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Árvores frutíferas voltam a ser plantadas em canteiros de SL

Depois de anos de plantas ornamentais, que pouca ou nenhuma sombra traziam, é notório o esforço das autoridades e de cidadãos para minimizar os efeitos nocivos da sujeira no ar e propiciar um ar mais respirável
Thiago Bastos / O Estado 02/02/2019
Frutas da estação: mangueiras em alça do Elevado do Trabalhador


Garantir o bem-estar da sociedade requer ações positivas do poder público e de órgãos civis para disponibilizar um ambiente agradável e saudável. Este esforço é ainda mais necessário quando se tem a interferência, na sociedade, de fatores como poluição atmosférica, que refletem a emissão de gases tóxicos diretamente no ar que respiramos. Neste contexto, faz-se necessário incentivar políticas de valorização de espécies vegetais pela cidade. Em São Luís, nos últimos anos, é notório o esforço de entes da administração municipal e de cidadãos para minimizar os efeitos nocivos da sujeira no ar e propiciar um ar mais respirável. Uma das principais iniciativas vistas em ruas e avenidas é a retomada de uma prática antiga: a fixação de plantas frutíferas e que geram alimentos deliciosos, como mangas, amêndoas, jambos, cajus, abricós e outros.

Nos últimos anos, a Prefeitura de São Luís – por iniciativa do Instituto Municipal da Paisagem Urbana (Impur) – colocou em prática várias ações para a revitalização paisagística da cidade. Além das ações de manutenção de praxe, o Município também contemplou neste sentido as avenidas Castelo Branco, Colares Moreira, dos Holandeses, Daniel de La Touche, Jerônimo de Albuquerque, além de determinados bairros, como o Cohatrac e adjacências.

Um exemplo desta prática ocorre em uma das alças do elevado da Casa do Trabalhador, em São Luís. No espaço verde, estão sendo cultivadas mangueiras, que representam uma mudança clara no aspecto visual da cidade. As espécies estão no local desde 2015 e, sem a aplicação de métodos complexos de cultura (ou seja, as plantas somente estão expostas em solo comum e pouco adubadas), começam a produzir frutos. “Trata-se de uma transformação na paisagem da nossa São Luís, com o incentivo à plantação de mudas que possam dar frutos. É importante para o ecossistema, pelos benefícios para a qualidade do ar, para a cadeia animal, que se beneficia dos produtos fornecidos pelas plantas, e a gestão pública resgata uma prática que fora adotada há alguns anos e que retorna novamente ao cotidiano”, disse Fábio Henrique Farias, presidente do Impur.

De acordo com o gestor, além do plantio incentivado em viadutos, avenidas e outros pontos, o Município também adota como prática o cultivo destas amostras em áreas referenciais, como o Centro. Recentemente, a gestão pública de São Luís – em parceria com órgãos federais, como o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) – entregou a revitalização do Complexo Deodoro. Na área, que abrange as alamedas Silva Maia e Gomes de Castro, é possível ver amostras, não somente frutíferas, como ainda outras como pau-d’arco, ipê, pau-brasil e outros exemplos. “No caso do pau-brasil, a ideia foi resgatar uma parte da história do país valorizando um item nativo. A população, além de usufruir de um ambiente aberto e organizado, também usufrui de espécies muito interessantes”, afirmou o presidente do Impur.

Parceria com a população
Para o trabalho de arborização da cidade dar certo, é importante contar com a apoio da população. Com ações simples, porém de um efeito incalculável a médio e longo prazo, cidadãos fazem a diferença e, disponibilizando seus períodos de lazer, plantam e adotam espécies vegetais. São várias as indicações de pessoas que, por hábito, adoram plantar usando um canteiro central, uma praça ou mesmo uma pequena área ao lado de um estabelecimento.

Há um bairro de São Luís, em especial, que demonstra com singeleza a junção entre a conscientização ambiental e iniciativa popular. No Cohafuma, vários trechos da Avenida da Universidade, uma das mais importantes vias do bairro, são constituídos por árvores do tipo frutíferas, em especial mangueiras.

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Funcionário de uma lanchonete há mais de duas décadas, seu Werberth Souza – conhecido no bairro pelo seu jeito rápido de preparar os tais lanches – é um verdadeiro incentivador da arte de plantar por conta própria. Ele perdeu as contas de quantas vezes ajudou no crescimento de árvores no bairro. A preferida dele é, sem dúvida, uma mangueira ao lado da lanchonete em que trabalha. A espécie recebe os cuidados do nobre homem há mais de dez anos. “Comecei a cuidar como uma brincadeira, e a gente criou um apego tão grande que atualmente não admito nem pensar em ver esta área da lanchonete em que trabalho sem ela”, disse.

Outro profissional especialista no zelo de plantas é o aposentado Ivanildo José Gomes, de 51 anos. Ele – que é natural de São Luís - conta com uma sobrinha e fã de plantas, Analice Coaracy Vieira, de 12 anos, na adoção de uma amendoeira colocada ao lado da Casa do Maranhão, na Praia Grande, Centro Histórico de São Luís. A aventura para colocar a planta em um dos locais mais conhecidos da cidade começou cedo, às 5h de uma terça-feira. Ivanildo – como um grande fã de plantas que é – decidiu pela amendoeira por considerá-la rara na cidade. “Sempre achei que a cidade deveria estar ornada de plantas grandes, que dão sombra e frutos, não apenas palmeiras”, disse.

Analice, mesmo jovem, não se incomodou em acordar cedo para fixar a planta no centro da cidade. Todo o momento foi registrado em fotos para ser lembrada mais tarde. “Meu tio me acordou cedo para ir e, quando ele entrou no mesmo quarto, já estava com os olhos bem abertos para poder ir”, ela contou, animada com a aventura.
Constantemente, a dupla passa pela espécie para ver como está seu desenvolvimento, após pouco mais de duas semanas de plantio, numa espécie de adoção. Esta, aliás, é uma palavra usada pelo poder público ao se referir ao trabalho de incentivo de fixação de mudas pela cidade. Até o momento, não há uma campanha voltada para o tema. Especialistas apontam que a administração pública poderia, por exemplo, fazer concurso pela cidade para premiar a muda mais bela e bem cuidada. No entanto, seria louvável que a população contribuísse com o trabalho de forma espontânea, sem necessariamente estar sujeita a prêmios em dinheiro.

Frutas que não são mais vistas
Quem é mais “antigo” conta que havia plantas fartamente em vários bairros da capital maranhense e que, atualmente, não são mais vistas por diferentes fatores, em especial climáticos. Uma delas era a que originava o chamado araçá – fruta que em tupi significa “planta que tem olhos”. Os mais privilegiados que tiveram o prazer de saborear o fruto, a comparam com a goiaba, com perfume mais marcante.

Existem diversas espécies de araçá, sendo as mais comuns o araçá-vermelho, o araçá-de-cora, o araçá-de-praia, o araçá-do-campo, o araçá-do-mato, o araçá-pera, o araçá-rosa e o araçá-piranga. “Infelizmente, foi um costume que se perdeu na cidade por várias razões. Havia na região da Ponta do Farol, por exemplo, há alguns anos, várias plantas que davam o araçá, uma fruta deliciosa. Não há mais planta deste tipo na cidade, pelo menos nos pontos mais conhecidos”, apontou o presidente do Impur.

No Cohafuma,mangueiras fazem sombra para carros

Outro fruto conhecido e originário de planta nativa comum e que não é mais visto com frequência na Ilha era o gerado do chamado guajiru. O produto da planta é comum atualmente em outros estados, como Rio Grande do Norte, Ceará, Pará e Pernambuco, pela resistência à ação da salinidade.

Na Praça Deodoro, os oitizeiros dominavam o espaço, garantindo sombra e frutos saborosos para quem frequentava o logradouro na década de 1980 e 1990, principalmente alunos das várias escolas que funcionavam na área.

VANTAGENS

Especialistas apontam diversas vantagens para o plantio de espécies pela cidade. Dentre as principais estão o equilíbrio ecológico e a transformação praticamente integral (dependendo da densidade) do gás carbônico em oxigênio. Além disso, o incentivo à fixação de mudas e espécies em geral também proporciona um visual urbano mais agradável e cria abrigos naturais para a proteção de raios solares, evitando possíveis doenças relacionadas à pele.

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