Geral | Entrevista - Paulo Pires

Cobradores demitidos vão ser requalificados, afirma empresário

30/05/2019
Cobradores demitidos vão ser requalificados, afirma empresárioEmpresário Paulo Pires disse que mudança resultará em aumento da segur ança no sistema de transporte que atende a cidade de São Luís (De Jesus / O ESTADO)

SÃO LUÍS - O diretor-executivo do Consórcio Upaon-Açu - que detém as concessões das linhas de ônibus que passarão a circular sem cobradores -, Paulo Pires, informou ontem que os empregados demitidos do sistema de transporte urbano de São Luís terão como compensação, além dos direitos trabalhistas garantidos por lei, a oportunidade de requalificação visando à sua reinserção no mercado de trabalho. Uma das ações é a oferta gratuita de curso de direção veicular, na categoria D, a todos os cobradores desligados.

Pires classifica a medida como necessária, diante das sucessivas altas dos combustíveis, aumentos de salários, danos causados aos ônibus pela precariedade das vias e para garantir a continuidade dos investimentos na melhoria dos serviços. Ele afirma, ainda, que as demissões estão amparadas por lei. Sobre a possível sobrecarga de trabalho imposta aos motoristas que atuarão nas linhas sem cobradores, Paulo Pires informa que esses profissionais passarão por treinamento rigoroso para tornarem-se aptos a operar o serviço com excelência.

A mudança, segundo o diretor, também resultará em aumento da segurança, pois os coletivos serão equipados com sistema de videomonitoramento e circularão com menos dinheiro, o que levará à redução do número de assaltos, como já ocorre em outras capitais brasileiras. Quanto a eventuais congestionamentos nos embarques, em razão da ausência dos cobradores, ele diz que os empresários estão abertos para debater a questão. “As empresas não têm menor interesse em dificultar os atendimentos”, assinalou. Segue entrevista com Paulo Pires.

No cenário nacional com a taxa de desemprego muito elevada, é justificável a retirada desses trabalhadores do sistema de transporte?

A função de cobrador é muito importante no serviço de transporte, mas, assim como muitas atividades atuais, está em declínio pelo avanço tecnológico dos sistemas de cobrança automáticos. Temos que lembrar que a população paga pelo serviço de transporte diariamente, e qualquer custo adicional que não seja essencial eleva o preço do serviço. As empresas, junto com o Sest Senat, têm ciência do cenário econômico atual e por isso está oferecendo gratuitamente a habilitação categoria “D” para esses profissionais, o que representa mais de R$ 2.000.000,00 (dois milhões de reais) investidos para a requalificação e aproveitamento, assim como mais de 50 cursos para a reposição em diversas funções nos seus próprios quadros funcionais, como mecânica, elétrica, fiscalização e setores administrativos. Nós estamos falando de apenas 20% de linhas com características bem específicas. Nossos funcionários são o patrimônio humano das empresas, são profissionais capacitados e especializados, que, em muitos casos, conhecem cada passageiro em seu deslocamento diário, esse valor não abriremos mão, todos terão oportunidade de continuar no transporte e contribuir para um serviço de grande importância no funcionamento da cidade.

O motorista não ficará sobrecarregado com o acúmulo de atividades ao ponto de comprometer a segurança dos passageiros?

O item de segurança está acima de qualquer outro. Transportamos 60% da população diariamente, crianças, trabalhadores, idosos, portadores de necessidades especiais e estudantes. É uma grande responsabilidade, por isso o motorista é treinado, passa por testes práticos rigorosos e figura como um profissional de elite no setor de transporte. Ele é orientado para só deslocar o veículo após efetuar o recebimento do passageiro. Para evitar qualquer prática fora dessas normas, as empresas contam com videomonitoramento interno em toda a frota para a fiscalização da operação e partimos de critérios objetivos na implantação para reduzir essas necessidades. E os resultados da diminuição de dinheiro circulante e a mudança do lay-out resultou, em todo o Brasil, em queda do número de assaltos. Cito Cuiabá, capital do Mato Grosso, onde a média de assaltos mensais chegou a zero.

Quais os critérios adotados para essa redução e qual vantagem para a população de São Luís?

Em todo o Brasil, estudos vêm sendo conduzidos com o objetivo de tornar o transporte mais acessível e eficiente, sem impactar em aumentos de preços. No caso da nossa cidade, foram levantados os itinerários com a menor utilização de dinheiro no pagamento da passagem. Dou como exemplo linhas alimentadoras, aquelas que só vão até os terminais de integração, linhas universitárias e de zonas industriais, que, em alguns casos, a cada viagem apenas oito pagam com dinheiro. Seus embarques são quase exclusivamente com cartões estudantis e vales-transporte. A manutenção dessa mão de obra, nesses casos, é um preço pago pela população que deve ser poupado. São Luís tem a menor tarifa de capitais do Brasil e a frota de veículos climatizados já supera todas as capitais do Nordeste. O desejo das concessionárias é manter esse padrão do serviço, mas, infelizmente, a conta não fecha, principalmente pelo constante aumento do preço dos combustíveis, salários e as condições das vias da cidade. O cenário econômico é preocupante e a tarifa dos transportes não pode subir indefinidamente. O principal desafio do setor, em todo o país, é reduzir custos. Dou como exemplo o último reajuste, de 7%. No mesmo período, a perda de passageiros pagantes caiu mais de 10%, ou seja, a cada aumento, a situação se agrava, e, assim, deixa claro que o repasse direto dessas despesas não é a melhor solução para a população, nem para as empresas. O importante agora é evitar a simplificação do problema em discurso desinformado ou oportunista, sem uma percepção correta dos objetivos públicos e privados.

Atualmente, existe uma Lei Municipal que garante o posto de trabalho do cobrador. Qual é a base legal dessas demissões, já que vai de encontro a essa legislação municipal?

A Lei Municipal Complementar nº 3430/1996 regulamenta o sistema de transporte em si, como um todo, não dispondo de artigo taxativo que impede atos de cunho trabalhista, como demissões, qualificação da mão-de-obra e, principalmente, readequação da função do cobrador. Tal lei não é de natureza trabalhista e tudo o que estamos fazendo possui amparo na legislação trabalhista.

No caso dos portadores de necessidade especiais, o motorista ficará responsável pelo auxílio no embarque desse passageiro?

Sim, como exigência da Prefeitura de São Luís e do Sindicato das Empresas de Transporte todos os trabalhadores do setor de transporte público de passageiros devem, obrigatoriamente, ser certificados nos cursos de acessibilidade e atendimento aos passageiros. Nas empresas, o elevador é testado antes da operação e todos os motoristas e cobradores conhecem seu manuseio e estão capacitados para tal. Infelizmente, o que temos como problema nesse quesito não é a operação, e sim as condições que esses equipamentos estão sendo submetidos, sem calçadas adequadas, ruas destruídas e mergulhos em verdadeiras lagoas, o que ocasiona danos constantes e problemas de funcionamento, com elevados prejuízos às empresas, falhas no atendimento e perda das garantias dos mesmos.

A população teme congestionamentos e demora nos embarques. Quais providencias serão tomadas para evitar esses transtornos?

Como falei anteriormente, esses problemas estão previstos com a seleção limitada das linhas. É claro que estamos dispostos ao debate das soluções aos problemas que possam surgir e monitorando cada implantação. As empresas não têm menor interesse em dificultar os atendimentos, pelo contrário, estamos tomando várias iniciativas no intuito de substituir o dinheiro circulante por créditos eletrônicos, fazendo parcerias com operadoras para emissão de cartões e recarga facilitada desses créditos, em estabelecimentos comerciais, nos terminais de integração e totens de autoatendimento, para que no futuro próximo esses problemas, como assaltos diários, falta de troco e lentidão desnecessária, sejam assuntos superados, como ir ao banco apenas para tirar um extrato.

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