico dos grupos de bumba boi. Subir as escadarias que dão acesso à igreja passou a ser um desafio para os devotos.

Antes da reforma mais recente, a capela de São Pedro foi reformada em outras três ocasiões, entre 1973 e 1995. No entanto, neste período, foram feitos apenas reparos por iniciativas da Prefeitura de São Luís. A partir de 2001, por orientação da comunidade, a Arquidiocese de São Luís modificou a referência nominal da capela, de forma definitiva, para Igreja de São Pedro (reportada à Paróquia de São Pantaleão, no Centro).

Uma das responsáveis pela manutenção da igreja é uma personagem que, vindo de Viana (MA), se apaixonou pela festa ao santo padroeiro dos pescadores. Ao se estabelecer em São Luís com o pai e a mãe, dona Regina Soeiro (cuja formação católica auxiliou na proximidade dela com a congregação religiosa) é uma das pessoas mais conhecidas da comunidade da Madre Deus.

Na quinta-feira (27), véspera do clímax da festa, Regina Soeiro estava preocupada com a autorização do Corpo de Bombeiros que, horas mais tarde, seria concedida. A O Estado, a colaboradora lembrou que a tradição ganhou ainda mais pujança a partir da reforma da capela por intermédio do Governo do Maranhão. “No governo de Roseana Sarney, foi construído um novo templo, deixando assim de ser capela e passando, em seguida, para igreja da comunidade da Madre Deus”, disse.

Ela relembrou o esforço diário da comunidade em manter a ordem na construção religiosa. “Apesar da festa estar restrita, em um primeiro momento, especificamente ao período junino, durante todo o ano, há uma ativa programação voltada para as atividades religiosas. Em paralelo a isso, temos promoções de eventos para a manutenção da festa”, disse.

Maria Francisca, a ‘Bagum’, com Herbert Santos
Maria Francisca, a ‘Bagum’, com Herbert Santos

Lembranças dos mais antigos
Uma das frequentadoras mais antigas da igreja de São Pedro é dona Maria do Socorro Pereira, de 84 anos. Vinda do interior maranhen­se, ela citou os antigos encontros nos arredores. “Nossa, faz muitos anos que frequento! Dava muita gente, realmente”.

Ela conta que, apesar do encontro dos bumba-bois, costuma frequentar mais por causa da festa religiosa. “Sou devota de São Pedro e costumo vir nas missas e em todas as rezas e nas homenagens”, disse.
A descendente “Bagum”

Em uma humilde casa da Rua Pau d’Arco, na Madre Deus (a poucos metros da atual igreja de São Pedro), reside há mais de sete décadas a aposentada Maria Francisca dos Santos (conhecida como “Bagum”). Ela, além de vários atributos (simpatia, humildade, sinceridade…) tem ligação de parentesco com vários dos organizadores da festa. Dentre as heranças, é sobrinha de José Raimundo Carvalho (vulgo Zé de Zuleide).

Ao falar com O Estado, dona “Bagum” rememorou histórias que marcaram sua infância e adolescência. Aos 77 anos, a agora aposen­tada se lembra do empenho do tio em tornar a festa conhecida da cidade. “Ah, ele era muito orgulhoso desta festa. Falava com todos para sempre conseguir donativos. Sem ele, o festejo e o encontro não seria conhecido”, disse.

De acordo com a sobrinha de Zé de Zuleide, dona Marcela - a antiga zeladora da igreja de São Pedro - também foi fundamental. “Ela quem cuidava da igreja, a antiga, no caso. Depois, dona Marcela passou a missão para outra pessoa”, disse.

Programação do Festejo de São Pedro

De acordo com os organizadores, a procissão marítima que encerrará o festejo de São Pedro sairá neste sábado (29) às 15h30, da Rampa Campos Melo, na Praia Grande. Após aproximadamente uma hora de cortejo, o grupo volta para o terminal de embarque e desembarque. Em seguida, os romeiros seguirão a pé até a igreja de São Pedro, onde está programada inicialmente a reza do terço (sob a responsabilidade do Terço dos Homens do bairro do Goiabal, no Centro).

Às 19h do mesmo dia, está programada missa campal. Neste ato, será feita uma homenagem a romeiros, devotos de São Pedro e fiéis de outras congregações.

Saiba mais

Sobre o São Pedro

Nascido em Betsaida – Simão (assim chamado), era de origem pescador e casado, além de ter um filho. Seu nome, Pedro, foi concebido após encontro com Jesus Cristo, em um dia de pregação. Jesus disse a Pedro: “Avança para águas mais profundas” (Lc 5; 4).

Mesmo trabalhando à noite inteira e quase sem esperança, ao chegar no meio do mar, Pedro jogou suas redes e não acreditou quando, ao retornar, pediu ajuda ao irmão. Ao voltar, Jesus disse a ele: “Você será pescador de homens” (Lc 5;10)

Ao ser glorificado com o poder do Espírito Santo, de acordo com a bíblia, tornou-se um dos doze apóstolos de Jesus. Ao assumir tal posto, trouxe à tona a ira do poder vigente (em Jerusalém e Roma). Assim que “descoberto”, foi condenado à morte por ser seguidor de Jesus. Ele teria sido morto em 29 de junho e seu corpo, de acordo com historiadores, estaria onde atualmente encontra-se o Vaticano.

Programação

Sábado (29)

15h30 – Procissão Marítima (com saída programada da Rampa Campos Melo)

16h30 – Chegada da procissão à Rampa Campos Melo

17h – Chegada a Igreja de São Pedro

18h15 – Reza do Terço

19h – Missa Campal

Fonte: Comunidade São Pedro

Regina Soeiro, uma das organizadoras do Festejo de São Pedro
Regina Soeiro, uma das organizadoras do Festejo de São Pedro

Outros fatos históricos

O convite a Archer para visitar a capela

Em 19 de janeiro de 1947, conforme explicita o presidente da Academia Maranhense de Letras (AML), Benedito Buzar, em seu artigo “As eleições no Maranhão”, é eleito para o mandato de governador um homem chamado Sebastião Archer da Silva (com 36.532 votos). Recém no cargo, na edição do dia 2 de julho de 1949 do Diário de S. Luiz, o governador visita as instalações da capela de São Pedro.

Trouxe o antigo periódico o seguinte registro do fato: “Uma comissão de pescadores esteve em Palácio, convidando S. Exa, o Sr. Governador, para assistir aos festejos que se realizarão na Capela de São Pedro, na Praia da Madre Deus, organizados pela Colônia de Pescadores”. O detalhe desta história é que o convite foi feito em julho, ou seja, em tese após a data alusiva ao santo – que normalmente é reverenciado a cada 29 de junho.

Da Rampa Manoel Nina saía a travessia marítima

Entre 1949 e 1970, da escadaria da rampa Manoel Nina (às margens da Praia da Madre Deus), saíam as embarcações rumo às águas para, anualmente, homenagear São Pedro. Uma das construções mais conhecidas era o iate Paulo Afonso, cujo registro fotográfico constam nos arquivos de Herbert Santos. “Nesta época, a saída era da Madre Deus da procissão marítima com destino às águas. Depois, o cortejo voltava para a capela”, disse Herbert a O Estado.

Com a construção da barragem do Bacanga, no começo da década de 1970, houve uma mudança obrigatória do itinerário da procissão. Antes disso, os bois já davam o tom da festa e das homenagens a São Pedro.

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