Geral | Medo e silêncio

Facção "domina" bairro da capital e "tribunal do crime" impõe medo e terror

Moradores do Rio Anil/Bequimão convivem com medo e silêncio, têm casas invadidas por criminosos e, na semana passada, jovem de 23 anos foi assassinado e esquartejado após "julgamento"
11/05/2019
Criminosos intimidam os moradores de todas as maneiras

SÃO LUÍS – Um clima de medo, silêncio sob fortes ameaças e convívio diário com a criminalidade fazem parte da rotina dos moradores do Rio Anil Bequimão, área que fica na área conhecida como feirinha, próximo à unidade mista de saúde do bairro. Membros de uma facção criminosa dominam a região e, mesmo com algumas ações da polícia no local, utilizam a intimidação para seguir usando casas invadidas para pontos de tráfico de drogas e para execuções. Na semana passada, o corpo de um jovem esquartejado foi encontrado em uma cova rasa, em um matagal do bairro, e os populares afirmam que ele foi "julgado" por uma espécie de “tribunal do crime”.

Moradores afirmam que desde o ano de 2015 o bairro vive sobre as rédeas do crime. Pessoas ouvidas pela reportagem afirmam, sem querer se identificar, que, neste período, várias casas no local já foram invadidas por membros de uma facção criminosa que atua em vários pontos da Região Metropolitana de São Luís. Segundo relatos, esses criminosos vêm intimidando as famílias que moram na comunidade. Por conta desse clima de terror, várias pessoas deixaram o bairro desde o crescimento da onda de crimes.

“Há uns quatro anos, mataram o filho da dona Ana, com 12 tiros. No mesmo ano, mataram mais sete pessoas. Neste período, a polícia fez várias batidas aqui, e muitos desses bandidos sumiram. Quando foi no mês de agosto do ano passado, o clima voltou a piorar. E eles passaram a atacar novamente. Depois de um tempo, ele botaram vários moradores para ir embora, tomaram conta das casas. Se alguém denunciar, eles matam a família toda. É um clima de muito terror. Muitos moradores foram embora daqui com medo, inclusive a dona Ana, que teve sua família destruída. Hoje, um traficante mora nessa casa”, disse uma moradora.

Casa foi invadida e utilizada para execução de jovem

Os moradores relataram um caso, que aconteceu na semana passada, de uma senhora que havia perdido o marido recentemente, e precisou deixar sua casa, com receio que algo lhe acontecesse. “A dona da casa precisou ir para a casa da mãe dela, com medo, após a morte do seu marido. Ela ia passar apenas um período de três meses, mas quando tentou voltar sua casa estava invadida. Os ‘donos’ do bairro tomaram de conta. Eles que mandam aqui. Tem o Gabriel, o Vitor, o Mateus, o Jeremias, Carol, o Pablo, e a sua mãe, a Sandra, todos são dessa facção. A polícia prende e, tempos depois, eles estão aqui de volta. Eles invadiram a casa dela 2 horas da madrugada”,

Até as crianças têm sofrido com essa situação. Outro morador disse que muitos pais mandaram seus filhos para o interior por conta da onda de violência. “Nosso sonho era que esses bandidos saíssem daqui. Vários pais mandaram filhos, que tiveram de deixar a escola, para o interior, com medo desse pessoal. Estamos com muito medo”.

Tribunal do crime e execução macabra

No último sábado (4), a violência chegou a um patamar ainda mais assustador no Rio Anil Bequimão. Um jovem, chamado Derick Ruan Malheiro, de 23 anos, foi encontrado esquartejado, em um matagal, após denúncia dos próprios familiares da vítima. Após a denúncia, policiais militares foram até o local, chamado de Vila Socó, e encontram o corpo. Os próprios familiares desenterram o corpo. Derik estava sumido desde o dia 1º de maio (quarta-feira).

Uma fonte ouvida pela reportagem afirmou que Derick foi julgado e sentenciado, de forma equivocada, por uma espécie de “tribunal do crime”, que age no bairro. “Esse menino só vivia para jogar bola. Todo dia nós víamos ele com a chuteira nas mãos. Tenho certeza que ele não fazia parte de facção. Aqui nós sabemos quem são os criminosos. Nós acreditamos que, como ele jogava bola em uma quadra no Bequimão, e nessa quadra poderiam ter pessoas de outra facção, ele foi julgado como um X-9 [gíria usada para designar alcaguete]. Ninguém aqui entendeu o que aconteceu”.

A reportagem ouviu um relato de como essa execução teria acontecido. “No dia 1º de maio, 8h40 da noite, uma mulher [o denunciante citou o nome dessa pessoa, mas pediu para não ser publicado] que mora na casa 23, que a facção invadiu e botou ela para morar lá, junto com um grupo de pessoas, pegou esse menino e mataram ele dentro dessa casa invadida. Depois botaram o corpo em um carro de mão e levaram para enterrar. Em seguida eles lavaram a casa”, disse outra fonte.

Local onde o corpo de Derick estava enterrado

Governo afirma ter policiamento no bairro

Em contato com O Estado, a Secretaria de Segurança Pública do Maranhão (SSP-MA) informou que o “8º Batalhão de Polícia Militar mantém trabalhos preventivos e ostensivos na região Rio Anil/Bequimão, a exemplo da Operação Pontual, realizada pelo Grupo Tático Móvel (GTM) e Albatroz, que resultou na prisão de acusados de integrar organizações criminosas”.

Segundo a nota do Governo, como resultado das operações realizadas, “só nos primeiros dias de maio de 2019, a Polícia Militar realizou sete prisões. Entre elas, está a de um homem identificado como Gustavo Keven Dias Santos, suspeito de realizar assaltos na região”.

Sobre o caso da morte Derick Juan Malheiro, a SSP-MA informou que, por meio da Superintendência Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (SHPP), segue com o processo investigatório. Os detalhes não serão divulgados para não atrapalhar o andamento das investigações.

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