Cidades | SAÚDE

699 pacientes aguardam por transplantes de órgãos no MA

Instituições reforçam conscientização da população sobre importância da doação; em alguns casos, o ato acontece sem resistência, principalmente entre doadores vivos e da mesma família
MONALISA BENAVENUTO / O ESTADO22/01/2019

Doar-se ao próximo é uma atitude que, para alguns, transcende o singelo ato de, materialmente, oferecer ajuda. A doação de órgãos – que pode ser feita em vida e após o falecimento –, embora insuficiente para atender à demanda, tem registrado crescimento no Maranhão, onde 699 pessoas, atualmente, aguardam na lista de espera do Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão (HU-UFMA), único credenciado do estado para realização do procedimento, por transplantes de córnea, fígado e rins.

No Maranhão, o processo é coordenado pela Central Estadual de Transplantes (CET), que, por meio das Comissões Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para transplantes (CIHDOTT), vinculadas ao Ministério da Saúde, realizam atividades de sensibilização da população para a importância dos atos e gerencia as listas e filas de espera por transplantes. De acordo com a enfermeira-chefe da Unidade de Transplantes do HU-UFMA, Regina Cruz, pelo menos quatro CIHDOTT destacam-se no estado.

“As comissões, tanto do HU-UFMA quanto dos hospitais Socorrão I e II e Carlos Macieira, são as mais atuantes do Maranhão, dispondo do maior número de órgãos doados no estado. Durante todo o ano, estas comissões trabalham para conscientizar a população realizando campanhas, visitações e dias de conscientizações com panfletagens e palestras com o intuito de aumentar as doações de órgãos e tecidos. Acreditamos que estas ações têm impulsionado as doações, mas, ainda assim, a recusa de famílias é recorrente”, destacou.

Em alguns casos, a doação acontece sem resistência, principalmente entre doadores vivos e da mesma família. Aos 32 anos, o técnico em eletromecânica Rafael Garcia, diagnosticado com insuficiência renal, pôde deixar as hemodiálises após a doação de rim feita por sua irmã, Raquel Garcia. A cirurgia, realizada na última quinta-feira (17), já demonstra resultados positivos e resgata a esperança do paciente transplantado.

“Depois daquele dia, tudo tem melhorado. A sensação de voltar a realizar hábitos que durante tanto tempo foram restritos, e saber que não preciso ir três vezes por semana a um centro de hemodiálise, é maravilhoso. O universo está se abrindo novamente e as expectativas são ótimas”, declarou emocionado.

Para a doadora – que mesmo agindo em prol de alguém por quem tem tanto amor, precisou lidar com críticas e julgamentos sobre sua atitude –, não é possível dimensionar a experiência que fortalece ainda mais os laços de irmandade. “É algo inexplicável. Ver o quadro dele mudando de minuto a minuto e saber que ele vai sair da máquina de hemodiálise é muito gratificante. Eu não viveria bem sabendo que meu irmão precisava de um rim e eu tendo dois, não fizesse a minha parte.
Somos irmãos e agora nos tornamos ‘rimãos’, ligados pelo sangue e pelo rim”, ressaltou Raquel Garcia.

Além de recuperar a saúde, todo esse processo possibilitou a Rafael Garcia e sua família uma nova visão sobre a vida e, a partir de agora, poderá beneficiar outras pessoas que passam e passarão por situação semelhante à vivida por ele. “Esse assunto nunca foi abordado na minha família. Como a maioria dos brasileiros, a gente acha que nunca vai precisar e que as coisas só acontecem com o próximo, e quando, de repente, atinge a gente, é que é preciso encarar essa realidade. Diante do que aconteceu, não só a minha visão modificou, mas também a da minha mãe, meus familiares e amigos. E eu só tenho a incentivar a doação, porque a alegria que estou sentindo tem que ser compartilhada”, frisou.

Como dito por Garcia, não é um costume nacional abordar a doação de órgãos em conversas familiares, mas, de acordo com Regina Cruz, é preciso abandonar tabus e reforçar este desejo em vida para que seja concretizado. “Quem autoriza a doação dos órgãos é a família. Por isso sempre orientamos as pessoas para que conversem em casa sobre este tema, porque, quando ocorre o óbito e a família, já tem ciência do desejo da doação, tende a acatar, mas se não existe esta conversa acaba negando”, explicou.

É neste contexto que as ações realizadas pelos CIHDOTT tornam-se essenciais, pois esclarecem dúvidas e expõem às famílias como ocorre todo o processo de doação e transplante de órgãos que, conforme destacado pela especialista, reflete nos investimentos em saúde e, consequentemente, na economia do país. “Há uma diversidade de estudos que apontam os benefícios do transplante de órgãos e tecidos para o Sistema Único de Saúde. Eles reforçam que é economicamente mais viável realizar um transplante que manter e tratar pacientes que aguardam pelo procedimento, mas isto só pode ser possível por meio da doação de órgãos”, esclareceu.

Números

699 pessoas aguardam por transplante no Maranhão no total
472 pessoas necessitam de transplante de córnea
225 pessoas necessitam de rim
2 pessoas necessitam de fígado
301 transplantes foram realizados em 2018

Conquistas

Em 2018 o HU-UFMA passou a realizar transplantes de fígado, quando três procedimentos do tipo foram efetivados pelo hospital. Para 2019, a expectativa é realizar o primeiro transplante de coração do estado, visto que desde 2017 o hospital é credenciado para promover o procedimento, mas, no período, não houve pacientes habilitados para a fila.

Você sabe tudo sobre doação?

O QUE PRECISO FAZER PARA SER UM DOADOR?

É preciso avisar à sua família sobre seu desejo solidário de se tornar um doador após a morte. Não é necessário deixar a vontade expressa em documentos ou cartórios, basta que sua família atenda ao seu pedido e autorize a doação de órgãos e tecidos.

POSSO TER CERTEZA DO DIAGNÓSTICO DE MORTE ENCEFÁLICA?

Sim. No Brasil, o diagnóstico de morte encefálica é regulamentado por uma Resolução do Conselho Federal de Medicina, que determina serem necessários dois exames clínicos realizados por médicos diferentes e um exame complementar (gráfico, metabólico ou de imagem).

QUAIS ÓRGÃOS E TECIDOS PODEM SER OBTIDOS DE UM DOADOR FALECIDO?

Coração, pulmões, fígado, pâncreas, intestino, rins, córnea, valvas cardíacas, pele, ossos e tendões. Um único doador pode beneficiar mais de 20 pessoas e salvar inúmeras vidas. A retirada dos órgãos é realizada em centro cirúrgico, como qualquer outra cirurgia.

QUAIS SÃO OS TIPOS DE DOADOR?

Existem dois tipos de doadores: os vivos e os falecidos. Doador vivo é qualquer pessoa saudável e capaz, nos termos da lei, que concorde com a doação e que esteja apta a realizá-la sem prejudicar sua própria saúde. O doador vivo pode doar um dos rins, parte do fígado ou do pulmão e medula óssea.

Doador falecido é qualquer pessoa identificada cuja morte encefálica ou parada cardíaca tenham sido comprovadas e cuja família autorize a doação. O doador falecido por morte encefálica pode doar fígado, rins, pulmões, pâncreas, coração, intestino delgado e tecidos. O doador falecido por parada cardíaca pode doar tecidos (córneas, pele, ossos, tendões, vasos sanguíneos, etc.).

PARA QUEM VÃO OS ÓRGÃOS?

Os órgãos doados vãos para pacientes que necessitam de transplante e estão aguardando em uma lista de espera unificada e informatizada, em uma mesma base de dados. Cabe à Central Estadual de Transplantes, por meio desse sistema, gerar a lista de receptores compatíveis com o doador em questão.

Se não existirem receptores compatíveis no estado ou o mesmo não realizar a modalidade de transplante referente ao órgão doado, o órgão é ofertado à Central Nacional de Transplantes CNT/MS para a distribuição nacional.

A posição na lista de espera é definida por critérios técnicos de compatibilidade entre doador e receptor (tais como a compatibilidade sanguínea, antropométrica, gravidade do quadro e tempo de espera em lista do receptor). Para alguns tipos de transplantes é exigida, ainda, a compatibilidade genética.

APÓS A DOAÇÃO, O CORPO DO DOADOR FICA DEFORMADO?

Não. Após a retirada dos órgãos, é feita a recomposição do corpo e o doador poderá ser velado normalmente.

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