Cidades | DIA MUNDIAL DA ÁGUA

Em São Luís, realidade de rios e do mar alerta para futuro dramático

Ocupação indevida, falta de saneamento básico, descarte irregular de lixo e deficiência em políticas públicas viabilizam caminho sem volta; dois rios que cortam a capital padecem pela falta de algum tipo de intervenção
IGOR LINHARES / O ESTADO22/03/2019
Rio Anil na maré baixa: restam o lixo e as palafitas

No Dia Mundial da Água, celebrado hoje, 22, muitos são os questionamentos que pairam sobre a realidade dos mares e rios em São Luís, afetados, diretamente, pela ação do homem, no momento em que descarta o lixo de forma incorreta, bem como quando a gestão de saneamento da cidade deixa de lado a implantação de políticas que beneficiem a população quanto aos serviços básicos e a administração municipal hesita em punir a ocupação indevida de faixas litorâneas e ribeirinhas, que trazem prejuízos e preocupação com episódios como o dos últimos dois dias. Na noite de 20 e 21, a elevação da maré para 6,9 e 6,5 metros, respectivamente, causou alagamentos em regiões consideradas baixas e mal planejadas da cidade, segundo especialistas, como a Península da Ponta d’Areia, o bairro Liberdade e o Centro Histórico da capital. Na manhã de ontem, a orla do município de Raposa amanheceu alagada.

A preocupação com os recursos hídricos é evidenciada neste dia simbólico. porém deveria fazer parte do dia a dia das pessoas, já que a água está presente em quase todos os momentos da vida das populações, seja para a higiene pessoal, consumo, preparo de alimentos e, ainda, para geração de energia. Contudo, o homem faz pouco uso da própria consciência quando o assunto é a utilização deste bem natural para manter a vida na Terra - ponto ao qual pouco se tem dado a devida importância, embora as organizações tenham se manifestado para evidenciar que, se os hábitos dos indivíduos não mudarem, graves serão as consequências que se alastrarão pelo planeta.

Rio Anil
Atualmente, uma das principais ameaças para toda a água existente no universo, dos mares e oceanos aos rios e outros cursos de água doce é o ser humano. E, ainda, mal sabe ele que tem, portanto, sido uma ameaça para a sua própria vida, uma vez que, sem água, é impossível a sobrevivência de qualquer ser no mundo. Mas, enquanto isso, continua, por exemplo, a morte do Rio Anil - curso de água com extensão de mais de 13 quilômetros, que percorre 55 bairros da capital até a sua foz, na Baía de São Marcos, onde desemboca ao mar na pior qualidade possível, misturada ao esgoto in natura de residências que, desde que erguidas, à beira do rio, não foram beneficiadas com a implantação de sistema de esgotamento sanitário.

Não bastasse a falta de sistema de esgotamento, outro - e novamente o mesmo - problema que afeta o rio é a falta de consciência da comunidade que mora em construções no entorno, que deveriam ter sido inviabilizadas pela gestão municipal, ao descartar, incorretamente, resíduos sólidos, formando um dos retratos mais catastróficos do corpo do rio, na altura da Vila Palmeira. Com a pouca vegetação do mangue que ainda resiste no perímetro, detritos como garrafas pet, em sua maioria, acabam ficando presos entre os galhos, mas também são levados, junto de toda impureza possível, ao seu curso final, o mar - que, mesmo com seu alto poder de regeneração, não perdoa corpos invasivos e já indicia sua revolta, diante pequenas amostras, para as próximas décadas.

“O cenário apocalíptico e pessimista que temos como perspectiva só se concretizará se a população humana continuar expandido sem controle e na pobreza, porque a pobreza é o pior inimigo da ecologia e da qualidade de vida. Quando se tem invasões, a cidade é comprometida na qualidade de vida e no seu planejamento urbanístico. Ou seja, esse cenário tem como premissa a expansão desordenada dos recursos naturais e da população mundial”, declarou o consultor ambiental Márcio Vaz.

Rio das Bicas
Ainda em São Luís, o Rio das Bicas, de grande extensão pela cidade, abrangendo, pelo menos, 30 bairros, é outro que enfrenta as ações das moradias indevidas, da falta de saneamento básico e intervenção do poder público para evitar que a situação continue a se agravar. Tomado pelo lixo e esgoto, o diagnóstico visual atual de todo o seu curso é o pior em décadas de descaso. Nem parece que foi importante fornecedor de recursos naturais para os moradores dos bairros de Fátima, João Paulo e Sacavém, os quais por anos retiraram seu sustento da extração de madeira do mangue e da pesca do peixe, caranguejo, siri e camarão. Mas esqueceram de preservar.

De 1980 para cá, o uso e a ocupação das margens do Rio das Bicas foram aumentando e muitas áreas de mangue foram desmatadas e aterradas para a construção de moradias, causando todas as consequências previstas, já que as intervenções ocorreram sem apoio e planejamento, o que causou a poluição das águas devido a despejo contínuo, até hoje, do esgoto proveniente da rede doméstica, lixo e entulho de construção civil.

Na Raposa, a maré alta fez a água invadir a cidade

Ocupação e construção
Outro grave problema, que inclusive ocasionou alagamentos em São Luís nos últimos dois dias, é a construção em áreas aterradas e que toma espaço do mar, que não permite ou retrocede ao seu ir e vir em direção à costa, em maior ou menor intensidade, mas que reflete bem todas as interferências do homem sobre o natural.

“A invasão da água em zonas urbanas ocorrem em função de que tais áreas [as alagadas durante os episódios das duas últimas noites] eram reservadas para a inundação das marés, mas que foram utilizadas para construções de aterros hidráulicos. Essas mesmas áreas urbanas, quando antropisadas por meio de lixo e de outras modificações, favorecem para que essas águas possam retomar o seu espaço e evadir”, declarou o oceanógrafo e professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Antônio Carlos Assuma, que não hesitou em pontuar: “A maré vem buscar o seu espaço”.

“As ocupações em áreas baixas, sobre mangues aterrados, estão, naturalmente, sujeitas a esse tipo de cenário [o qual tomou a Praia Grande, Península e bairro Liberdade]”, destacou Vaz.

Mar
Neste ano, nove laudos foram emitidos, confirmando impropriedade nos 21 pontos analisados, que, além das praias já citadas, contempla também Olho d’Água e do Meio. Os resultados seguem negativos em todos os pontos desde 27 de dezembro, ao último laudo emitido terça-feira (19), totalizando 102 dias de praias impróprias até hoje. A situação é resultado de uma série de problemas relacionados, principalmente, à drenagem e descarte incorreto de lixo que, somados ao período chuvoso, acometem a orla, conforme explicou o consultor ambiental.

“Basicamente, a gente tem um padrão associado à época chuvosa e à seca. Durante a época chuvosa, as praias tendem a ficar impróprias devido às chuvas carrearem toda a poluição oriunda de depósitos de lixo nas ruas, áreas da cidade que não possuem saneamento, por causa da urbanização informal, e lançarem estes resíduos no mar. Outro fator refere-se à drenagem. São Luís tem um problema de possuir muitos pontos de esgoto lançados irregularmente em drenagens de chuva, nas galerias pluviais. Então, quando chove, a água da chuva leva, também, esses dejetos para as praias”.

Ainda de acordo com o especialista, as condições de balneabilidade devem ser levadas a sério, devido aos riscos à saúde. “É um indicador de risco à saúde humana. Isto é importante deixar claro. Então, a questão de uma contaminação indicada pelas bactérias que são monitoradas na água diz que esse recurso tem um potencial de risco para pessoas que entrarem em contato com essa água. Pessoas de grupos de risco, como crianças e idosos, apresentam maior probabilidade de contaminação, visto que, tendo um organismo mais exposto e frágil, podem contrair doenças ao entrar em contato com este ambiente”, ressaltou.

SAIBA MAIS

Água no Brasil

O Brasil é um país privilegiado no que diz respeito à quantidade de água. Tem a maior reserva de água doce da Terra, ou seja, 12% do total mundial. Sua distribuição, porém, não é uniforme em todo o território nacional. A Amazônia, por exemplo, é uma região que detém a maior bacia fluvial do mundo. O volume de água do rio Amazonas é o maior de todos os rios do globo, sendo considerado um rio essencial para o planeta.

As maiores concentrações populacionais do país encontram-se nas capitais, distantes dos grandes rios brasileiros, como o Amazonas, o São Francisco e o Paraná. O maior problema de escassez ainda é no Nordeste, onde a falta d’água por longos períodos contribui para o abandono das terras e a migração aos centros urbanos, agravando o problema da escassez de água nestas cidades.

Água no mundo

A Terra possui 1,386 bilhão de quilômetros cúbicos de água, mas apenas 2,5% desse total é de água doce. Os rios, lagos e reservatórios de onde a humanidade retira o que consome só correspondem a 0,26% desse percentual. Daí a necessidade de preservação dos recursos hídricos. Em todo mundo, em média, 10% da utilização da água vai para o abastecimento público, 23% para a indústria e 67% para a agricultura

A água doce utilizada pelo homem vem das represas, rios, lagos, açudes, poços, reservas subterrâneas e em certos casos do mar (após um processo chamado dessalinização). A água para o consumo é armazenada em reservatórios de distribuição e depois enviada para grandes tanques e caixas d’água de casas e edifícios. Após o uso, a água deveria seguir pela rede de captação de esgotos. Antes de voltar à natureza, ela deveria ser tratada para evitar a contaminação de rios e reservatórios, mas isso não é o caso em grande parte dos países. No Brasil, ainda não chega a ser 40%.

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