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Lado obscuro: assédio e insegurança na rotina de motoristas

A cada dia, este tipo de coerção se torna mais comum e tem como vítimas pessoas que apenas querem fazer bem o seu serviço e ganhar seu dinheiro licitamente
Thiago Bastos / O Estado 23/03/2019
Assédio está se tornando comum no transporte de passageiros

Era um dia como outro qualquer na rotina de F.S. (motorista Uber e cuja identidade foi preservada) quando recebeu, durante a tarde, uma chamada vinda do bairro Renascença, em São Luís. Motorista de aplicativo e de bom trato com os clientes, ao receber a chamada, F.S. não imaginou que passaria por um de seus maiores constrangimentos na vida: ele seria assediado sexualmente.

O assédio, aliás, vem se tornando comum na rotina da cida­de entre aqueles que oferecem os serviços de transporte de pessoas - seja por táxi ou por dispositivos tecnológicos. A polícia está de olho nos infratores e orienta as vítimas a procurarem os seus direitos.

O caso de F.S. passou a se configurar como crime quando ele decidiu chegar perto do local de embarque do passageiro (identificado aqui como W.). Ao perguntar no chat - disponível em alguns aplicativos - para W. onde ele estava, F.S. recebeu uma cantada. Ele foi convidado a fazer sexo oral com o cliente. Imediatamente, F.S. cancelou a corrida e passou o caso para a empresa à qual está reportado. “Precisei recorrer à empresa para que as providências fossem tomadas”, disse a O Estado.

Ao reportar à empresa, F.S. recebeu a orientação de que deveria registrar um boletim de ocorrência. O fato foi catalogado pela vítima em um print da conversa entre ele e W. “Fiz isso para me resguardar de qualquer coisa. Eu fiquei ofendido com o pedido, me senti totalmente desrespeitado e decidi tomar providências, pois não queria que outros colegas passassem pelo que passei”, disse.

O aplicativo vinculado a F.S. não somente deu respaldo ao motorista, como também bloqueou o então cliente W.. “Pelo que a empresa me passou, este cliente não será mais inserido no banco de dados da empresa”, disse F.S.. Ele aproveitou para dizer ainda que não tem nada contra o desejo homossexual de W., mas que se sentiu desrespeitado, pois estava no trabalho e não tinha dado liberdade para ele. “Tenho esposa e filhos, mas mesmo que curtisse homem não seria momento para isso. A sociedade precisa entender que o espaço de trabalho precisa ser respeitado”, disse.

Outro caso de desrespeito a F.S. aconteceu em um fim de semana. Um grupo de jovens (homens e mulheres) pediu corrida para um determinado bairro da cidade. Ao chegarem ao destino e cientes do pagamento, uma das mulheres do tal grupo pediu para dar um “beijo” em F.S.. O motorista, por sua vez, repreendeu a jovem. “Também não foi legal este comportamento. Foi algo que sem dúvida feriu o lado pessoal”, disse.

Outros colegas do motorista passaram por situações semelhantes. Um deles, que também preferiu o anonimato, afirmou que o autor da “cantada” chegou a apalpar seu órgão sexual. “Estava com o passageiro na frente do carro e a conversa fluía bem. Quando em um determinado momento, o passageiro perguntou se poderia fazer algo que estava com muita vontade. Eu disse a ele que dependia do que e ele colocou a mão em cheio no meu pênis. Na mesma hora, retirei a sua mão e pedi que saísse do carro”, afirmou o motorista.

Geisa optou por pedir que passageiro saísse do carro

Mulheres idem
Não somente homens passam por situações constrangedoras. Rotineiramente, mulheres também são vítimas do assédio ou de situações que configuram ou podem configurar estupro. A motorista Geisa Batista, que roda na cidade durante as madrugadas, contou alguns relatos de passageiros “assanhados”.

Um dos casos, citado pela vítima, ocorreu há algumas semanas. Ao receber um passageiro em seu veículo, em determinado momento da viagem, recebeu a cantada. “Ele começou a me olhar estranho e pediu para me beijar. Fui bem clara com ele e disse que não estava ali para isso e sim para disponibilizar um serviço de transporte. E foi o que fiz”, disse.

Na ocasião, ela tomou uma medida considerada extrema. “Disse a ele que não deveria mais fazer isso, parei o carro no meio do caminho e pedi para ele descer. Não quis nem o valor da corrida até aquele momento, nem fiz questão. Quis apenas me livrar daquilo”, afirmou.

Em outro caso, por pouco, o passageiro não a apalpou. “Eu percebi que ele [passageiro] estava com um olhar diferente. Ele bem que tentou, mas graças a Deus não concretizou”, lembrou Geisa Batista.

Motoristas relatam mensagens de assédio

Proteção
Em São Luís, as mulheres ainda são minoria no serviço de transporte de passageiros. Dados preliminares apontam que a cada 10 motoristas apenas duas são do sexo feminino. A Delegacia da Mulher, que funciona atualmente no Jaracati, na Casa da Mulher Brasileira, é o local a que as vítimas devem se encaminhar para registrar o fato.

A O Estado, a delegada titular da Mulher, Kazumi Tanaka, disse que ainda não há registro, nos autos da polícia, de casos de mulheres assediadas durante o trabalho como motorista. “Neste ca­so, são mais comuns as ocorrências de mulheres apalpadas nos ônibus”, disse.

Apesar de registros nulos, a delegada enfatizou que as vítimas devem procurar a polícia, nestes casos. “Muitas vezes, por questões de constrangimento, as vítimas não nos encaminham o caso. Se a ocorrência não for oficializada, a polícia fica de mãos atadas. É preciso que as vítimas se encorajem e nos procurem”, afirmou.

No caso dos homens, o recomendável é registrar um boletim de ocorrência. O serviço é preferencial e depende da vontade da vítima.

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Insegurança
Este não foi o único caso vivido por F.S. em sua rotina como motorista e seus colegas de profissão. Em corridas em área nobre da cidade, são muitas as histórias de medo ao volante. Uma delas foi contada por um motorista de aplicativo, que também preferiu não se identificar. O início da corrida foi em um bar, na Avenida Litorânea. “Era noite de domingo. Primeiro, entrou uma jovem e sentou-se no banco de trás. Quando estava quase saindo, a passageira apenas me disse que outras três pessoas entrariam”, disse.

As tais três outras pessoas eram homens que, segundo o motorista, apresentavam aspecto de estarem alcoolizados. Quando perguntou para onde era a corrida, o medo aumentou. “Vi que era na Liberdade. Nada contra o bairro, mas à noite eu procuro evitar. Em todo o caso, segui em frente”, dis­se.

No meio do caminho, um dos passageiros perguntou ao motorista se poderia “cheirar um pó”, referindo-se à droga. “Eu disse tudo bem. Sem problema!’”, afirmou. Um dos homens, que estava no banco da frente, em seguida, escondeu uma pistola no porta-luvas do carro. “Fica na tua e não vai te acontecer nada. Foi o que disse o homem para mim. Pensei que fosse morrer”, afirmou.

Assim que chegou ao bairro, o grupo desceu do carro e pagou a corrida. “Deu 48 reais. Me pagaram com 50 reais e não pediram troco. Um deles ainda me deu mais 30 reais como gratificação. Foi o maior susto da minha vida”, contou. Mesmo diante do susto, o motorista segue circulando à noite, tentando ganhar um troco a mais.

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Contra o assédio e a favor do amor

Motoristas que rodam na capital maranhense também sabem contar histórias que fogem ao medo e à insegurança. Uma das mais interessantes foi relatada por Geisa Batista, que está na função há pelo menos cinco meses. Ela transportou, há algumas semanas, um casal homossexual. “Era a primeira saída deles”, disse.

No primeiro encontro, nada de mais. “Eles apenas deram um selinho e o mais tímido ficou em casa”, disse. Ao segundo, Geisa passou um conselho. “Por que você não dá uma de difícil? De repente, a pessoa por quem se apaixonou corresponde”, disse.

O tempo passou e uma chamada veio da Litorânea. “Quando cheguei no local de embarque, não era o casal novamente? Desta vez, estavam juntos. Ao que dei o conselho, recebi um agradecimento sincero”, disse a “motorista-cupido”.

LEI
Proteção contra Asséd
io
O Código Penal descreve crime de assédio sexual como “constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual”. Segundo a lei, a pena nestes casos seria de detenção de um a dois anos (nos casos de médio potencial ofensivo). A punição pode elevar em um terço se a vítima for menor de 18 anos.

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